terça-feira, 19 de maio de 2009

A óleo

Jaime era um chato longo, com quase dois metros de altura. Quando criança já era chamado de chato curto, com suas idéias planas e seu moralismo quadrado.

Nunca se arriscara a pensamentos chanfrados e o seu leque de imaginação era muito limitado. O que não significava que alguém pudesse destrinchá-lo. Sua única distração era comer línguas de gato ouvindo pelenesas.

Antonia era redonda. Redonda e curta. Seu cabelo pontas chatas pareciam ter saído de uma batedor. Sempre se vestia de sedas, como um pituá. Mas vivia cometendo gafes.

Porém, quando se encontravam diluiam-se um pelo outro. Roçavam suas espátulas sobre tecidos entretelados numa paleta cromática que não se coadunava com suas vidas cheirando a aguarrás e linhaça.

A técnica de ambos abrangia cerca de 114 matizes disponíveis, além de conjugar harmoniosamente umas com as outras mantinham um amor consistente, cheio de textura e brilho que parecia nunca secar.

Ainda que em alguns momentos fossem mais brilhantes e, em outros, um tanto opacos, sempre se permitiam corrigir falhas involuntárias, com toques de aço.

Quando se despediam Jaime vestia seus cerúleos, cheirava a violeta do vaso e partia em direção à sua terra de Siena que ficava ultramar.

3 comentários:

clau disse...

Chatos, curtos e furta cores.
Obtuzos de idéias ou sò desajeitados.
Tudo se enche de encanto, qdo se cria uma fantasia sob a pena de uma caneta...
Bjs!

Juliana disse...

Nada mais democrático que as misturas de cores e formas.

Bel disse...

O texto de hoje me trouxe lembranças de uma época* em que eu podia me orgulhar em reconhecer os nomes das tintas a óleo e saber e-xa-ta-men-te quais eram as cores.
Não vou mentir dizendo que não era bom. Era, sim. Mas hoje... tem coisa melhor. ;)

Bjo!



* Ex-marido era artista plástico, e eu ficava do lado enquanto ele pintava.