quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Reações amorosas

Zeca era daqueles sujeitos que acreditava na vitória da esperança sobre a experiência. Já tinha casado e descasado três vezes, mas ainda buscava a mulher ideal.

Sempre se julgara um romântico. E era mesmo.

Além de romântico era um bom observador e, diferentemente de outros homens que costumam ter expedientes repetitivos de cantadas, ele desenvolvia uma específica para cada mulher e para cada situação.

Na maioria das vezes fora bem sucedido. Em outras entrou pelo cano, quando algumas não gostaram desse excesso de observação e se sentiram invadidas nas suas privacidades.

Quando a situação lhe foi favorável ele experimentou as mais diversas reações. Espanto, surpresa, emoção, largos sorrisos e debulhar de lágrimas.

Assim como as mulheres eram diferentes, também o eram suas reações.

Algum tempo depois da terceira separação ele conheceu Sara. Uma mulher bonita, da mesma geração dele, valores e gostos muito parecidos.

Começaram a namorar. Cada dia que passava eles estavam mais apaixonados, mas ele, apesar de querer, relutava em falar em casamento.

Sua relutância não tinha nada a ver com as experiências anteriores mas Zeca era um purista, o pedido de casamento precisava ser a cantada perfeita.

Reparava em cada detalhe de Sara, seu modo de vestir, de falar, de pensar. Construiu e desconstruiu seu texto várias vezes.

Um dia, o amor atropelou a verve literária de Zeca e ele não resistiu. No meio da rua, disse que ela era o seu primeiro e último amor. A mulher, ao lado de quem, ele gostaria de morrer.

Sara olhou para ele. E engasgou. Literalmente. Não tinha nada na boca além de saliva, mas engasgou de tal forma que ele teve de socorrê-la ali mesmo.

Um mês depois estavam casados. Uma mulher que engasga com uma cantada já baixou a guarda completamente e se entregou incondicionalmente ao amado.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Poemeto acadêmico


Ele era um amante
De tudo e de nada
Paixão latu senso
Sua namorada

Ela era metódica
Uma meta definida
Paixão strictu senso
Era dela preferida

No discurso frio
De uma monografia
Tropeçaram no outro
Em plena academia

Propuseram teses
Questionaram filosofia
Só no amor encontraram
Uma nova taxonomia

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Fredsen não reprocharia

O prásino fora encontrado à alea por dois escoteiros que desciam de iuá tomando porongo. Os meninos, ainda rarípilos, o colocaram no puceiro e chamaram os colegas ao som da harmoniflauta.

Junto à aceca do lameirão vieram todos observar e pedra coberta de lismo. O chefe a colocou num cacim e guardou na cimalha da tapera onde estavam.

No dia seguinte, todos de fatiota aerínea fizeram seus exercícios amínticos para o esplênio, tiraram a jóia da padieira, subindo pelos taipais e rumaram para a urbe.

O mais morrudo de todos matava tentredos nas vergônteas como se fora um centímano. O chefe, nefalista e coercivo o enchia de aporemas.

De repente, formou-se um mistifórnio. Ouvindo o cantar do cnute, o empachado derruiu a ribanceira. Sentido a alêntese pela vante, outro áscio levantou os gadanhos num gesto fescenino.

Ameaçou o colega de evirar-lhe pelo pavoneio disponente. Esse fingiu uma cofose, com se ouvisse um landuá. Foi uma efialta.

Voaram corrumes no ptérion, parâmeses secernentes e até anadoses no carpelo. Nem as ócreas oogênicas resistiram.

De cima da sobrecabeceira, zarro de hemoglobina, aproveitou o auê e perpetrou sua laracha.

Amarrou o atafal, mirou o apéx e, entoando antífonas, peiou o ômer e fugiu iconomaníaco e ileáceo.

Charles Fredsen foi autor de "Do indo-europeu ao latim" e membro fundador da Academia Brasileira de Filologia

domingo, 27 de setembro de 2009

Hipótese nula

Mariana, talvez pelo próprio nome, tinha a mania de ficar citando Vinicius de Moraes para todos os seus namorados. Infinito enquanto dure, repetia sempre ela.

Alguns achavam piegas, outros romântico. E enquanto achavam isso, passavam um após o outro. Um deles, ao romper o namoro, mandou apenas um bilhete que dizia: "posto que é chama..."

Um dia Mariana conheceu Alfredo que era estatístico de uma seguradora. Apesar de ter o raciocínio lógico nas alturas, Alfredo era um sentimental.

Ouviu Mariana citar o poema e se incomodou. Ouviu a segunda, a terceira...

Até que não resistiu mais e resolveu dar uma aula de estatística para a amada.

Explicou que não existia infinito limitado. Nem no tempo nem no espaço. Que seu amor é para sempre.

A chance dele deixar de amá-la era nenhuma. Por mais que a estatística clássica negasse as probabilidades extremas, ele sabia que, afinal das contas, sua profissão era a mais inexata das ciências exatas.

Deixar de amar, explicou ele, era uma hipótese nula, só servia como tese para ser rejeitada todos os dias.

O máximo que ele poderia aceitar era um clássico erro do tipo II, ou seja, aceitar a hipótese nula quando ela era falsa.

O resto, dizia ele, tem nível de significância zero.

Mariana o ouvia paralisada. Pela primeira vez na vida alguém derrubava o paradigma que ela sustentara por anos. E com argumentos irrefutáveis.

Nunca mais recitou o poema. E nunca mais amou alguém além de Alfredo.

sábado, 26 de setembro de 2009

Conticulóides cremosos

Consistência

Quando Ana, sem querer, esbarrou na mão de Mário durante a reunião, ela sentiu algo lhe subir pela espinha. Nunca tivera aquela sensação antes e, olhando para a mão do colega, não conseguia imaginar o porquê, uma mão tão parecida com qualquer outra. Com o tempo descobriu que era muito mais que isso.

