sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

O sinesíforo e a princesa

Sérgio olhou para a fachada do prédio e se sentiu intimidado. Parecia luxuoso demais para ele. Constrangido falou com o porteiro e em minutos estava na porta de serviço do apartamento 31.

Uma empregada lhe recebeu e pediu que ele se sentasse ali mesmo na cozinha que, em breve, a patroa viria conversar com ele. Não estava acostumado a negociar com mulheres, geralmente eram os maridos que se encarregavam disso.

Não demorou muito e ouviu vozes. A empregada conversava com alguém. Antes que entendesse o que estava acontecendo a porta abriu e Carolina entrou. Se já estava constrangido com o luxo do lugar, ficou ainda mais com a figura dela. Não fazia o gênero árvore de natal da patroa anterior, pelo contrário era uma mulher linda e elegante sem recorrer a artíficios pirotécnicos.

Ela olhou para ele, mediu-o de cima abaixo enquanto o cumprimentava. Fez as perguntas de praxe sobre experiência, empregos anteriores, motivo que o fizera sair do último emprego. Também fez algumas perguntas pessoas sobre família e hábitos. Fez sua proposta de salário e de horários. O horário era puxado, mas o salário era bom, ele aceitou.

Ela saiu um pouco da cozinha e, quando voltou disse que tinha ligado para sua última patroa. Ótimas referências. Ele estava contratado, podia começar imediatamente. Ela mandou que ele fosse até um determinado endereço comprar seu uniforme. Mandou que fizesse pelo menos cinco jogos. Ela ligaria para a loja para avisar que depois passaria lá para pagar e para dizer que ele precisaria sair de lá, pelo menos, com dois uniformes prontos.

Chegou às 7h30 da manhã do dia seguinte. Terno azul ultramar, camisa branca, gravata cor de vinho. Ele estranhou o quepe. Motoristas modernos não usavam mais quepe, mas Carolina fazia questão. Rosa, a empregada lhe mostrou um quarto na área de serviço e lhe explicou que ele deveria ficar ali sempre que estivesse na casa. O quarto era pequeno, mas equipado. Tinha uma televisão, um frigobar, estantes, um armário e uma cama. Além disso, tinha seu próprio banheiro.

Carolina o chamou quando já eram quase dez horas. Entregou-lhe um telefone celular, deixando claro que deveria sempre estar desocupado para atênde-la. Explicou que os números da casa e do celular dela já estavam programados na discagem rápida. Também entregou-lhe as chaves e os documentos de dois carros. O carro maior era o carro do dia-a-dia. O outro só deveria ser usado em dias de rodízio ou se acontecesse algum problema com o primeiro. Ele também poderia usar o carro menor para ir e voltar para casa, inclusive nas suas folgas.

Avisou que ele deveria ir para a garagem, que ela desceria em 20 minutos. Ele foi, ligou o carro, fez algumas manobras para se acostumar com o veículo e a esperou. Já estava colocando o carro de volta na vaga quando ela surgiu. Ele abriu a porta, ela se acomodou no banco traseiro e pediu para levá-la ao shopping.

Ela falou pouco durante o caminho. Algumas instruções adicionais, um ou outro comentário sobre as notícias do jornal. Ele notou que ela falava com um sotaque estrangeiro muito sutil, mas não conseguiu identificar a origem. Não era francês, já trabalhara para franceses e conhecia bem a língua. Tinha uma certa inflexão latina, mas não era nada que lhe soasse familiar. Só mais tarde conversando com Rosa que soube que era romeno.

Com o tempo também descobriu que ela tinha o hábito de usar palavras pouco usuais. Apresentava-o como seu sinesíforo. Quando achava alguma coisa incomum se referia a ela como bizarra. Certa vez ele a levou ao que ela chamou de um convescote e, na volta comentou que o repasto não estava apetecível.

Começaram a conversar mais durante os percursos, até porque, numa cidade como São Paulo, eles passavam muito tempo juntos no trânsito. Ela mantinha sua distância formal de patroa, mas se permitia discutir alguns assuntos que descobriram ter em comum. A rotina semanal era simples. Ela ia ao clube todas as manhãs, onde praticava esportes e aprendia sapateado. Normalmente almoçava fora. Algumas vezes no próprio clube com as amigas, outras a caminho de outra atividade. Diferentemente de outros lugares onde trabalhou, quando Carolina parava em alguum lugar para almoçar, se estivesse sozinha, sempre o chamava para almoçar junto com ela.

