sábado, 27 de fevereiro de 2010

Mala para um

Como, se na desordem do armário embutido
Meu paletó enlaça o teu vestido
E o meu sapato inda pisa no teu
(Chico Buarque)


Maurício chegou em casa, sentou na sua cadeira de balanço, fechou os olhos e viajou em direção a outros planetas. Nunca tinha se sentido daquele jeito e o que ouvira naquela tarde mudava toda a sua vida.

Ele sempre fora uma pessoa independente. Fazia questão de ter as suas coisas, organizadas do seu jeito. Ele mesmo se encarregava da arrumação do seu quarto, da limpeza do seu banheiro. Nem o ralo deixava que a empregada limpasse. Fazia qualquer coisa para que ninguém tirasse do lugar aquilo que ele, metodicamente, tinha colocado aonde lhe parecia melhor. Nem mesmo durante o tempo em que morou com Fátima deixava que ela assumisse o seu lugar na ordem das coisas.

Mais do que qualquer outra coisa, existia um tema onde ele jamais admitira nenhuma contestação: a sua mala era a sua mala. Fosse para uma viagem curta ou longa, ele jamais dividira a sua mala com quem quer que fosse. Dentro dela navegavam apenas as suas coisas, meticulosamente organizadas de forma que ele encontrasse cada um dos seus pertences até de olhos fechados. Durante toda a sua vida ele resistira a qualquer sugestão de compartilhamento.

Seu estarrecimento acontecia justamente porque, naquele fim de tarde, durante um passeio pela shopping com Sueli ele mostrou para ela uma escultura em bronze de um casal dançando e mencionou que aquela poderia ser a primeira obra de arte que eles colocariam em casa, quando tivessem uma juntos. Sueli nem vacilou, no momento em que Maurício foi ao banheiro, entrou na loja, comprou a peça e foi encontrar com ele no café. Quando abriu o pacote ele nem sabia o que falar. Há tempos sonhava com o dia em que eles se casassem, mas sempre tivera a impressão de que ela evitava o assunto. O presente era uma proposta de casamento.

Durante o café falaram do assunto de forma brincalhona, mas nenhum dos dois estava brincando. Maurício sugeria lençóis e Sueli imaginava a organização do quarto. Até que, de repente, ela falou que quando estivessem casados não precisariam mais usar malas diferentes. Maurício arregalou os olhos, engoliu em seco e toda a sua vida passou por sua mente, uma vida em que sempre acabara sozinho, uma vida em que se acostumara a resolver tudo por sua própria conta. De repente, diante dele, alguém lhe dizia que ele não precisava mais ser assim.

Sueli percebeu que tinha tocado no ponto nevrálgico e ficou esperando alguma reação da parte dele. Ela o conhecia o suficiente para saber que o que falara representava não uma mudança de comportamento, mas toda uma forma diferente de encarar a vida. Sem jeito ele comentou que poderia ser, desde que ele arrumasse a mala. Sueli, obviamente, concordou com a condição. Depois do café a deixou em casa.

Nas idas e vindas da cadeira de balanço, Maurício criava imagens mentais da suposta mala conjunta. Começou pensando numa divisão com um lado para cada um. Aos poucos foi enxergando as roupas se mexendo dentro dela durante uma viagem. A perna da sua calça embaraçada no braço da blusa dela. Seus sapatos ensanduichados pelas sandálias de Sueli. A intimidade compartilhada das roupas de baixo. Tudo lhe parecia um delírio surrealista.

Levantou e saiu. Precisava de ar. Mais que isso, precisava dizer para Sueli o que realmente pensava aquele respeito. Não era possível para ele viver daquele jeito.

Já era quase meia noite quando o interfone tocou no apartamento de Sueli. Assustada com o avançado da hora, ela ouviu do porteiro que tinham deixado uma encomenda para ela. Pediu que ele a colocasse no elevador. Quando abriu a porta deparou-se com uma caixa imensa. Empurrou-a com dificuldade para dentro de casa e foi em busca de uma tesoura para abrir o pacote.

Quando a tampa da caixa se abriu ela pode, finalmente, enxergar o que era. Uma mala roxa, enorme, linda. Junto um bilhete: "não é grande o suficiente para guardar todos os meus sonhos e desejos, esses já estão protegidos dentro do seu coração, mas é suficiente para todas as viagens das nossas fantasias".

7 comentários:

Vilma Mello disse...

Hoje eu não vou dizer lindo...lá,lá,lá,lá
uí já disse, rs

Beijo de sábado

Arimar disse...

Fábio.
Desculpe.
Maurício está certíssimo!!!!
Embora você apresente de uma forma linda,metafórica, romantica, e tudo mais:
DEUS ME LIVRE,meu spray de cabelo na mesma mala com a espuma de barbear?
NEM PENSAR !!!!!!

Raquel disse...

Gostei da mala roxa,é fácil localizar
no desembarque.

Roberto de Avillez disse...

Um caso clássico de TOC numa excelente metáfora.

clau disse...

Muito belo, Fabio.
Dividir uma mala é querer chegar a um mm lugar, juntos...
Bjs!

Lucila disse...

Tenho certeza de que viver envolve mudanças de paradigmas (chique!!!), de preferência os mais difíceis de mudar!!!
Beijos

Fábio Adiron disse...

Cláudia: era exatamente onde eu queria chegar...