sexta-feira, 16 de outubro de 2009

O primeiro oboé

A primeira vez que Vãnia viu o instrumento foi quando tinha 6 ou 7 anos e a avó a levou num concerto, à tarde, no municipal. Ficou apaixonada pelo oboé e, desde então não se cansava de dizer que, quando crescesse iria tocar.

Conforme foi ficando mais velha lhe ofereceram várias outras alternativas. Na escola, a flauta doce. Em casa, a mãe queria que estudasse piano, como ela. O irmão já estudava violão e juntava dinheiro para uma guitarra elétrica. O pai, não muito musical, não dizia nada.

Mas todos riam dela quando ela insistia no oboé. Afinal, quem é que iria tocar esse instrumento num país sem tradição em sopros de orquestra ?

Sem aprender nenhum instrumento, chegou à faculdade e aí mesmo é que não teve tempo de se dedicar a qualquer estudo musical. Formada, casou logo em seguida. Não demorou muito e vieram os filhos, um atrás do outro.

Cada dia que passava Vânia se convencia mais que o oboé seria apenas um belo sonho na sua vida. Mas nada mais que um sonho. Assim como os pais e irmão, seu marido e filhos só achavam graça na idéia.

Um dia encontrou Roberto, um velho amigo dos tempos de faculdade. Retomaram a amizade e as confidências. Claro que, num certo dia, surgiu o assunto do oboé.

Ele perguntou porque ela não aproveitava para ir aprender. Os filhos já estavam moços e não dependiam tanto dela. Ela sorriu, mas disse que não tinha mais idade para começar a estudar um instrumento tão complexo.

Roberto não desistiu. Descobriu um professor de oboé e deu o telefone para ela. Duas semanas depois foi fazer uma aula experimental. Foi como se toda a paixão da infância e adolescência voltasse num só momento.

Nas primeiras aulas o professor lhe emprestou um instrumento. Não demorou muito para que ela quisesse o seu, o professor indicou um amigo que importava, recomendou um Selmer, bom o bastante mas não caro demais.

Ela conversou com o importador. Convenceu o marido a pagar. Três semanas depois recebeu uma ligação avisando que seu oboé tinha chegado.

Chamou Roberto para ir com ela, ele precisava participar desse momento. Almoçaram juntos, ela estava tão excitada que passava de um assunto para o outro quase sem perceber. Uma ou outra vez nem percebeu direito o que ele lhe falava.

Na hora combinada Roberto a levou até a loja. Quando o instrumento lhe foi apresentado seus olhos brilharam como nunca.

Roberto só a observava com carinho. Ela estava em outro planeta. Ele sabia que, por mais que ela gostasse dele, aquele dia era o dia do sonho de uma vida. E amigos de verdade sabem que nessas horas, a felicidade reside em ser espectador da realização do outro.

Deixou-a em casa, sabia que ela passaria a noite namorando o instrumento. Foi para o seu apartamento, colocou um CD de Heinz Holliger e dormiu sorrindo.

4 comentários:

Vilma Mello disse...

Gostei da delicadeza do Roberto...

Beijos de sexta

veronica disse...

Lindo!!!! Como vc!!!! Meu amigão!!!
Tocou meu coração....bj

Rubinho Osório disse...

Lição de amor... poderia ser o título.

Bel disse...

Tô achando que essa história é uma meio-auto-história, ou seja lá como se possa chamar a história da sua metade...

Beijo, e obrigada pela força, pelas orações e pelo carinho.

Vou ali tirar sangue.