sexta-feira, 6 de março de 2009

Um óbvio nada ululante

Ficção é o termo usado para designar uma narrativa imaginária, irreal, ou referir obras de arte criadas a partir da imaginação.

Alguns dos meus leitores enfrentam alguns problemas com esse conceito (ou não confiam mesmo na minha imaginação) e, acabam lendo entrelinhas onde elas não existem.

Por isso hoje, resolvi ser um pouco mais explícito, a história é a seguinte:

João (aqui deixando claro que escolhi um nome próprio ao acaso e que o dito João não é o alter-ego do autor) acordou (o sentido do verbo acordar, nesse contexto, é literal e não metafórico) naquela manhã (que poderia ser qualquer manhã comum de qualquer dia da semana, exceto 2a feira, por motivos que se verão mais adiante) com idéias (de uma forma mais ou menos elaborada, todas as pessoas pensam) estranhas (notem que o fato da idéia ser estranha, não carrega nenhum viés pejorativo, apenas que eram ideias incomuns aos seus pensamentos habituais). Não sabia (usei de forma intencional como advérbio de negação apenas para demonstrar a ignorância de João sobre o fato) se fora algum sonho (conjunto de ideias e imagens que se apresentam durante o sono, nesse caso, está longe de ser um anelo, um anseio ou algum sentimento romântico), pois nunca (não me acusem de ser repressor com o uso da negação absoluta, nem sempre sou democrático, mas não chego a esse limite) se lembrava (referindo-me à situação corriqueira, para alguns, que lembram o conteúdo dos seus sonhos noturnos, não se deve intuir que se refira ao apagar de memórias desagradáveis) do que sonhara (o uso do pretérito mais que perfeito visa apenas seguir a norma culta da conjugação, não tendo como corolário que os sonhos do personagem fossem perfeitos ou não). Depois do café da manhã (a narração não deixa explícita se João morava sozinho ou não, até porque é um fato irrelevante para a trama), pegou sua carteira (isso significa apenas que ele não portava permanentemente o seu recipiente de numerário, nada consta que, na mesma, houvessem fotos de amantes ou bilhetes comprometedores), verificou se tinha dinheiro suficiente (apesar de alguns defenderem não traz felicidade, uma certa quantidade do mesmo seria necessária para a execução a seguir, uma vez que isso não é novela onde as pessoas compram coisas sem pagar) e caminhou (deu um passo depois do outro. Se caminhava, cantava e seguia a canção não sei, até porque isso carregaria um significado ideológico à historia) um quarteirão (em média, uma distância de 100 metros) até chegar (de certa forma traz uma noção de atingimento de um certo objetivo, nesse caso, apenas uma meta topográfica) à feira livre (são chamadas de feiras livres aquelas que acontecem nas ruas, por oposição aos mercados e feiras confinadas, não existe a necessidade de se extrair conclusões precipitadas sobre a liberdade. As feiras livres não acontecem às 2as feiras, a menos que o autor do texto esteja enganado). Comprou o que precisava (e, aqui, precisar se refere ao verbo que significa ter necessidade e não aquele que determina se há precisão) e voltou para casa (a volta ao lar tem vários significados simbólicos - nenhum deles foi usado aqui). Naquele mesmo dia (ainda um dia absolutamente indefinido e inadjetivado), pela primeira vez (todas as pessoas tem várias primeiras vezes nas suas vidas, se você lembrou de alguma que lhe foi relevante pode ter certeza que isso aconteceu por mero acaso, já que o texto não lhe dá esse direito) na sua vida (seja do ponto de vista biológico, seja do ponto de vista psicossocial), experimentou os sabores (quando eu falo em sabores, meus leitores costumam ter delírios metonímicos agudos, esquecem que suas papilas gustativas não tem uso exclusivo para usos lascivos) de rabada (aqui, além de metonímicos partem para a catacrese chula. Raios! Será que ninguém nunca comeu um bom rabo de boi cozido na panela de pressão) com catalonia (o vegetal de folhas verdes e amargas, não significando que, por ser verde, simbolize a esperança, nem por ser amargo, simbolize alguma dificuldade na vida)

Será que dessa vez eu consegui ser claro ? (no sentido óbvio de ser explícito e não do uso de cores de tons suaves)

6 comentários:

Virginia disse...

As clear as water...genial!!!!

Juliana disse...

Eu me arriscaria dizer(no sentido de que estou me colocando em perigo), que você conseguiu fazer de uma construção chatíssima(haja paciência para ler) um resultado gargalhante (evidentemente deitada no chão de pernas para o ar).

Arimar disse...

Fábio
Algumas coisas me ficaram cinza:( para não usar o termo claro ou escuro e parecer preconceituoso).
Por quê será que você não informou os temperos da rabada. Será alguma receita secreta?
Será que você colocou sal na salada? (Ou há um colesterol oculto?)
Bem acho que vou rever o conceito de Tim Tim por Tim Tim.
Beijos.
Arimar

Elis Zampieri disse...

Hummm...do que mesmo tratava esse texto?

Bjos sufocados.

Lou Mello disse...

Não esquenta. A maioria crê em interpretação literal. Aprenderam isso na escola dominical e agora não tem mais jeito.

Lucila disse...

Fantástico (que não é, definitivamente, nenhuma referência ao programa televisivo)!!!!! Compartilho da sua inquietação quanto às literalidades, embora eu mesma já tenha sido perpetradora de uma ou outra delas na vida...
Beijos (esses sim, literais).