sábado, 12 de abril de 2008

Ut nunc sunt homines

Andrômaco sempre pareceu ser um sujeito comum. Apesar do seu nome. Ele mesmo admitia que seus pais tiveram escolhas esdrúxulas. O nome de uma de suas irmãs era Minâncora, a outra chamava-se Maizena. Claro que foram expostos a todas as piadas e trocadilhos possíveis na infância e juventude. Fora isso, nunca chamou a atenção. Foi um aluno mediano, um jovem sem excessos, um trabalhador dedicado mas sem nenhum brilhantismo.

Quando conheceu Mariana foi paixão à primeira vista de ambos os lados. Nesse momento ele se revelou um amante apaixonado. Depois de algum tempo, também mostrou ser fogoso. Mariana adorava o espírito de aventura do namorado. No começo dentro do carro, depois em lugares inesperados. Quando ela se dava conta não tinha como voltar atrás. Sempre riam das situações e eram felizes.

Alguns poucos anos de namoro e resolveram casar. O evento não poderia ser mais tradicional. Casamento civil. Igreja com tudo que Mariana tinha direito, incluindo Mendelssohn na entrada e Wagner na saída. Festa no buffet até às 4 da manhã, de onde saíram direto para o aeroporto para a lua-de-mel em Fernando de Noronha.

Foi uma semana em que Andrômaco se superou. Nos rochedos. Na praia. No Leão. Nos Golfinhos. No Sancho. Dentro do hotel poucos locais não foram explorados, sempre com o risco de serem flagrados. Quando chegavam ao quarto estavam tão cansados que caíam na cama e dormiam. A única vez dentro do quarto foi uma manhã no chuveiro.

Quando voltaram para a casa a frequência diminuiu, o que era natural. Mas não o estilo. Mariana sempre se surpreendia com as investidas de Andrômaco onde menos esperava. Não que ela não gostasse, mas um dia se tocou que estavam casados há mais de seis meses e nunca tinham feito na cama. Retrocedeu aos tempos de namoro e constatou que nem quando foram a um motel, uma única vez, tinham usado a cama.

Resolveu testar o marido. Na hora de dormir aconchegava-se e tentava provocá-lo. Uma, duas, três vezes sem resultado. Ele dormia ou fingia que estava dormindo. Aquilo começou incomodá-la. Um dia, durante o jantar resolveu confrontá-lo. Ele engasgou com o frango e quase foi parar no hospital, não fosse o tapa que ela deu nas suas costas fazendo voar a farofa. Pediu desculpas e fizeram amor na mesa da copa.

Esperou alguns dias e, sem comida por perto, perguntou de novo. Ele ruborizou a ponto dela achar que ele iria passar mal. Respirou fundo e respondeu : " - eu nunca te contei para não te preocupar, mas eu sou um aparafílico, alguns preferem chamar de infetichista. Enquanto um fetichista clássico se fixa num objeto para sentir prazer, eu sofro de total desprazer em relação à cama..."

Parada estava. Parada ficou. Olhos esbugalhados e completamente muda. Como iria falar para as amigas que era casada com uma apara... o que mesmo ? Ele perguntou se estava tudo bem. Ela só balançou a cabeça e foi para o quarto. Retomaram a falta de rotina alguns dias depois que o estado de choque passou.

Meses depois Mariana arranjou um amante. Aceitou a situação mas condicionou seu relacionamento extra-conjugal à sua necessidade de rotina. Só se encontrariam no apartamento dele e sexo só na cama, sem invenções - dessas ela já tinha bastante em casa.

4 comentários:

malmal disse...

Isso prova que bom senso e caldo de galinha não faz mal a ninguém e pior
não dá pra entender a humanidade.

bijok

Juliana disse...

Eu quero um Andrômaco....

Vilma disse...

Tudo o que é demais enjoa...

Taty disse...

Amor em lugares inusitados é bem melhor do que numa cama, suspense...tentar pra ver se vai dar certo, mmmmm......Na cama é muito óbvio.