sábado, 13 de fevereiro de 2010

A cor do som

No vale do rio Konoronhkwa os dias corriam mansamente. As aves chilreavam e comiam insetos, as raposas regougavam e comiam as aves, os ursos bramiam e comiam raposas.

No meio da miríade de sons e refeições nasceu Kohetstha, uma borboleta de asas coloridas de violeta e magenta.

Kohetstha logo cedo aprendeu que a sobrevivência no vale estava diretamente relacionada com o silêncio. Sobrevoava a campina forrada de flores sempre da forma mais suave para não atrair predadores e coletava o néctar que sustentava sua atividade física intensa.

Do outro lado do vale, Teiakiatonts, um macho de cor azul forte também vivia de forma reclusa e silenciosa e, apesar de gostar muito de cantar, ele só o fazia na solidão escura da toca que descobrira num tronco de árvore onde morava.

Certa manhã uma tempestade se abateu sobre o vale. Os bichos fugiram em busca de abrigo, não foi diferente com Kohetstha. Levantou vôo com a intenção de voltar para casa, mas o vento a carregou para o lado de Konoronhkwa que ela desconhecia.

Temerosa, a borboleta avistou o buraco da árvore de Teiakiatonts. Preocupada que pudesse ser um ninho de vespas ela tentou se afastar do local, mas a chuva e o vento eram tão fortes que ela resolveu se arriscar e entrou no buraco.

Qual não foi a sua surpresa ao se deparar com Teiakiatonts cantando baixinho no fundo da toca. Quando a viu entrar ele se assustou, chegando a engasgar entre o si bemol e o sol mas, vendo melhor a maravilhosa borboleta que estava à sua frente concluiu que os céus a haviam mandado de presente.

Ele, que no primeiro momento, se apaixonara pela beleza de Kohetstha, descobriu que ela era muito mais que uma bela lepidóptera. Ela, que ficara encantada com as canções dele, percebeu rapidamente que ali estava o companheiro que sempre sonhara, mas que nunca crera que existisse.

O vale de Konoronhkwa não deixou de ser um lugar perigoso para qualquer animal mas a vida de Kohetstha e Teiakiatonts transformada a partir daquele encontro nunca mais foi a mesma. Ela continuou a se exercitar todos os dias mas agora sob o olhar amoroso do companheiro. Ele passou a cantar só para ela.

E viveram felizes entre as flores e a confusão sonora de arrulhos, cricrilares e zumbidos.

*A imagem é um quadro de Virginia Susana Fantoni Ribeiro

3 comentários:

Virginia Susana disse...

Anioniha tewaten:ron
Konoronhkwa ietsi:tewe
Tsethiiatken se:ra'na niha
Ne iethinoronhkwa

Kak are'non:wa tsi tekanato:ken
E:tho tiotirharenion
Kak are'non:wa tsi tekanato:ken
E:tho tiotirharenion.

Taty disse...

Eu adorei! Amei! Beijos

Fábio Adiron disse...

Prima: não sabia dos seus conhecimentos de mohawk... obrigado pela cessão do quadro.

Taty: não sei porque, mas achei que ia gostar