quinta-feira, 10 de abril de 2008

Contículo elíptico. Incluí espasmos zeugmáticos


Céu baixo, ondas mansas, vento leve. Aquela hora, quase deserto restaurante, contava os últimos fregueses. Veio sem pintura, um vestido leve, sandálias coloridas. Eu já tinha visto aquela moça, não sabia onde.

Em redor, tudo parado. Estático. No silêncio da madrugada, nem o piar de um pássaro, nem o farfalhar de uma folha. Na sala, apenas quatro ou cinco solitários : um deles, bom rapaz, o verdureiro, cheio de atenções para com os fregueses. Outra uma professora insatisfeita, como, aliás, todas as suas colegas. João estava com pressa. Preferiu não entrar. Aos poucos, só nós dois. Um em cada canto do salão.

Olhei. As mãos eram pequenas e os dedos delicados. Os cabelos longos pareciam já ter tido tempos melhores. Olhar perdido sabe-se lá onde. Passava a impressão de que eu via coisas belas, emocionantes. Ela, as horríveis e abomináveis.

Levantei. Em direção ao caixa puxei assunto. Perguntei-lhe até quando ficaria. Ele disse que não sabia. Esboçou um sorriso. Só ai me inteirei de que ela havia sofrido e era boa. Por que será que a criatura se imola? pensei. Um ato de protesto, um amor desfeito ? Pareceu-me que, quando jovem, era bonita. Agora, cansada, não brilhava tanto a face.

Sentei-me ao lado. Ela me contou sua história.

"- Não foi agradável. E espero tenha sido a única. Ele era rico, fazia o que quisesse. Trouxe-me para cá. Na minha terra, só havia mato, aqui prédios. Nasci e cresci onde caçam todos os animais que podem. Não gente. Ao redor, bons pastos, boa gente, terra boa para se plantar. Acreditava que se trabalhasse e fosse dedicada, seria feliz."

Mais um gole de cerveja e continuou : " - E agora ? Onde o meu namorado ? Nem posso ir e dizer a ele as minhas penas e pedir, pedir apenas que ele lembre as nossas horas de poesia... Um dia, saímos, primeiro ao cinema, depois, ao baile..."

Parou para enxugar as lágrimas. Pedi café. "- Com ou sem açúcar ?" Ela se recompôs. Continuou : "Eu trabalho com fatos; outros com boatos. Na vida, tanta tormenta e tanto dano. Quanta maldade na terra. Diziam que ele agia qual bandido. Não cri. Antes tivesse.

"Entraram em casa, as armas na mão, os olhos atentos, procurando. Me escondi no quarto, ele também. Arrombaram a porta gritando : ´o prêmio foi conseguido e a prisoneira, solta. Venha conosco´. Ele, com expressão de surpresa relutou, mas cedeu às armas. Não gritei. Temi por sua vida. Saíram todos."

"Tive sorte, ele não, pensei. Até me aproximar da janela do quarto e ver na rua ele rindo junto com os bandidos. No armário as minhas roupas, as dele não. Tudo planejado."

Pagamos as contas. Acompanhei-a até o carro. Não a revi jamais.

4 comentários:

Vilma disse...

Ela deve ter mentido, nada como uma história trágica para deixar os marmanjos de queixo caído. Essas histórias sempre funcionam porque os homens pensam que as mulheres não pensam. Não se espante se ela aparecer de novo para colher os afagos.

Taty disse...

Pois é, não dá pra acreditar nos homens, com se diz em ingles são todos Smart Ass!

malmal disse...

nossa !!!rapaz sensível ouviu a garota, coisa rara hj em dia, mas ainda existe.

gostei do seu conto, mas gosto mais de porque a cada novo conto, o santo google me ensina mais, ele viu? rsrrss


thanks e bijim

Juliana disse...

Nunca te convidaram para escrever livro texto de português?

Se tivesse uma coisa dessas quando fiz cursinho a vida seria mais divertida.