Pelo menos duas vezes por semana ela passava a tarde em algum shopping. Basicamente os mesmos três de sempre. Ela descia do carro, dizia que ele poderia também passear no shopping, mas que tivesse certeza de que o telefone estava ligado e acessível. Quando precisava dele para carregar pacotes ela o chamava. Apesar de consumista, parecia que em cada ida ela se dedicava a uma loja. Mesmo quando tinha muitos pacotes eles eram de um lugar só.

Ela gostava particularmente de sabonetes e perfumes. E gostava de fazer experiências com novas marcas e modelos. Uma vez comprou uma caixa de sabonetes de alecrim, quando Sérgio foi tirar a caixa do porta-malas para levar para o apartamento ela avisou que era para ele ficar com a caixa. Ele olhou para ela sem entender. Ela explicou que era para ele usar aqueles sabonetes nos dias de trabalho e, quando a caixa estivesse próxima de acabar ele deveria avisá-la para que ela repusesse o estoque.

Já estava trabalhando para Carolina há mais de um ano quando reparou que ela andava estranha. Falava menos, sorria menos. Tentou se lembrar se tinha acontecido algo e identificou que ela estava assim desde o dia em que tinham parado para almoçar no Le Cousin, dias antes. Não quis perguntar nada, nunca falara de assuntos pessoais com ela, pensou em perguntar para Rosa, mas ele era discreto demais para ir atrás de fofocas.

Nos dias que se seguiram ele a observou com mais atenção do que de costume. Olhava mais pelo retrovisor. Reparou que ela passava mais tempo com o olhar perdido em direção à janela. Poucas vezes a via olhando para frente como era seu costume. Quando ele abria a porta e estendia a mão para ela descer notava que ela não segurava com a mesma firmeza de sempre. Mas o que lhe chamou mais a atenção é que ela não o chamava mais para almoçar quando estava sozinha.

Sérgio estava incomodado com a situação. Pensou em perguntar para Carolina se tinha feito algo errado. Desistiu da idéia afinal, se ele tivesse cometido alguma gafe ela já teria chamado a sua atenção. Ainda mais ela que nunca deixava escapar nenhum detalhe. Concluiu que era algo íntimo da patroa e não cabia a ele se intrometer. Como bom profissional deveria manter sua postura de sempre e esperar que o problema se resolvesse. Enquanto isso ele contava os dias.

Foram 56 dias entre o começo e o fim do silêncio. Uma manhã ele chegou no carro com outra expressão. Cumprimentou-o olhando nos olhos, sorriu e lhe deu uma caixa com um CD. Falou que queria ir passear ouvindo aquelas músicas. Ele perguntou onde deveriam ir e ela respondeu que era para andar sem destino. No trajeto ela parecia ter voltado ao seu normal. Conversou, comentou as notícias e disse que estava precisando fazer compras. Percebendo seu bom humor Sérgio até se arriscou a fazer um comentário, e elogiou a seleção musical que ela tinha feito. Pelo retrovisor notou que ela tinha ficado vermelha, mas agradeceu.

Chegaram ao shopping e ela, como de costume, pediu que ele esperasse. Carolina começou a andar pelos corredores, olhava em direção às lojas, mas era como se tudo estivesse embaçado. E estava mesmo. Seus olhos estavam cheios de lágimas que ela segurava com todo empenho. Foi ao banheiro. Se recompôs, lavou o rosto e se maquiou novamente. Entrou numa loja de sapatos e começou a experimentar tudo, sem prestar muita atenção no que a vendedora lhe trazia. Num momento em que olhou para os seus pés e os viu calçados com uma sandália preta, cheia de brilhos prateados, seu rosto se iluminou como se o brilho da sandália refletisse nos seus olhos. Era isso.

Comprou só a sandália. Mesmo assim ligou para Sérgio chamando-o para carregar os pacotes. Quando ele chegou, estranhou que era só um pacote, ficou esperando que surgissem outros, mas ela disse que era só aquilo mesmo. Desceram e ela disse que queria comer um risotto no Prima Donna. Dessa vez ela o chamou para almoçarem juntos e fez uma coisa que nunca tinha feito antes, pegou o pacote e mostrou a sandália para ele e pediu sua opinião. Ele ficou sem saber o que dizer, a sandália era linda e, imaginando-a nos pés de Carolina pensou coisas que não poderia lhe falar. Limitou-se a elogiar. Ela percebeu que ele ficara sem jeito e sorriu marotamente.

