quinta-feira, 21 de maio de 2009

Unidos jamais serão vencidos

Faltando menos de um mês para o dia dos namorados (nem queiram saber minha opinião a esse respeito) foi lançando em São Paulo o Movimento dos Sem Namorados* (MSN, aliás uma sigla muito sugestiva em tempos de namoros virtuais), com direito a uma passeata no Ibirapuera que reuniu cerca de 3 mil militantes (será esse o termo mais correto, ou devo usar namorantes?).

O evento foi acompanhado por toda a mídia, com direito a entrevistas estapafúrdias com várias pessoas que pagaram o mico de aparecer na TV com os pedidos mais apelativos possíveis (não existe mais o namoro na TV ?)

Não faltaram comparações com o MST, infelizmente todas muito superficiais. Afinal, se o MSN pretende ter a mesma projeção que o seu equivalente da reforma agrária, deveriam se ater a alguns pontos importantes.

O primeiro ponto é a ideologia marxista ortodoxa. Se é a existência que define consciência, logo os namorantes deveriam aprender com sua prática solitária a construir sua luta. Além disso alguns conceitos sobre namoros precisariam ser modificados para atender completamente o ideal materialista histórico. O fim da propriedade privada implicaria que os namorados deixariam de ser exclusivos de seus parceiros numa verdadeira socialização dos meios de produção. Outra questão importante é o fim da busca por iguais (nos círculos namorantes chamados de almas gêmeas) e a adoção de um olhar dialético em relação aos pretendentes e pretendidos.

Outra questão é a prática de assentamentos em latifúndios. Para o MST não interessa se o latifúndio é produtivo ou não, assenta-se sobre ele. Já a visão dos membros do MSN ainda é burguesa, preocupando-se só com os latifúndios improdutivos e os objetivos geralmente não envolvem ficar assentados no sofá sob o olhar do papai (um modelo de namoro já bastante ultrapassado). O problema, nesse caso, é que os latifundiários nem sempre são conhecidos. Geralmente quem tem muitos namorados morre de medo que isso se torne público. Se o MSN atuasse nos países árabes ou em Utah onde a poligamia é legal ou, pelo menos, tolerada, seria mais fácil identificar onde montar o seu acampamento.

Uma questão de difícil solução para o MSN, caso conseguisse invadir e tomar algum terreno repleto de possíveis namorados seria a divisão dos lotes. Diferente das propriedades rurais que tem produtividade razoavelmente homogênea em toda a sua extensão, os possíveis namorados apresentam qualificações e desempenhos muito diferenciados. Isso certamente provocaria distúrbios internos sem direito a reuniões de auto-crítica (os sem namorados estão muito mais para uma auto-ajuda do que uma auto-crítica).

O MST reivindica representar uma continuidade na luta histórica dos camponeses brasileiros pela reforma agrária, já o MSN é um movimento sem história exceto pelos seus antecessores capitalistas que lucravam através de serviços de agenciamento matrimonial ou, mais modernamente chamados de match-makers. A menos que o movimento retome as velhas práticas de casamentos arranjados, o que não me parece fazer muito sentido num movimento de cores libertárias.

A Igreja, que normalmente apóia a luta do MST, ainda não se manifestou oficialmente a respeito do MSN. Em tese deveria ser favorável, uma vez que isso poderia incrementar o número de casamentos, sempre um bom negócio. No entanto, diz-se nos bastidores, que o possível patrocínio ao movimento por uma fabricante de preservativos afastaria o Movimento dos círculos clericais.

Já existe uma suspeita que o movimento nada mais é do que uma conspiração da Associação Comercial de São Paulo, com o objetivo de garantir as vendas no próximo dia dos namorados e que, passada a data do varejo, vai cortar os investimentos que está fazendo na promoção do mesmo, o que deixaria o movimento não só sem namorados, mas também sem dinheiro.

Em tempo, como todo movimento organizado na era digital, o MSN já tem o seu próprio site, que cobra pelos serviços e distribui prêmios aos participantes. Nada poderia ser menos marxista que isso.

* para não deixar o texto truncado optei por sempre usar o termo namorados (em português, o plural ainda se faz usando o masculino), mas entenda sempre como sendo namorados ou namoradas.

4 comentários:

Rubinho Osório disse...

Tua análise, centrada na apreciação marxista dos componentes MST e MSN, é de uma relevância inigualável.
Poucos teóricos, inclusive Gramsci, Trotsky, etc foram tão fundo. Talvez porque tivesem namoradas? Ou terras?
Sei lá...

Bel disse...

Adorei!!!
Este já é o segundo dia dos namorados que passo acompanhada, depois de vários sozinha. Mas sabe que é um dia como outro qualquer? Aliás, os dias com Namorado jamais serão dias "como outros quaiquer". ;)

Juliana disse...

Tenho de admitir que a sua leitura marxista do MSN revela que, pelo menos, você já leu Marx...

Fábio Adiron disse...

Rubinho e Juliana: é verdade, já fui um leitor mais assíduo do companheiro Karl. Atualmente sou marxista da linha Groucho

Bel: aproveite então, esse que não é um qualquer