Aparência

Carlos era um esteta. Admirava as pessoas pelas suas feições, pouco importava o que elas pudessem ser, desde que fossem bonitas. Casou-se com Raquel, a mulher mais bonita que jamais tinha visto. Ela o maltratou e espezinhou durante toda a vida, mas ele só a abandonou quando concluiu que ela perdera sua beleza.

Aderência

Ele sempre dizia que a sentia penetrando nos seus poros. Ela achava engraçada a expressão mas, ao mesmo tempo, mais uma das cantadas baratas que ele insistia em lhe passar. Quando ficou grávida pela primeira vez descobriu que não. O exames pré-natais acusaram presença do DNA dela, no sangue dele.

Hidratação

Rosana sempre achou que banheira era coisa de gente fútil. Como é que alguém poderia achar aquele monte de água algo prazeiroso? Na primeira vez que passou a noite na casa de Daniel, ele encheu a banheira com sais de anis. Foi paixão instantânea, não por ele, mas pelos sais. No dia seguinte foi procurar um apartamento com banheira.

Aroma

André entrou no elevador e achou que algo estava diferente. Não era o tapete, nem o espelho. Os botões continuavam sujos e a porta riscada. Morreu asfixiado pelo gás antes de chegar ao 15º andar.

Permanência

Eu bem que gostaria de esquecê-la, ele sempre dizia. Não conseguia. Em cada canto ele encontrava algo que a trazia de volta à sua lembrança. Todas as noites dormia pensando se, algum dia, livraria disso. Não foi possível. No leito de morte, em delírios, a chamou até morrer.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Reprodução assexuada

Entrei na fase da educação sexual. Sinal dos tempos modernos o assunto aparecer no livro de ciências de um moleque de 10 anos.

Se assim é a realidade, vamos a ela. Era a matéria que o Samuel tinha de estudar para a prova de ciências.

O livro começava pelo básico. Aparelho reprodutor masculino, com os nomes oficiais daqueles penduricalhos que ele tem entre as pernas.

Aparelho reprodutor feminino, contando sobre órgãos que as meninas tem, mas ninguém vê.

Tudo muito bonitinho, Testículos produzem espermatozóides. Ovário liberam óvulos. Espermatozóides são ejaculados. Óvulos caminham em direção ao útero movido por cílios.

Viro a página do livro e... surge, do nada, um óvulo fecundado. E o tema passa a ser o desenvolvimento do bebê no útero.

Tudo bem, talvez a escola ainda não queira falar da parte mais divertida da coisa.

De repente, não mais que de repente, o assunto muda de novo. Entram em cena a camisinha e a pílula anticoncepcional.

Para que serve saber o que é uma camisinha (sim, eu sei para que serve) se ninguém explicou como é que a %¨&*# do espermatozóide chega no útero?

A pílula é só um jogo de esconde-esconde que não deixa o óvulo aparecer no útero?

Concluí que deva ser algum tipo de inovação pedagógica, educação sexual sem sexo.

Outra possibilidade é a de estimular a imaginação das crianças, assim cada uma pode inventar possibilidades para o encontro dos gametas.

Eu deixo por conta da sua imaginação as possíveis conclusões a esse respeito.

Como eu acho que a imaginação deve ser usada em outros contextos, expliquei para ele o processo completo.

Ato contínuo, ele perguntou se podia ir jogar bolinha de gude. O que, de fato, interessa mais um menino de 10 anos

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Inda hei de ouvir cantar...

Passou a noite sem dormir. Virou de um lado para o outro da cama e não conseguia pensar em nenhuma outra coisa.

Tinha cometido mais uma de suas gafes e magoado Inês. Justo Inês, a mulher pela qual esperou a vida inteira sem acreditar que existisse. Mulher que o tinha transformado num homem feliz.

Tentou se desculpar. Palavras não eram suficientes. Eram apenas palavras. precisava de algo mais.

Tentou marcar um encontro. Os horários não batiam. Ela teria um dia cheio de reuniões pela frente e, quando não eram os compromissos dela, eram os dele.

Ele não via como resolver o impasse. Resolveu arriscar.

Foi para frente do prédio do banco onde ela teria uma das suas reuniões. Parou na frente da entrada da garagem e ficou esperando.

Quando ela o viu levou um susto. Parou o carro perto dele e disse que depois conversariam, precisava de tranquilidade para a reunião.

Ele deu a volta no prédio e foi para a saída da garagem. Ia esperar até que ela saísse.

Postou-se ao lado de uma árvore. De repente começou a ouvir um pássaro cantando. Era um sabiá e não era uma árvore qualquer, era uma pitangueira carregada de frutinhas.

Enquanto esperava ouvia o canto da ave e lágrimas correram dos seus olhos. Não poderia perdê-la. Ficar sem Inês seria o mesmo que não ter mais vida.

O sabiá cantava. Único como só ele. Não existem dois sabiás com a mesma música. Não existia outra mulher como Inês.

O sabiá cantava. O primeiro canto da primavera que chegava. A estação do renascimento, o renascimento que ele encontrara em Inês.

Uma buzina interrompeu o seu devaneio. Era Inês. Ela falou para ele entrar no carro.

O sabiá bicou mais uma pitanga e cantou feliz.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Tango trágico

Geraldo já passara dos 50 e. como todo bom cinquentão, queria realizar seu sonho de adolescência e comprar uma motocicleta.

Não havia nada que impedisse, a mulher já estava conformada com o fato e ele tinha dinheiro suficiente para não acabar num crediário.

O único problema de Geraldo era que ele não sabia dirigir uma moto. Matriculou-se na moto escola, onde ia duas vezes por semana no final do dia.