Os dias que se seguiram foram deixando Sérgio cada vez mais desconcertado. Ela fazia comentários sobre poetas americanos, contou a respeito de um namorado búlgaro que tivera, perguntava sua opinião sobre tudo. No começo ele ficou assustado, depois se deixou levar. Claro que estava gostando de tudo isso. Ela sabia que estava apaixonado por ela desde o primeiro dia que a vira, mas sabia que isso era um sonho absurdo demais para se tornar real. Não que agora tive mudado de idéia sobre a impossibilidade de um romance entre uma princesa e um sapo como ele, mas pelo menos aproveitava o fato de que ela lhe dava mais atenção.

Numa manhã ele estava no quarto, esperando que ela o chamasse. Sentiu vontade de tomar café e foi até a cozinha. Deu de cara com Carolina que acariciava o seu quepe que tinha ficado sobre a mesa. Ao vê-lo ela pegou o quepe e entregou para ele chamando a atenção de que não devia largar suas coisas pelo meio da casa. Ele pediu desculpas, mas não deixou de notar como ela estava linda com um peignoir translúcido que desenhava as curvas do seu corpo. Voltou rapidamente para o quarto tentando descobrir porque ela o estava provocando desse jeito. Tentou sentir raiva dela, mas não conseguia.

Durante quase um mês ela o alimentou de livros de poesia e pediu que ele os lesse para discutir com ela no carro. Neruda, Chamie, Cristina Rossi (que ela teve de explicar para ele o que significa obnubilar), Shelley e Poe. Ele lia e relia. Queria que as entrelinhas dos poemas fossem mensagens dela. Mas sempre se beliscava para ter certeza de que era verdade o que estava acontecendo. Por outro lado, começou a frequentar a livraria do shopping enquanto ela fazia suas compras. Percebeu que para entendê-la melhor precisava conhecer mais dos autores que ela admirava.

Também passou a segui-la à distância no shopping. Olhava-a subindo as escadas rolantes. Seus cabelos longos e soltos brilhavam e ele se sentia o homem mais feliz do mundo só pelo fato de trabalhar para aquela mulher. Ela fingia que não sabia que ele a olhava e, por dentro, estremecia. E mexia nos cabelos e alongava o corpo para que ele a admirasse. Sabia que o provocava, mas também não acreditava que ele pudesse gostar dela. Talvez a desejasse, não mais que isso.

Menos de um mês depois do almoço da sandália, ele estava na livraria quando o telefone tocou. Ela falou que ele deveria ir imediatamente encontrá-la. Uma loja de roupas masculinas? Ela nunca tinha ido numa loja de roupas masculinas. Pediu que ele experimentasse umas camisas. No provador ele se sentiu o pior homem do mundo. Certamente ela o estava usando apenas como referência para comprar roupas para outro homem. Como é que ele tinha sido tão ingênuo?

Cada camisa que ele colocava e ela examinava como tinha ficado o deixava mais deprimido. Ela escolheu uma camisa polo listada de rosa e azul. Era linda e ele sabia disso. Ela pagou, mandou embrulhar para presente e a entregou para que ele a levasse. Quando foi colocar a caixa no porta malas ela disse que não. A camisa era para ele. Suas pernas tremeram e ele sentiu um calor imenso subir por todo o corpo. Ela continuou e disse que que queria vê-lo usando a camisa.

Sem saber o que dizer ele argumentou que não poderia. Que não poderia aparecer sem uniforme para trabalhar, os empregados do prédio e da casa iriam estranhar. O sorriso maroto dela se misturou com um tremor nos lábios que ele nunca vira antes. Ela então lhe disse que o esperava na sua próxima folga para tomarem um chá no orquidário. Vestindo a camisa, é claro. E ela usária a sandália que ainda não tinha estreado.

No sábado ele chegou, com o carro pequeno e, de longe, avistou-a esperando na porta do prédio. Usava um vestido violeta e as sandálias. Ele saiu do carro para abrir a porta mas ela entrou sozinha, no banco da frente. Ele entrou de volta e olhou para ela esperando sua ordem. Ela sorriu e não disse nada. Ele perguntou se era para ir ao orquidário. Ela respondeu que usando aquela camisa ele poderia levá-la para qualquer lugar. Sérgio olhou-a no fundo dos olhos. Seus lábios começaram a tremer de novo. Sem pensar no que fazia ele a abraçou e a beijou.

O céu laranja avermelhado foi a primeira testemunha desse amor.

3 comentários:

Juliana disse...

Demanda um certo fôlego, mas vale a pena.

Vilma Mello disse...

Esse eu tive que imprimir para ler com calma...

aqui vai meu último do ano: Lindo!

Beijos

Bel disse...

Seria tão bom se histórias como essa fossem verdade...
Linda demais!