quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Einfühlung

Olavo tinha acabado de lançar seu quarto longa metragem. Desde que lançara o bem sucedido "Um amor improvável", todo ano rodava um novo filme. Um melhor que o outro.

Era convidado para palestras e para festivais por todo país. Os críticos o admiravam e diziam que tinha atingido o ponto sublime de perscrutar a alma humana, particularmente a alma feminina.

E a cada novo filme, Olavo surpreendia a todos, conseguia ser mais profundo e, ao mesmo tempo mais claro e objetivo.

Todos queriam saber o seu segredo, de onde tirava as idéias e, principalmente, como conseguia ser tão sensível ao universo feminino. Todos os seus filmes tinham como protagonistas mulheres.

Para Olavo isso lhe parecia tão simples. Sempre que questionado dizia que sua musa o inspirava. O que gerava ainda mais curiosidade pois ninguém sabia que musa era essa.

Olavo nunca era visto com ninguém. Apesar de conviver com várias atrizes sempre mantinha uma distância profissional delas. Nas poucas vezes que era visto em público era na companhia de produtores ou nos compromissos de divulgação dos filmes.

Alguns papparazzi começaram a seguí-lo. Olavo não deu a menor bola para eles que, depois de meses sem nenhuma descoberta, desistiram.

Depois de muita insistência revelou, num programa de televisão que sua musa chamava-se Tália que era, segundo ele a mulher da sua vida.

Mas ninguém acreditava que pudesse ser só isso. Nenhum dos seus amigos ou produtores sabia quem era Tália.

O que ninguém sabia é Olavo tinha um mundo particular dele, onde ele revelava todos os segredos da sua alma. Sem abismos, nem cortinas.

Nos fundos do seu apartamento, ficava o seu escritório e refúgio que ele batizou de Einfühlung, o estado supremo de felicidade e empatia. Era ali que ele conversava todas as noites com Tália

Tália reconhecia nos filmes de Olavo cada um dos seus sentimentos. Costumava dizer para ele que parecia que ele estava penetrando na sua alma quando escrevia.

Quando ouvia isso Olavo nem pestanejava, respondia que a alma da amada estava dentro dele, era ela que escrevia pelas suas mãos.

Todas as vezes Tália sorria ao ouvir isso e se aconchegava no seu colo em Einfühlung.

E era aí que Olavo explorava mais cada detalhe do corpo e da alma de Tália, que depois se revelavam em roteiros.

Na pré-estréia de "Pequenas grandes emoções", o novo fime, Olavo olhava para o seu celular a cada risada ou suspiro da platéia. Na proteção de tela, Tália o admirava orgulhosa.

Sabia exatamente o que se passava do lado dela, assim como ela reconhecia o carinho enviado em cada sorriso.

Na volta para casa parou no supermercado. Comprou uma garrafa de champagne rosé e um litro de leite e foi para casa comemorar o sucesso.

Sobre o tapete de Einfühlung, Tália, a gata, o esperava para planejar a próxima viagem ao mundo particular dos dois, onde mais um filme começaria a ser gerado.

3 comentários:

Rubinho Osório disse...

E que gata! Miau!!!

clau disse...

Se a gata personificou a alma feminina para Olavo creio que, para nós que lemos,se criou um suspense sem fim!...
Rss. rss, rss.
Bjs!

Juliana disse...

Mulheres sempre serão misteriosas como gatos.