Começou com as instruções básicas. Primeiro aprendeu a fazer o oito, sem perder a cadência nem cair na rede.

Em poucas semanas já dava a volta no quarteirão, sem nenhuma arrastada. Manuseava o freio sem sem enganchar em nenhuma fresta.

Começou a sofisticar sua técnica quando teve de fazer uma meia lua em volta da bolinha sacada pelo instrutor.

Com apenas uma empurradela colocava a máquina para planear, e nem deixava cair a cadeirinha.

Comprou uma Harley.

Resolveu estreiá-la numa noite de lua cheia. Saiu pelas ruas da cidade com a mulher na garupa.
Encaixou-se como um sanduíche entre os carros. Driblou os buracos e voleou as lombadas.

Mas não reparou na mancha de óleo. Tentou segurar firme e mandar na sua comparsa.

Não adiantou. Acabou no chão, com a moto caída sobre a mulher.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Primavera outra vez

Eu nasci no fim do inverno, pouco dias antes do início da primavera.

Talvez, por isso mesmo, são as duas estações que mais me agradam.

Se, por um lado, o inverno me traz temperaturas que eu considero mais toleráveis que a canícula do verão, por outro a primavera é a estação que alegra os espíritos mais abatidos.

Não deixa de ser, já dizia Eliot, um momento cruel. Quando as flores rompem dolorosamente o solo em direção ao renascimento.

Tempo de memórias e de desejos.

Sempre comemorei a chegada da primavera e, mesmo hoje, quando ela volta num dia frio, chuvoso e sombrio, é um momento de festa.

Cada dia mais cheia de flores. Flores, cada dia, mais lindas e perfumadas.

A sensação do amor brotando, em cada canto, com todo o seu esplendor.

Amor que aparece das mais diversas formas. Num passo de dança, num tempero incomum, num copo de leite, numa canção antiga e, até mesmo, numa prosaica xícara de café.

Essa primavera que me nutre todos os dias, povoa de sonhos as minhas noites.

Primavera de risos, cantos, danças.

Primavera que desliza suavemente, como se patinasse nas nuvens.

É o terno e eterno momento de se sentir criança e, ao mesmo tempo, um homem feliz.

Que o amor das primaveras, atuais e futuras, lhe seja repleto de formas, cores, perfumes e flores.

Sorria muito, abrace muito, beije muito.

E aproveite mais um ano só de primaveras.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

O bobo e a rainha

Era uma vez, numa terra muito muito distante, um bobo da corte que andava enfastiado de trabalhar para um rei ranzinza e mal humorado.

Seu amo nunca ria de suas piadas, ainda que toda corte o achasse muito divertido. Chegou à conclusão que estava na hora de procurar um emprego que lhe desse mais prazer.

Pela estrada afora ele foi bem sozinho, e nem doces tinha para consumir. Até que, ao longe, divisou um castelo no alto de uma montanha.

Conforme se aproximava do castelo foi encontrando alguns moradores locais, a quem perguntou sobre o rei do pedaço.

Era uma rainha solitária e sobrecarregada pelas demandas de seus súditos. Apesar das perspectivas não serem das melhores ele resolveu arriscar e pediu uma audiência à soberana.

Quando o recebeu, a rainha estava acompanhada do primeiro ministro que, educadamente, lhe ofereceu uma taça de vinho.

Contou algumas piadas, arrancou alguns sorrisos contidos da monarca. Mais que isso, ele notou que os seus olhos sorriam mais que seus lábios.

Ao sair, agradeceu o primeiro ministro pelo vinho, e elogiou a rainha pela boa música que tocava no palácio.

Dias depois ela o chamou. Desta vez sem a presença do primeiro ministro. Ela o levou a passear pelo palácio, mostrou-lhe uma coleção de quadros e perguntou mais a respeito das suas piadas e brincadeiras.

Ao final da caminhada estavam apaixonados e, mesmo sabendo de todos os riscos, ele beijou a rainha que lhe devolveu o mais belo sorriso que ele vira em toda a sua carreira de bobo.

Mas como poderiam enfrentar a situação? O que diriam as pessoas? Uma rainha apaixonada por um bobo da corte?

Como o amor era maior que as convenções sociais do seu tempo, eles levaram seu romance adiante. Ela ria das suas piadas. Ele se encantava com as suas histórias.

E foram felizes para sempre. Ele se sentindo um rei, e ela cada vez mais boba.

domingo, 20 de setembro de 2009

Por uma cozinha poética

Algumas vezes eu gosto de inventar jantares diferentes para alguma comemoração. Outras, porque vou receber visitas. Na maioria das vezes eu gosto de ir para a frente do fogão apenas pelo prazer de cozinhar.

Ainda que o exercício da culinária seja um prazer, muitas vezes, solitário ele só se completa quando se tem em mente alguém para quem se cozinha. Especialmente quando o momento é de invenção. Cada tempero tem uma intenção específica, que vai muito além de dar sabor ou aroma ao prato.

Resolvi brincar com ingredientes e temperos marcantes. Misturar sabores como se fosse uma paleta cromática. Acertar temperos como quem ajusta a métrica de um poema. Contrastar dissonâncias harmônicas.

Os pratos que se seguem são fáceis de fazer, o toque de sentimentos, depende de você.

Quiche de roquefort

Para a massa, junte 8 colheres cheias de farinha de trigo, 1 tablete de margarina (100 g), 1 pitada de sal, 1 colher de chá de fermento em pó e 1 gema. Misture e amasse bem os ingredientes. Caso a massa fique seca ou não der liga coloque aos poucos, uma a uma colheres de sopa de leite. Espalhe por uma forma e vá massando até a forma estar toda recoberta de massa até as bordas. Não é necessário untar a forma.

