sábado, 15 de maio de 2010

Brilho eterno

Petra era uma mulher sensível e delicada. Casou-se cedo com Gustavo e durante anos conviveu com suas idiossincrasias e suas indelicadezas.

A pior delas era o que Gustavo teimava em fazer com a vela de Petra.

Todas as noites ela acendia uma vela num castiçal de cristal que ganhara de sua mãe quando casara. Era o símbolo da chama do amor, eternamente acesa.

No começo Gustavo até lidou bem com aquele hábito. Não demorou muito, porém, ele passou a apagar a vela todas as noites antes de dormir, sem que Petra visse.

Na primeira manhã que encontrou a vela apagada, Petra acreditou que tivesse sido alguma corrente de ar. Na segunda manhã ela estranhou e, quando acendeu a vela mais tarde, certificou-se de que tudo estava fechado.

A vela continuou a aparecer apagada de manhã. Perguntou sobre o assunto para Gustavo e ele começou a se justificar a respeito de apagar a vela. Petra ficou arrasada. Chorou muito. Mas não desistiu.

Com o tempo ela foi perdendo o ânimo e não acendia a vela com a mesma frequência mas, por maior que se tornassem os intervalos entre uma tentativa e outra, ela nunca deixou de acender sua luz. E todas as vezes Gustavo a apagava.

Petra concluiu que era para ela mesma que acendia. Assim como a vela, a chama do amor já tinha se apagado há muito tempo.

Um dia Gustavo convidou alguns amigos para jantar. Dentre eles João que, apesar de ser um amigo de Gustavo desde a infância dos dois, era muito diferente dele.

João e Petra sempre tinham mantido um relacionamento meramente formal. Até aquela noite.

Já estavam todos espalhados pela sala tomando café quando Petra notou que João estava em pé perto da janela. Delicada e boa anfitriã, como sempre, foi ver se tudo estava bem com ele. Ele respondeu que sim e ela quis saber porque ele não se sentava com os demais.

João explicou que estava encantado com o brilho e o perfume da vela que estava sobre a mesa e que, se ele saísse de onde estava o vento apagaria a vela.

Petra começou a chorar. Acudida por João, disse que ele não precisava se preocupar com suas lágrimas, eram de emoção e felicidade. Apaixonaram-se.

Tempos depois, quando foram morar juntos, colocaram o castiçal no lugar de maior destaque da casa.

E todas as noites, juntos, acendiam a vela.

2 comentários:

Rubinho Osório disse...

Moral da história: a vela só se mantém acesa quando os dois assim desejam.
Ou, "quando um não quer, dois não amam".

clau disse...

Fabio, bem que isto poderia ser a vida real, onde a chama vela, por vzs, representaria a propria vida da pessoa, que um teima em apagar.
Entao, uma boa sorte aos seus Petra e Joao, que acendem sua vela, juntos.rss
Bjs!