segunda-feira, 2 de março de 2009

Envolto em brumas

Lázaro trabalhava há mais de 20 anos na mesma empresa, a Nolava Empreendimentos. Sempre subordinado ao mesmo chefe. O chefe foi subindo, ele junto. Até que o chefe chegou à presidência ao conseguir desatar um nó estratégico que impedia a corporação de se expandir.

Nem todos os colegas gostavam dele. Cunharam-lhe o apelido de Lazarote, brincavam que era o fiel escudeiro do rei.

Sempre mantivera com o seu superior uma relação de amizade distante. Bons amigos no trabalho, nenhuma relação fora dele. Lazarote conhecia vagamente a mulher e os filhos do presidente, que vira em uma ou outra festa familiar da empresa.

Até que, num sábado à tarde, fazendo suas compras de supermercado da semana, encontrou Ginevrina, a mulher do chefe, junto à prateleira de legumes. Reconheceu-a e cumprimentou-a. Ela olhou de forma inquisitiva e ele lembrou a ela quem ele era.

Nesse momento ele percebeu lágrimas nos seus olhos claros. Questionou se estava tudo bem e ela começou a chorar.

Deixou seu carrinho de lado e, amparando-a, levou-a até o café e sentou-se silencioso ao seu lado. Ela também não falou nada. Chorou um pouco mais. Depois enxugou as lágrimas, agradeceu a sua atenção e se desculpou pela cena.

Quando chegou a segunda-feira pensou em perguntar ao chefe se ela estava melhor. Mas era um sujeito discreto, o presidente não falou nada, ele não perguntou nada. Mas não se conteve e ligou para ela para ter notícias. Ela ficou feliz com a sua atenção. Conversaram um pouco, que já era muito mais do que tinha se falado nos últimos 20 anos.

No sábado seguinte, quando chegou ao supermercado para fazer as suas compras, ela estava sentada no café, como se o esperasse (e, de fato, o esperava, foi descobrir muito depois). Fizeram as compras juntos. Identificaram as marcas e produtos que tinham em comum, discutiram longamente o uso dos temperos.

Alguns sábados depois já estavam trocando receitas na casa de Lazarote, onde morava só desde que Elaine o abandonara.

Não demorou muito para que Mordred, um dos seus detratores os visse no supermercado e avisassse o chefe. Esse agiu rápido e, no sábado seguinte mandou que seus seguranças Gareto e Gareno (irmãos gêmeos, com dois metros de altura cada um) fossem buscar Ginevrina no supermercado e aplicassem um corretivo em Lazarote.

O que não se esperava era que fossem encontrá-lo armado. Em pleno estacionamento sacou sua pistola automática e matou os dois.

Em meio ao pânico que se formou, Ginevrina fugiu para um lado e ele para outro. Ela se escondeu com uma das suas irmãs que era madre-superiora de um convento e ele numa propriedade rural no interior de Tocantins, onde trabalhou como caseiro.

Só voltaram a se encontrar no enterro do chefe, anos depois. Os olhos de ambos brilharam, mas os temperos já tinham perdido seu prazo de validade.

2 comentários:

Maria disse...

Mas pra que temperos.Questiobou se eram lágrimas,,, O pouco que conversaran era mais que tudo que foi dito durante vinte anos,,,
Vida Triste, ainda que gostem de olhos claros.

Juliana disse...

É a mesma história há séculos. Nem por isso deixa de fascinar.