O recheio é ainda mais simples. Num liquidificador coloque 3 ovos inteiros mais a clara que sobrou da massa, 1 copo grande de leite, 1 colher de sopa de manteiga, 300 a 350 g de queijo (no caso eu misturei meio a meio queijo meia cura e roquefort) . sal e noz moscada. Bata os ingredientes e derrame sobre a massa. Assar em forno médio até dourar.

Filet mignon cítrico

Pegue uma peça de filet mignon (cerca de 1 kg) e tempere com sal e pimenta do reino. Num recipiente à parte, misture 3 dentes de alho picados, uma xícara de azeite de oliva, ervas verdes (eu usei ervas finas), uma colher de sopa de vinho do Porto e uma colher de sopa da Grand Marnier (um licor de laranja). Espalhe a mistura pela carne e deixe descansando por cerca de 6 horas. Asse, em forno médio, coberto por papel alúminio por cerca de 1 hora, tire o alumínio, aumente o fogo e deixe assar até a carne ficar corada. Tire da forma e fatie. Escorra o líquído que sobrou na forma e reserve o caldo mais grosso da carne que restou.

O molho. Derreta duas colheres de manteiga numa panela. Acrescente as raspas da casca de um limão siciliano. Quando dourarem acrescente o suco do limão e deixe reduzir pela metade. Acrescente o caldo grosso de carne e misture bem. Aos poucos, acrescente creme de leite fresco até a consistência deixar de ser pastosa. Se necessário, acrescente um pouco de sal (quase sempre é necessário pois o creme de leite dilui o sal do caldo de carne).

Num prato sirva fatias de carne com molho, uma fatia de torta e folhas verdes.

Junto com tudo isso, eu bebi um vinho 60% Tannat, 40% Merlot, da Gascogne (um vin de pays bem saboroso).

sábado, 19 de setembro de 2009

Torturando analogias

Tema:
A fome é a melhor cozinheira


Variações:

A sede não requer bebedeira

Roupa suja, prá lavadeira

Sem chuveiro, só banheira

Sol na praia, só na esteira

Novo amor e tremedeira

Quem matou o Zé Pereira?

Chega de tanta besteira

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Minhas lágrimas por Mary



Meu dia hoje não começou bem. Olhando as notícias na Internet me deparei com o anúncio da morte de Mary Travers. Aos 72 anos, ela morreu de leucemia.

Essa senhora foi uma das pessoas importantes da minha vida. Junto com Peter Yarrow e Noel Paul Stoker ajudou a construir a minha consciência a respeito dos direitos civis.

Cantaram pelos direitos dos negros, dos judeus. Cantaram contra as guerras dos anos 60 e 70.

Mais do que cantar, eles iam para as ruas. Marchavam ao lado dos líderes cívis, apanharam da polícia, foram presos.

Um dia, num dos grupos de discussão sobre Síndrome de Down que eu participo, alguém perguntou se existia alguma música sobre pessoas com SD. Existia, quem cantava eram eles.

A música, chamada, Danny´s Down, falava de uma mãe a quem era oferecida a chance de deixar o filho com deficiência, recém nascido, morrer. É um libelo em defesa da vida.

Se, de um lado, eles eram contundentes na defesa de direitos, por outro, podiam cantar as músicas mais ingênuas e delicadas do mundo. Seus discos para crianças são fabulosos.

Quem me apresentou a Peter, Paul & Mary foi o meu primo Alberto Carlos que, de vez em quando, aparecia em casa com um disco novo, que minha mãe copiava no seu moderníssimo (na época) gravador de fitas K7. (também devo ao Alberto conhecer as músicas de Joan Baez).

Depois eu mesmo fui comprando os LP´s para mim. Muitos eu só encontrei no antigo Sebo de Elite. Já nos anos 80. Com a o advento do CD e da Amazon, consegui compor toda a discografia.

Vai-se um pedaço da minha geração. Vai-se um pedaço da minha consciência de direitos humanos. Ficam as canções.

Hoje, Puff, o dragão mágico, tristemente, se refugia de volta na sua caverna.

Réu confesso

No começo Sérgio não deu a menor bola para o fato. Parecia uma coisa natural e, de certa forma, quando Fernanda o culpava de algo, ela tinha alguma razão.

Ele sempre fora um pouco atabalhoado e distraído, era normal que cometesse suas gafes e pisasse na bola, de tempos em tempos.

Começou a prestar mais atenção no que fazia, tentando errar menos, o que, de fato, conseguiu. Não que tivesse se tornado infalível, mas melhorara muito.

Nesse momento que começou a perceber que havia um padrão no discurso de Fernanda. Mesmo ele não fazendo nada de errado, a culpa de qualquer coisa era sempre dele.

Como sempre fora um sujeito bem humorado, achava melhor rir do que se incomodar. Até porque as suas culpas beiravam o ridículo.

Num dia foi culpado por tê-la beijado ao chegar em casa, o que a distraiu e o arroz queimou.

Em outra ocasião ele acabou sendo o responsável por terem chegado atrasados ao casamento de um primo de Fernanda. Quem tinha mandado ele fazer aquele caminho onde havia um prego para furar o pneu?

O terceiro filho era culpa dele que tinha esquecido de lembrá-la do vencimento da validade do DIU.

Mas até bom humor tem limite. E ele começou a se incomodar no dia em que, faltando luz, ela ficou presa no elevador do prédio. Afinal de contas, se ele tivesse comprado um apartamento mais perto do trabalho dela, ela teria chegado em casa antes de faltar luz.

Num primeiro momento ele começou a discutir com Fernanda. A situação só piorou, afinal, se ele estava insatisfeito com aquilo, a culpa era dele que não sabia administrar sua própria auto-estima.

Parou de falar. Sobre culpa e sobre quase todo o resto. Mal conversavam e, mesmo assim, Fernanda sempre tinha algo para lançar nas costas de Sérgio, que acabava suportando tudo pelos filhos.

