quinta-feira, 5 de março de 2009

Paranoia blues

Josefina descia a ladeira todos os dias pensando. Por que será que Clarimundo a olhava daquele jeito? Seria amor? Seria desprezo? Seria ironia?

No começo ela ainda olhava para trás e percebia que, do alto da guarita do prédio ele a observava até que ela chegasse no final da rampa e entrasse na avenida.

Depois, nem precisava mais olhar, tinha certeza que ele a mirava na descida.

Se eu ainda estivesse numa subida, imaginava, ele estaria olhando as minhas pernas. Mas na descida? De costas?

O pior é que a rua não tinha saída para nenhum outro lado.

Um dia ela encontrou uma loja que pintava camisetas na hora e mandou fazer uma com letras garrafais dizendo : "tá olhando o que?"

Ele não esboçou nenhuma reação, nenhum comentário. Aliás, apenas lhe dava boa tarde quando partia.

Um dia, a patroa pediu que descesse até a portaria para pegar uma encomenda que chegara.

Ela desceu e, pela porta de trás da guarita, pediu o pacote. Ele nem se virou para olhá-la e pediu que ela viesse até a frente.

O sangue subiu à cabeça de Josefina que gritou : " Você é algum tipo de tarado, ou o que ?"

Clarimundo, pálido de perplexidade e de vergonha, esticou a mão para trás com o pacote e, timidamente respondeu :

"- Moça, eu tive um problema de saúde quando era pequeno e o meu pescoço não vira para lado nenhum..."

Ninguém nunca entendeu nada mas, daquele dia em diante, Josefina passou a descer a ladeira de marcha-ré para o deleite de Clarimundo.

2 comentários:

Lucila disse...

Grande verdade!!!! Às vezes, um charuto é só um charuto...
Se a gente (nós mulheres, especialmente) aprendesse isso, a vida seria bem mais fácil!!!
Beijos

Virginia disse...

Muitas vezes quem procura...não acha...