quinta-feira, 22 de outubro de 2009

De cubitus

Logo que ela chegou ao café ele reparou nas suas mangas curtas e sentiu um arrepio lhe percorrer a espinha de cima abaixo.

Ela o conhecia bem para saber que era uma provocação.

Justo ele, um homem do barroco dividido entre duas mentalidades, duas formas diferentes de ver o mundo.

Ela o cumprimentou com um beijo no rosto e, como se fosse sem querer, esbarrou no seu braço com a ponta do cotovelo.

Só serviu para acirrar o conflito dentro dele, o gosto pelas coisas terrenas, as satisfações mundanas e carnais e, ao mesmo tempo seus valores espirituais e seu subjetivismo.

Ela sentou na sua frente, levantou acintosamente o braço para chamar a garçonete, ele a olhou de forma lasciva. Ela percebeu.

Ato contínuo apoiou os dois cotovelos na mesa e apoiou o queixo nas mãos. Ele ficou ruborizado.

Ela era um verdadeiro anjo de duas faces. Sorriso de mulher, choro de menina.

Mais que duas faces, dois cotovelos despudoradamente nus à sua frente.

Horas depois, ele tentava explicar ao delegado porque cometera aquele atentado violento ao pudor tentando possuí-la na mesa do café.

Discorreu sobre os apelos eróticos do período barroco, explicou que, para um homem que vivia esse período como ele, a atitude dela tinha ultrapassado todos os limites.

O que hoje é erótico, como os seios femininos por exemplo, no barroco era apenas um sinal de caridade ou desprendimento. Por outro lado, enquanto os seios eram morais, os cotovelos tinham uma forte conotação sexual.

Ou seja, as mulheres podiam andar com os seios de fora, desde que mantivessem cobertos o encontro do úmero e da ulna. Explicou que foi dessa época a invenção das cotoveleiras, das camisas de manga comprida e os cremes hidratantes para os braços.

Dor de cotovelo, nessa época, tinha um sentido completamente diverso. Cotovelos calejados seriam sinal de atividade sexual intensa.

Ela tinha praticamente se acotovelado sobre ele. Fora impossível se controlar.

O delegado ouviu tudo com atenção. Chamou o carcereiro e mandou que o levasse para a solitária, onde ele poderia exercer sua individualidade subjetiva, que lhe entregasse um chicote para que remisse sua culpa pela auto flagelação e que o deixasse a pão e água para que ele superasse os limites da sua realidade.

3 comentários:

Vilma Mello disse...

Me diverti um bocado com esse texto
beijos de quinta

clau disse...

Hihihi.
Hoje em dia, com toda esta exposiçao que se ve por ai,um tipo assim se assemelharia mais a um tarado enquanto ela à uma lolita: coisas de um outro tempo.rss
Bjs!
Ps: bagagem pronta e esperando para embarcar, tenho um tempinho...

Juliana disse...

Cotovelos, sei, sei...