No dia do casamento do terceiro filho Sérgio já decidira que, em seguida, iria morar sózinho. Não teve tempo. Uma semana depois teve um infarto fulminante.

Na sua lápide, Fernanda mandou gravar o seu destino: "Teria vivido mais, não fosse seu complexo de culpa".

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Recarga total

Baterias são seres muito variáveis, algumas duram mais que as outras. Umas são recarregáveis, outras não e, mesmo entre as recarregáveis, nem todas funcionam da mesma forma.

Quando eu preciso recarregar as minhas baterias, sempre pego meu manual básico de funcionamento para saber que método usar.

Em algumas situações, uso a corrente constante por tempo definido, deve ser usado somente em situações em que uma eventual sobrecarga pode ser prejudicial. É o mais recomendável, especialmente nos casos de cargas alimentares.

Existem momentos que não dá para escapar da tensão constante. Alguns alegam que, como o tempo de carga é elevadíssimo isso pode aumentar o risco de curtos circuitos, especialmente se as grades internas se tocarem em momentos inadequados. Por outro lado, não dá para negar que é o melhor método para manter a energia em patamares elevados.

Para quem precisa de carga constante, mas não está disposto a correr riscos, é possível usar a tensão constante com limitação de corrente. Eu, particularmente, acho que é uma posição anódina.

A minha preferida, no entando é o método de temperatura máxima, que consiste em manter a carga elevada, limitada apenas pela temperatura da bateria. É um método que exige um aparato mecânico de refrigeração. Nada que uma geladeira abastecida ou um bom chuveiro não resolvam.

Já a corrente constante seguida de tensão constante garante que as baterias sejam carregadas até atingirem sua tensão de flutuação, quando atingem esse ponto, passam a atuar no modo de tensão constante, o que evita sobrecargas ou a auto-descarga automática. Em alguns momentos, não existe nada melhor que flutuar.

Para alguns, melhor que o método anterior, é o de corrente constante seguido de tensão corrigida. Quando a bateria atinge sua tensão de carga, o carregador comuta para a tensão de flutuação, mantendo a bateria nesse estado indefinidamente. Seria perfeito se, eventualmente, não precisasse colocar de volta os pés no chão.

Uma variante da tensão corrigida, é a corrente constante seguido de tensão corrigida e queda de corrente, quando a flutuação começa depois de se atingir a tensão de carga e permitir que essa caia levemente. Você pode flutuar de forma muito mais eficiente.

Ainda existe o caso do delta de tensão zero (ou negativo). A bateria carrega até um ponto onde não tem mais capacidade e, nesse momento, a tensão não sobe mais. O problema é que, em muitas baterias, ao atingir o delta zero, a tensão despenca, podendo chegar a um estado negativo, o que pode acontecer em momentos muito desagradáveis.

De qualquer forma, seja qual for o seu estilo, nunca deixe de recarregar suas baterias, caso contrário elas se deteriorarão e não terão nem direito a reciclagem.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Tristeza

Existem momentos em que eu gostaria de ser esse poeta e recolher qualquer lágrima na palma da minha mão e confortá-la no meu peito.

Como nem sempre tenho essa capacidade. Eu traio o poeta que o fazia.


Tristeza da lua

Noite. sonhava a lua preguiçosa
Como a bela, deitada, sem receios,
A mão acaricia silenciosa,
O contorno perfeito dos seus seios

Entre o cetim macio das avalanchas
Se entrega desmaiando em estertores
Passeando os olhos sobre brancas manchas
Desabrocham azuis, como fossem flores

Quando, às vezes, no mundo de prazer
Uma lágrima secreta correr,
O bom poeta ao sono nada afeito

Com mãos abertas pega a gota rala
Reflexos coloridos tal opala
Longe do sol, a recebe em seu peito.

O original é o seguinte:

Tristesses de la lune

Ce soir, la lune rêve avec plus de paresse;
Ainsi qu'une beauté, sur de nombreux coussins,
Qui d'une main distraite et légère caresse
Avant de s'endormir le contour de ses seins,

Sur le dos satiné des molles avalanches,
Mourante, elle se livre aux longues pâmoisons,
Et promène ses yeux sur les visions blanches
Qui montent dans l'azur comme des floraisons.

Quand parfois sur ce globe, en sa langueur oisive,
Elle laisse filer une larme furtive,
Un poète pieux, ennemi du sommeil,

Dans le creux de sa main prend cette larme pâle,
Aux reflets irisés comme un fragment d'opale,
Et la met dans son coeur loin des yeux du soleil.

Charles Baudelaire

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Muito mais que uma fase


Lua nova convida
Descobrir seus segredos
Fingindo se esconder

Crescente meu desejo
Fulgura dentre as trevas
Luz terna dos teus olhos

Quando cheia de amor
Coração ilumina
Plena felicidade

Mesmo surgindo em fases
Meu amor não apaga
Não será mais minguante

domingo, 13 de setembro de 2009

Aforismos envelhescentes

Quem não procura, também acha

É mais fácil aprender a conviver com as falhas do que não falhar nunca.

Por que os ateus se preocupam tanto com um Deus que eles dizem não existir?

A lei é para todos. A fiscalização só para os inimigos.

Às vezes me faltam as palavras, mas nunca as idéias.

A idade não me deixa mais sábio, mas certamente mais realista

sábado, 12 de setembro de 2009

49

Tenho de admitir que eu sou um privilegiado. Em vários aspectos, diga-se de passagem. Hoje, analisando o calendário, descobri que eu vou passar o meu aniversário em ótima companhia.

