quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Borralheira

Nelly abriu a porta ainda sem fôlego. Jogou a bolsa e suas coisas em cima da mesa da sala, sentou-se um pouco e pensou em tomar um banho. Concluiu que não era de relaxamento que ela precisava, nunca estivera tão disposta e estava cheia de energia.

Foi para a cozinha. Separou ingredientes e começou a trabalhar.

Mexendo a comida nas panelas ela mexia nos cabelos dele. Cada tempero lembrava o seu sabor. Aromas, gostos, texturas. Era como se suas mãos implorassem por um toque que lembrassem os momentos em que tocara o corpo do amado. Ora trêmulo, ora firme. Ora ardendo, ora tépido. Seco, úmido, molhado, ensopado de suor e das gotas do chuveiro. Em todas as situações sempre delirante e apaixonado.

Cozinhando ela o amava.

O calor da cozinha aumentava à medida que as panelas soltavam vapores. Os ingredientes passando por mudanças químicas, mudavam de cor, de consistência. Tudo fervendo, tudo ardendo. Mesmo assim Nelly ainda aumentava a potência da chama para sentir o calor grudar na sua pele, tocar seu rosto, penetrar nas suas entranhas. Muito calor. Fusão de alimentos como fusão de corpos.

Esquentando a comida ela o amava.

Ela sempre soube que a cozinha era o lugar mais sensual da casa, onde tudo acontecia e todos os sentidos era estimulados. Nem no quarto ela sentia o mesmo. Sonhava com o momento em que dividiria com ele a sua cozinha.

Arrancando o avental ela o amava.

A água quente escorria pelas suas mãos, por entre seus dedos, acariciando e envolvendo-a. A espuma do detergente se formando, leve aroma cítrico, frescor oportuno, corrente de água límpida que remove impurezas, tudo brilha, tudo reluz.

Lavando a louça ela o amava.

Pia limpa, mesa do café da manhã arrumada. Nelly passou pano no chão, fechou os olhos e se sentiu a borralheira que, no dia seguinte, voltaria a viver seu sonho de princesa.

5 comentários:

Vilma Mello disse...

Esperta essa Nelly...

beijos de quinta feira

Juliana disse...

Interessante, as pessoas se identificam mais com um pastel do que com uma boa pia para lavar.

Anônimo disse...

Fabio.
O texto é lindo, como sempre, mas quanto ao contexto, desculpe, mas amo minha lavadora de pratos.
Não quero criar polêmicas, mas não há nada mais sublime do que você colocar os pratos e talheres engordurados dentro da máquina. Fechá-la, e ficar observando aquela maravilhosa movimentação das águas ( lembram a Pororoca) ao som que remete a um bailado cigano, e enfim:
Louça limpa e brilhante.
Nem uma gota de sabão ou água no chão, nem um pano molhado, nem um ralo com restos, nem um avental sujo de ovo.
Apenas o olhar, refletir e pensar: Minha avó nem imagina o que perdeu.
Beijos.

Arimar disse...

Fábio.
Fiquei tão empolgada falando da lavalouça que nem assinei.
Beijos. Arimar

Bel disse...

Esse vai e vem entre a fantasia e a realidade é o mais gostoso da vida. Ou seria a Matrix???