sexta-feira, 19 de junho de 2009

Nunc et semper

... o rei a escolhera como parceira intelectual e amante. Amor que começa como adoração é o que fica. (Luís Fernando Veríssimo in Um rei secreto)

No dia que Elisabete chegou à ilha ela logo reparou que as nuvens encobriam o topo do morro. Achou estranho. A topografia não era tão íngreme para que isso acontecesse. Mesmo assim não era possível ver o pico.

Instalou-se na casa. O barqueiro ajudou a descarregar as caixas com mantimentos. Ela pagou o homem e combinou dele vir buscá-la um mês depois. Finalmente estava isolada do mundo.

Depois de algum tempo sentada na grama, resolveu explorar aquela que seria a sua moradia pelos próximos 30 dias. Encontrou tudo no lugar, como tinham contado para ela. Inclusive as orientações sobre o funcionamento do gerador, que ela não pretendia usar, e do rádio, caso acontecesse alguma emergência.

Apesar de afastada do mundo, a casa tinha algumas conveniências modernas. O fogão era à gás (que também alimentava o aquecedor de água), a cozinha era bem equipada, os móveis eram confortáveis. Se quisesse usar tinha até uma máquina de escrever no escritório.

Bete não fez questão de quase nada, exceto o fogão. Queria passar um mês de paz e sossego, sem ter de se preocupar com nada que lhe lembrasse o seu cotidiano.

No primeiro dia acordou tarde mas depois, como dormia assim que escurecia, passou a se levantar muito cedo. Passeava na praia, depois preparava seu café da manhã.

Lia, escrevia e voltava a caminhar. Depois de um semana já tinha conhecido quase que a ilha toda, menos o morro, que continuava enevoado.

Quando já estava na ilha há dez dias teve uma surpresa. Caminhava pela praia quando, ao longe viu um barco encontando na areia. Parou e ficou olhando. Pensou em se esconder mas não teve tempo, o homem que atracava a viu e chamou-a.

Ela não sabia se se aproximava ou se corria para a casa. Pensou em ligar o rádio e pedir socorro. Mas não conseguiu se mexer. Estava travada de medo.

O homem chegou mais perto e lhe perguntou se ela sabia qual era o nome daquela ilha. Precisou perguntar de novo até ela sair daquela estado de estupor.

Ela então respondeu que a ilha não tinha nome, mas que estavam a três horas de barco de Alcobaça.

Ele explicou que tinha saído para uma navegação solitária, mas que seu GPS tinha quebrado e ele estava perdido, há dias navegava sem rumo quando avistou o morro da ilha.

Quando percebeu que ele não era perigoso, Bete ficou mais tranquila. Ofereceu-lhe comida e perguntou se queria usar o rádio. Ele aceitou a comida, mas disse que precisava descansar um pouco antes de sair navegando de novo.

Durante a tarde ele descarregou o barco e começou a montar uma barraca na praia. Ela ficou em dúvida se o convidava para a casa, afinal estava cheia de quartos vazios. Ficou com receio de dar impressão de outras coisas, mas falou para ele que podia usar um dos banheiros e a cozinha.

Nos dias que se seguiram eles se conheceram melhor durante as caminhadas. Descobriram que ambos estavam em busca de solidão e tranquilidade por motivos semelhantes. Em determinados momentos um ou o outro se fechava. O outro entendia e respeitava. Havia alguma atração mas, ao mesmo tempo, um certo distanciamento.

Um dia ele perguntou porque ela nunca tinha ido até o morro. Se era perigoso. Ela disse que não sabia, mas algo naquelas nuvens provocavam nela um certo temor. Ele perguntou se ela iria com ele. Ela hesitou, mas concordou.

Na manhã seguinte mudaram a rotina, tomaram café e depois partiram em direção ao morro. As nuvens continuavam lá, como se fossem um desenho imóvel.

Ela falou muito pouco durante o caminho. Por algum motivo que nem ela sabia explicar, as nuvens a assustavam. Ele percebeu e falava bastante para tentar distraí-la da preocupação.

A medida que se aproximavam, o caminho se tornava mais difícil. Tiveram de circular algumas pedras. Nas mais difíceis ele lhe dava a mão. Sentia que ela suava frio. Mas confiava no seu apoio.

Quando chegaram ao topo do morro sentaram, pegaram a garrafa de café e ficaram olhando o mar entre as nuvens. Ela relaxou. Ele olhou para o seu rosto tranquilo e, sem pensar no que estava fazendo, a beijou. Ela retribuiu o beijo como se esperasse por aquilo.

Sem dizer nada, ficaram apenas olhando um para o outro. Até que o sol começou a incomodar os dois.

As nuvens tinham desaparecido.

4 comentários:

Lou Mello disse...

Subir o morro sempre acaba mal... digo... bem. Subi o morro (Ilha Porchat) com uma mulher há trinta e um anos e ela está comigo até hoje. Pelo jeito ficará para sempre.

clau disse...

Nossa Fabio...
Achei demais!
Nao sò por ser algo romantico e com um seu toque de mistèrio. Além de achar ser bem escrita e prender a atençao da gente.
Mas pelo simples fato que fiquei triste que tivesse terminado!
Penso que eu recolocaria as nuvens de novo ali, sò para vc poder continuar este seu relato por mais um pouquinho. rss.
E foi por coisas assim que eu lhe pedi desculpas ali nos comentarios do meu blog. Hihihi
Bom fim de semana ai para vcs!

Fábio Adiron disse...

Clau: no post anterior tem um aforismo da Virginia que as histórias de amor não tem fim. A Lou aí não me deixa mentir.

Juliana disse...

Realmente, algumas histórias poderiam não ter fim. Concordo com as duas, essa poderia ser uma delas.