Comemoram mais um aniversário nesse dia alguns bons amigos.De 1831 é Álvares de Azevedo, o único poeta que eu conheço que dedicou um soneto a uma lagartixa antecipando o movimento dos insanos. De 1880, H.L. Mencken, um dos melhores aforistas que eu conheço. De 1888 o delicioso Maurice Chevalier que até hoje me visita nos seus filmes.

Dentre os ainda vivos, aniversariam hoje: Ian Holm (o Bilbo do Senhor dos Anéis e um dos personagens das Carruagens de Fogo) completa 78 anos. Geraldo Vandré, 74 e Neil Pert (baterista do Rush), 57. Também tenho a companhia de algumas beldades. Tânia Alves, Malu Mader, Amy Yasbeck e Rachel Ward, cujas idades eu, educadamente, não irei revelar.

No entanto, muito melhor do que a companhia de todas essas celebridades, o que mais me deixa feliz a cada ano, é a companhia (presencial e virtual) de uma infinidade de amigos que eu colecionei nesses 49 anos.

Pessoas que compartilham meu dia-a-dia, minhas alegrias e tristezas, minha militância e as minhas insanidades. As vitórias que conquisto a cada novo dia que começa.

E, sem que nenhum deles se ofenda. Acima de todos, os meus filhos que me fazem, a cada dia, mais coruja. E a mulher que eu amo, desde sempre e para sempre.

"Não que eu o tenha já recebido ou tenha já obtido a perfeição, mas prossigo para conquistar aquilo para o que também fui conquistado por Cristo Jesus." Filipenses 3:12

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

A insustentável lightfastness do ser

Parece ser um regra imutável. Cores quentes são menos resistentes à luz. Cores frias podem durar muito mais. Seja a luz do sol, seja à de uma anódina luminária de museu, todas absorvem luz ao invés de refleti-la. Quanto mais luz absorvem, menos sobrevivem os pigmentos, a energia luminosa os vai degradando, molécula por molécula.

A essa durabilidade da cor, os especialistas deram o nome de lightfastness, ou o grau de resistência à luz.

Por isso é que os pintorcantropus* erectus faziam sua arte rupestre em cavernas, para ter a certeza que as futuras gerações teriam a chance de conhecê-la.O único problema é que as melhores pinturas estavam nas cavernas mais escuras. Intactas, mas impossíveis de serem vistas.

Quando os artistas da idade média inventaram a tempera (no qual os pigmentos de terra eram misturados a um "colante", uma emulsão de água e gemas de ovo ou ovos inteiro) eles começaram a perder na durabilidade dos quadros. Uns por excesso de luz. Outros, por falta de qualidade, eram reciclados em omeletes.

As temperas mais fortes eram aquelas que fossem menos diluídas, que fizeram muito sucesso no México e na Bahia. Outro problema dessa tinta à base de claras em neve, é que ela secava muito rapidamente, o que levou muitos dos melhores artistas a abandonarem sua vocação e aderirem aos torneios de video-game que era mais lento.

A técnica de secagem rápida foi, anos mais tarde introduzida na metalurgia. Se, na arte era um problema, na fabricação de metais serviu para dar maior resistência às ligas, incluindo as cintas-ligas e a Liga das Senhoras Católicas. Atribui-se a uma têmpera mal feita o fracasso da Liga das Nações.

Mas, voltando à questão da luz. Com a popularização da tinta a óleo no séc XIX, onde o pigmento é misturado a óleo de linhaça ou de papoula (especialmente nas cores opiáceas, usadas pelos surrealistas), uma tinta de secagem lenta, a preocupação com a lightfastness aumentou.

Especialmente quando alguns críticos de arte mais ferinos começaram a sugerir a alguns artistas que só fizessem exposições ao ar livre em dias altíssima radiação ultra-violeta.

Ainda que alguns fabricantes garantam uma resistência superior a 100 anos para determinados pigmentos, eles deixam claro (ops! melhor deixar um pouco menos claro) que essa validade só pode ser reclamada pessoalmente pelo criador da obra.

Até hoje, nenhum fabricante recebeu nenhuma queixa.

*não se dê ao trabalho de procurar, essa palavra não existe

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Contículo adverbial localizado

Existem horas em que eu me sinto completamente perdido. Não sei se fico aqui, vou até ali ou, num arroubo de ousadia me transporto acolá.

Tenho a impressão de estar nenhures. Não enxergo o que está atrás, nem adiante, quanto mais o que, em volta me cerca.

Olho em cima, à esquerda, à direita e é como se estivesse dentro de um quarto escuro.

Acredito que lá fora, o sol, algures, me iluminaria os passos onde eu andasse.

Sinto o medo por detrás e o pavor defronte. Nuvens sombrias ao longe indicam que estou ainda aquém de uma saída.

Dou um passo além. Se o cenário externamente não me favorece, melhor viajar adentro de mim mesmo.

Cá, algures, encontrarei o que não vislumbro fora.

Aonde estará a saída? Vagarei mundo afora em busca da resposta?

Seja longe, seja perto, não desistirei da busca, em que pese a distância.

Sei que estou aquém do que busco. Mas quando chegar lá, alhures repousarei.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Expectativas dúbias

Naquela noite Marcelo mal conseguiu dormir de tanta emoção.

Tudo porque Renata, aquele mulherão que estudava na mesma classe que ele, e que era a desejada de todos os meninos, lhe dissera, ao saírem da escola, que não poderia ir com ele na festa de sábado porque ele era muito anafrodisíaco.

Nunca alguém tinha dito algo tão forte para ele. Sua imaginação transportou-o para lugares onde nunca estivera antes. O que será que Renata sentia quando pensava nele?

Afinal, nem todo mundo era anafrodisíaco como ele.

Será que as outras meninas da classe achavam a mesma coisa? Será que se contorciam nos seus leitos pensando nele?

Imaginou Renata sonhando. Imaginou-se sonhando com Renata.

Estava feliz, finalmente a vida lhe sorrira.

