terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Meu reino por um pastel

Manoel, apesar de sua origem lusitana, sempre preferiu um bom pastel a um bolinho de bacalhau. Sua experiência com o acepipe remontava à sua mais tenra infância quando sua mãe, em umas suas incursões à feira, carregou o fedelho e, para fazer com ficasse quieto, comprou-lhe um legítimo pastel de vento.

O miúdo teve delírios orgiásticos ao saborear a fina massa de farinha com água. Muito tempo depois descobriu que um dos segredos da mistura era adicionar um bocadinho de cachaça o que, provavelmente tenha gerado aquela sensação. Nada, porém,fez com que ele perdesse o encanto pela iguaria.

Já na sua adolescência, Manoel começou a fazer experiências na criação de receitas de pastéis. Testou novas proporções na mistura da massa, introduziu outras bebidas alcóolicas e alternou variedades de óleo. Mas, o que realmente surpreendia nas criações do jovem galego era a sua combinação de recheios. Chegou a fazer pastéis com 203 ingredientes diferentes.

Quando chegou à juventude, contrariando a tradição familiar, ele se recusou a trabalhar na padaria, incitando à fúria seu pai que o queria como seu sucessor. Entrou com um pedido de empréstimo na Caixa Econômica e a abriu uma pastelaria. Pastel do Manoel, um pedacinho do céu em plena Vila Isabel.

O sucesso lhe foi retumbante. As massas acorriam ao bairro periférico só para comer o famoso pastel. Não só comer, diga-se de passagem, todos podiam ver Manoel em ação preparando os pastéis, combinando ingredientes e usando a técnica que lhe era exclusiva de fundir os elementos espalhando-os uns sobre os outros com um guardanapo de papel.

As receitas das massas e dos recheios eram publicadas em todos os jornais e revistas de culinária, mas ninguém conseguia reproduzir a técnica do guardanapo.

Chegando à maturidade, o pasteleiro mór da cidade concluiu que menos era mais e reduziu seu repertório de ingredientes a 44 ítens. Originalmente ele pensara em 45 mas, na escolha final, ele eliminou a oliva, pois sua mulher não gostava de azeitonas. Com esses ingredientes Manoel conseguia reproduzir todos os sabores possíveis e existentes. Até mesmo alguns sabores que não eram passíveis de serem encontrado na natureza.

Ao se aposentar, ja avançado em anos, o pasteleiro foi homenageado pela Associação de Feirantes Pasteleiros (a poderosa AFP) sendo incluído no Hall of Fame do Pastel de Vento, além disso recebeu o título de doutor honoris massas pela conceituada École Gourmand du Cordon Violacé.

Em sua lápide, esculpida em forma de pastel, Manoel pediu que constasse sua citação clássica: pastelam sunt servanda, que em bom português dizia: que venham os pastéis

3 comentários:

Vilma Mello disse...

Quinta é dia de pastéis na feira...

Eu adoro

beijos

Arimar disse...

O pasteleiro da minha feira( sexta) é Japonês.
Mas vou procurar se tem algum com a receita do Português, para acrescentar ou melhor, incluir no meu cardápio. Também adoro pasteis.
Beijos.
Arimar

Raquel disse...

O ráios...se descubro esse truque,fico rica!!!