sábado, 7 de novembro de 2009

Pacote completo

Alice e Ruy tinham saído para jantar para comemorar mais um aniversário de casamento. E não era qualquer um. Completavam 10 anos de vida em comum. Dez anos de felicidade.

Claro que tinham passado por bons e maus momentos, mas o saldo era extremamente positivo. Num determinado momento o assunto passou a ser o sucesso do casamento.

Ruy entendia que a felicidade morava na compreensão mútua, nunca ninguém o entendera como ela. Alice acreditava que o amor dispensava compreensão, não havia nenhum esforço intelectual para amá-lo, mesmo sabendo que seus intelectos eram um ponto crucial no relacionamento dos dois.

Não precisava raciocinar para amá-lo, tudo fluia naturalmente, como um rio sem obstáculos. Ruy concordou e fez questão de reforçar que o principal é que ele a aceitava do jeito que era.

Alice sorriu, propôs mais um brinde e o jantar transcorreu em clima de festa e de paixão.

No dia seguinte, Alice acordou com dor de cabeça. Não sabia se tinha sido o vinho, o tempero do risotto ou as poucas horas que tinham dormido. Tomou um analgésico e foi trabalhar.

A dor de cabeça não passava. Voltou mais cedo do trabalho, tomou um banho e foi para a cama. Ruy ficou preocupado, ela não costumava fazer isso, mas não quis acordá-la.

De manhã, Alice ainda estava com dor de cabeça, mas não tinha nenhum outro sintoma que justificasse recorrer a um médico. Ligou para o chefe e disse que não tinha melhorado e que ficaria em casa.

Fez um chá, sentou no sofá da sala e começou a fazer um inventário de tudo que tinha acontecido durante o jantar. Lembrou-se de cada pedaço de comida, cada gole de bebida.

Quando relembrava cada uma das frases que trocaram uma delas deu uma pontada na sua cabeça. Era isso!

Quando Ruy chegou, à noite, Alice o esperava sentada na mesa da sala. De cara ela perguntou que história era aquela de que ele a aceitava como era.

Ruy, surpreso, começo a explicar que, apesar dela ser uma mulher maravilhosa, ela também tinha defeitos, como qualquer pessoa, mas que ele aceitava todos eles. Enquanto falava, a cabeça de Alice doía ainda mais.

Até que ela o interrompeu. Disse que o que ela queria era amor e não concessões, que assim como ela o amava, ela queria ser amada apenas pelo que era. O amor não era um exercício de tolerância. Não queria comiseração. Não esperava que ele apenas se conformasse à ela.

Tudo ou nada. Pacote completo.

Encolhido na cadeira, acuado, Ruy não poderia ter escolhido pior as palavras. Disse que aceitava os argumentos dela.

Ela não disse mais nada. Foi até o quarto, arrumou a mala e, a caminho da porta disse que depois mandava alguém pegar o resto das suas coisas.

8 comentários:

Vilma Mello disse...

O Rui bem que podia ter impedido isso...que pena

beijos de sábado

Bel disse...

Pra você ver o quanto as palavras são poderosas.
Olha, tem vezes que eu me assusto diante de seus contos... parece que você viu alguma coisa numa bola de cristal...
Mas deixa quieto, que o mundo gira e a lusitana roda.

Bjo e bom sábado!
(Já acordei melhor que ontem!)

Bel disse...

Mas eu vou e volto.
Amar é fazer concessões, sim. Porque, quem é na vida que não tem defeitos?
E, ou a gente aceita os defeitos do outro, ou tenta mudar, ou se muda (de casa).
Então... Alice bem que podia ter sido um pouquinho mais inteligente... e humilde, pra aceitar que ela tinha, sim, defeitos.

(Tô que tô hoje, hein?)

veronica disse...

Na verdade o amor dela não era tão incondicional assim...bj

Fábio Adiron disse...

Vilma: algumas coisas são da essência das pessoas...

Bel: eu não tenho bola de cristal, mas desde que comecei a escrever o blog meus olhos e ouvidos reparam em tudo à minha volta.

Bel & Vero: a discussão nem é sobre a perfeição, mas a forma de lidar com a imperfeição.

Lucila disse...

Também tenho que acrescentar que oamor envolve sim, um exercício de tolerância. São os desvios das inevitáveis bigornas! E elas fazem parte.
Beijos sem bigornas

Rubinho Osório disse...

Moral da história: "homem, em boca fechada não entra mosca!" (nem sai bobagem).

Deumas disse...

Talvez, depois de 10 anos de casados é que eles realmente começariam a se conhecer...Foram 10 anos sem brigas, sem nenhum tipo de desentendimento, com muito amor, muita neve, papai noel e tudo mais.....e então surgiu a grande oportunidade do conhecimento e um... não era do outro.