Até se conformou com o fato de Renata ter recusado o seu convite. Afinal, quem poderia saber o que aconteceria se estivessem juntos e ele transmitisse seus poderes anafrodisíacos?

Quando chegou na escola, no dia seguinte, foi conversar com Renata assim que a viu. Ousado como nunca perguntou-lhe se tinha dormido bem. Em seguida declarou:

"Não se preocupe com minha capacidade anafrodisíaca, eu sou capaz de me controlar..."

Renata deu uma gargalhada e foi para a classe.

No dia seguinte ela chegou com um pacote de presente para Marcelo.

Foi a primeira vez que ele ganhou um dicionário.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Minha família


Minha família é engraçada. Tem o papai, ele funga de montão.

A mamãe é demais, ela até fez um fotoblog, ai, ai... eu mereço.

O Samu doido que só, queria ser igual.

E eu, com a minha fama de bagunceira. Um dia tentei arrumar e não funcionou.

Essa é a minha família, a mais engraçada do mundo.

Letícia Ribeiro (8 anos)


Obs: no original grafado como "minha familha". Para quem não sabe, Letícia é a minha filha.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Amor mecânico


André sentou-se no quarto para mais um domingo de estudos. Não tinha escapatória, o final do ano estava chegando e, com ele, o temido vestibular.

Não conseguia se concentrar nas matérias, só pensava em Cássia, a namorada. Além de tudo não estava conseguindo encontrá-la o tanto que gostaria, em função dos estudos.

Olhava para as apostilas. Olhava para o teto. Olhava pela janela e só via a imagem da garota.
Pegou o livro de física. Justo física que ele odiava. Mecânica era a matéria. Precisava decorar as definições para o simulado no dia seguinte.

Começou a copiar o texto, era a sua forma de memorização. Força isso, força aquilo...e Cássia em seus olhos :

...força centrípeta é a força resultante que puxa o corpo para o centro do seu coração, como se nossos corpos gravitassem permanentemente um em volta do outro.

Algumas vezes essa atração é tão forte que vem perpendicularmente em direção ao meu coração, como uma pseudo força de Coriolis.

Já a força centrífuga impulsiona tudo para fora, assim como temos conseguido expelir para bem longe todos sentimentos ruins que tentam se apegar a nós.

Nos momentos eu que eu me sinto afundando, você funciona como o empuxo me trazendo de volta à tona.

Se meus deliros me levam a alturas excessivas, você me traz de volta como a força da gravidade.

Em nós, todos os vetores são convergentes. Todas as resultantes tendem a infinito.

Você, e só você conseguiu me tirar do estado de inércia em que eu vivia.

Eu sei que esse estudo se ocupa da descrição dos movimentos dos corpos, sem se preocupar com a análise das suas causas, assim como eu te amo sem saber o porque....

André, cansado, dormiu sobre os livros. No dia seguinte, jogou tudo dentro da mochila e correu para a escola.

Tirou 10 no simulado, surpreendendo colegas e professores.

A melhor nota, no entanto, foi a que recebeu de Cássia, quando lhe entregou os rascunhos dos seus estudos.

sábado, 5 de setembro de 2009

Tango

Rodolfo chegou em casa com cara de poucos amigos. Na verdade, estava completamente arrasado.

Arsinoé, a empregada que trabalhava para ele há anos percebeu logo que alguma coisa estava errada. Muito errada.

"- Posso ajudar em alguma coisa seu Rodolfo?"

Ele esboçou um sorriso sem graça e respondeu

"- Dessa vez eu acho que não..."

"- Mas o que foi que aconteceu?"

" - Lembra que eu te falei a respeito da Marília?"

"- Sim, a moça que trabalha com o senhor. E que o senhor está apaixonado por ela."

"- Mas eu nunca disse que estava apaixonado!"

"- E precisava dizer?"

Não precisava. A empregada sabia mais da vida dele que ele mesmo. Sempre discreta, prestava atenção em tudo e percebia tudo. Rodolfo continuou:

"- Pois é... o que acontece é o seguinte, daqui a um mês, na festa de final de ano da empresa, resolveram fazer um baile..."

"- E o senhor não sabe dançar?"

"- Pior que isso, além de não saber dançar, a Marília disse que só dança tango. Como é que eu vou aprender a dançar justamente tango em tão pouco tempo?"

"- Ué, isso é simples, eu ensino..."

Rodolfo soltou uma gargalhada que, pelo menos, aliviou o seu semblante pesado. Arsinoé não achou graça.

"- O senhor acha que eu não sei? Pois saiba que antes de trabalhar aqui eu era dançarina...

Rodolfo não sabia. Ela trabalhara como taxi-dancer num salão de bailes do bairro em que morava.

No dia seguinte eles começaram as aulas. Todos os dias, antes dela ir embora, passava uma hora com ele ensinando os passos e treinando ao som de Anibal Troillo, Mariano Mores e Osvaldo Pugliese.

Depois de duas semanas ele já arriscava a dançar Piazzolla. Marília iria se surpreender com ele, até milonga ele aprendeu.

A festa já tinha começado há mais de duas horas quando Rodolfo apareceu na porta do salão. Marília, que já estava impaciente, ao vê-lo em trajes típicos de dançarino de tango, ficou estarrecida: ele chegara acompanhado de outra.

Rodolfo e Arsinoé fizeram o maior sucesso na pista e só foram embora quando o garçom avisou que precisava fechar o salão.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Alguém


Maria sentou-se ao piano e começou a tocar. Seus dedos estavam na música, sua cabeça não.

Sentia um misto de surpresa e de encantamento. Depois de tantos anos de procura, ela, finalmente, tinha encontrado a pessoa.

Alguém com quem ela podia realmente ser ela mesmo. Falar do que quisesse, na hora que quisesse. Sem medos, nem culpas.

