terça-feira, 17 de novembro de 2009

Sombra e luz

Quando Platão escreveu o seu mito da caverna (que nada tem a ver com a Caverna do Lou, apesar dessa também ser mitológica) ele não imaginava que seria o maior influenciador do tenebrismo, ideologia desenvolvida por Ugo da Carpi no século XV.

Ugo ao se deparar com a problematização da luz como modeladora da imagem, ficou perplexo ao descobrir que as sombras, que ele tomava como verdadeiras, eram, de fato a falta de um conhecimento filosófico irreflexivo.

Quando compreendeu a metáfora da condição dos objetos reais, contrariando a linearidade platônica da eikasia, logrou alcançar o contraste incontornável entre entre a dianóia e a paranóia.

A partir desse momento, cada vez que olhava para a sua mulher entendia que a estruturação espacial do corpo feminino não acontecia por acaso, mas por causalidade. Essa técnica de observação fora do senso comum de outras visões de mundo exigiam conhecimento da perspectiva, do efeito matizador dos vestidos que usava.

Dizem as más línguas que, como a senhora Carpi não era exatamente uma beldade Ugo passou a observar somente a sua sombra, escapando das projeções de volumes tridimensionais.
Seu colega de trabalho, Baglione, que era um aristotélico sem maneirismos, entendeu que a tese de Carpi era apenas um sfumato ou, em bom português, uma nuvem de fumaça, para disfarçar outras intenções dramáticas.

Baglione concordava que a mulher de seu êmulo mais parecia uma natureza morta, mas isso não justificava a falta de sensibilidade do colega.

Durante os debates escolásticos que travaram, Baglione, mais de uma vez, referiu-se a Carpi como um sujeito sem transparência, mentiroso e corruptor da ordem vigente.

Somente a intervenção do professor Merisi, decano da universidade de Masaccio, onde todos trabalhavam, é que conseguiu resolver a briga, trazendo os dois inimigos de volta à realidade e tirando-os do mundo ilusório das coisas sensíveis.

Baglione já estava quase conformado com essa espacialização lógica de corpos distribuídos individualmente quando, uma noite, ao chegar em casa encontrou todas as luzes acesas atravessando todos os objetos da casa.

Sobre a lareira um bilhete de Donatella, sua mulher. Tinha fugido com Ugo da Carpi que tinha uma pístis e uma noésias que a fizeram renascer.

3 comentários:

Vilma Mello disse...

Eu não acredito que li isso até o final hahaha

beijos de terça

Bel disse...

Nem eu!
Resisti a jogar qualquer dos ermos no Pai Google. Dessa vez vc extrapolou na criatividade!!!

Bjo de terça.

Lou Mello disse...

Nunca será demais tomar cuidado com esses caras mitológicos e influenciados pelo Mito da Caverna e Platão. Nunca se sabe do que eles são capazes... :)