Alguém que se alegrava com suas alegrias, vibrava com suas conquistas. Alguém com quem dividisse seus medos e fraquezas.

Alguém que procurava dissipar seus medos, ao invés de recriminá-los. Alguém que compreendia suas fraquezas, ao invés de desprezá-las.

Alguém com quem ela, mais do que despir o corpo, podia despir sua alma.

A vergonha dos outros, que sempre a acompanhara, desaparecera por completo. Pelo menos quando estava com ele.

E ele estava com ela o tempo todo, mesmo ausente, não havia momento em que ela não o tivesse dentro de si.

Em pensamento, em sonhos, frente à frente. Fazia parte dela.

Maria acabou a música e percebeu que nunca tinha tocado tão bem.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

A deontológica antologia de Agosto


Mais um mês de comentários antológicos. Todo mérito para meus insanos e insanas leitores:

Essas são as caminhadas que mais gosto. São, digamos, um tesão!!!

...pela minha obnóxia participação...

Também fiquei curiosa com o sexo no porão.

...vai passear com o vestido novo! vai que encontra outro mais interessante.

...visões de um apocalipse privado.

além dos mosquitos, as baratas e as formigas também restarão ...

...ao menos comigo, sò acontecem com pernilongos e mosquitos...

Até meu pai já tem um iPod!!!

Tá atrasadinho, né?

Essa combinação...menta com chocolate...é uma das minhas preferidas...

...morar aqui na Capitania tem suas desvantagens...

Pelo bem de todos e felicidade geral dos esfomeados.

Nem te conto(ou conto?) Meu vizinho também é bom de cama

Mandei via e-mail pra namorado, que nem estava procurando...

Este blogue é um saco.

...diria Jânio Quadros, acompanha-lo-ei...

...bem melhor lançar mão da circulação extra corpórea!

...um carrapato de diamante, eu também queria

Cheguei atrasada e fiquei sem bolo.

Ah... eu fotografava quiabos, sim.

Exprobra? é entrada ou prato principal?

Incrusive me deu uma baita vontade de conhecer os Apeninos belgas. Devem se lindos!!!

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Uma questão elétrica


Logo que vi o produto anunciado eu fui comprar. Realmente era uma coisa absolutamente inédita e eu não podia perder uma oportunidade dessas.

Além do que, reconheci a genialidade do seu inventor. Quem mais poderia pensar em fabricar um massageador de Id?

Massageadores de ego já se tornaram commodities, já o superego é tão rígido e autoritário que não requer massagem.

O vendedor me explicou detalhadamente o produto que, além de massagear tinha um reservatório de pulsões para momentos que se fizessem necessárias.

O aparelho é bivolt e poderia ser usado instintivamente em qualquer lugar, se assim me aprouvesse.

Segundo o vendedor, também poderia ser utilizado em qualquer tipo de tomada e vinha com um conjunto de pinos adaptadores para uso em tomadas de pino chato, redondo, trifásicas.

Sai da loja desejoso de usar imediatamente a maquininha. Nunca tinha massageado meu Id e não sabia exatamente quais serias as consequências de curto prazo.

Conectei na primeira tomada que encontrei e nada. Pensei em voltar para a loja, mas imaginei que pudesse ser apenas um problema da tomada.

Nos dias seguintes fiz várias outras tentativas, sem sucesso. Não acontecia nada.

Eu já estava começando a ficar com baixa idestima e desistindo do produto. Quase admitia que tinha sido pego num golpe qualquer e seria vergonhoso reconhecer isso.

Parei de procurar tomadas, mas continuava carregando o massageador na minha pasta.

Até que um dia, quando tirava algumas coisas da pasta, o aparelho caiu no chão ao meu lado. Só por curiosidade liguei na tomada que estava perto. E não é que ele funcionou?

O mais incrível é que a tomada era uma que estava ao meu lado há muito tempo. Como é que eu não a tinha visto antes?

Imaginei que a queda do aparelho tivesse algo a ver com o seu súbito funcionamento. Não tinha, ele continuava sem funcionar em todas as outras tomadas que eu encontrava.

Comecei a rir. Não sei se já era efeito do massageador ou algum prazer escondido. Sei que, a partir desse dia eu passei a usá-lo cotidianamente e, garanto, os resultados são fabulosos.

Numa coisa porém, ele não mudou. Só funciona naquela tomada.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Conticulóides morfosiológicos


Funcionamento

Renata adorava comprar roupas, mas detestava ir a alguma loja acompanhada. Naquele dia teve de carregar Gilberto a tiracolo. Ele ficava o tempo todo sentado com cara de tédio. Ela fingia que nem via. De repente tomou um susto, a cortina do provador se abriu, ele entrou, beijou-a longamente e saiu. Nunca mais ela foi às compras sozinha.

Consistência

Andréia entrou na loja de colchões com um problema. Ela gostava de colchão de espuma, duro. Marcos queria um colchão de molas, mole. Passaram horas experimentando os produtos sem que chegassem a um acordo. Desistiram do casamento. O romance não resistiria a problemas de coluna.

Detritos

Todas as semanas Carolina fazia uma faxina geral nos ralos da casa, a contragosto de Carlos que não queria que ela se desgastasse com esse tipo de serviço. Nenhum dos seus argumentos funcionou, para ela era uma questão metafísica, antes a sujeira do que a vida pelo ralo.

Cubista

Rafael estava empolgado, acabara de projetar um casa incomum onde cada cômodo tinha um formato geométrico diferente. A cozinha hexagonal, a sala triangular, o quarto redondo. Eliana olhou a planta, procurou, procurou e não achou. Ele esquecera da sua elipse. Chorou a noite inteira. No dia seguinte comprou um Ellipsograph Haff, deixou na mesa de Rafael e foi embora.