segunda-feira, 31 de maio de 2010

Papo de doido

Dona Tida era uma senhora já de idade provecta mas ainda detentora de toda sua capacidade mental. Mantinha, em especial o seu comportamento extremamente conservador.

Não foi por menos que naquele sábado de manhã quase teve um peripaque. Sentada, tomando o seu café na doceria, ela não teve como não ouvir o papo do casal da mesa ao lado.

" - Querida, aquele nosso sanduíche não está funcionando...'

" - Eu sei amor, depois que me esfrego em você não estou entendo sua condução para o oito atrás..."

Dona Tida já estava corada, mas eles continuaram...

" - Claro que não, até porque é o oito a frente, além disso não está me enganchando direito e eu sou obrigado a te induzir a uma castigada."

" - Mas, meu bem, se eu enganchar por dentro, você vai atrás ou na frente?"

" - Você precisa ficar totalmente esticada com o peso em mim e só pode se mexer ao meu comando."

" - Está bem amor, eu entendi, tem de ser com o quadril e não com a perna..."

O sangue borbulhava na cabeça da velhinha....

" - Isso! Senão eu sou obrigado a te dar uma amarrada. E você não pode perceber que eu fiz esse contratempo..."

" - Certo amor, eu aceito sua sacada e tento sair num drible...

" - Vamos fazer no quarteirão?"

Nesse ponto Dona Tida que já estava escandalizada e roxa de raiva se levantou, deu um tapa na mesa e gritou com os dois....

" - Seus safados, canalhas e depravados... não tem mais o que fazer do pensar nisso?

Os dois olharam para ela sem entender nada, achando que a mulher ia passar mal tentaram socorrê-la

" - Não encostem em mim, seus pervertidos! gritou dona Tida enquanto pegava sua bolsa e saía da doceria.

O homem olhou para a mulher e concluiu:

" - Sempre ouvi falar que as pessoas se escandalizam com o tango, mas nunca achei que chegasse a tal ponto..."

domingo, 30 de maio de 2010

Sem rejuntes

Estava indo tudo bem nas compras do piso da nova cozinha até o momento em que o vendedor perguntou de que cor deveria ser o rejunte.

Ele olhou para ela com uma grande interrogação na testa. Claro que sabia o que era rejunte, mas nunca imaginou que uma simples argamassa pudesse ter variedade de cores.

Ela se esforçou para não rir dele na frente do vendedor. Ele era um homem muito culto e informado, mas tão ignorante sobre esse temas...

O vendedor trouxe o mostruário e entregou na mão dele. Ele olhou por dois segundos e meio e repassou para ela, o que ela escolhesse estava mais que ótimo.

Com o seu humor habitual ele brincou com ela dizendo que eles não precisavam de rejunte... Ela não perdeu a chance de retrucar que adorava uma rejuntada.

O vendedor os olhava com cara de quem não entendera nada. E não tinha entendido mesmo.

No caminho de volta ele não tirou a história do rejunte da cabeça, não porque não gostasse das rejuntadas dela, mas não concordava com o fato de terem rejuntes e não conseguia achar os argumentos do porquê.

Estava fazendo um chá de gengibre antes de dormir quando lhe caiu a ficha. Serviu o chá para ela e explicou.

Rejunte serve para unir peças que ficam justapostas, peças que, na verdade, nunca se tocam, pelo contrário, estão separadas pela argamassa.

O que eles viviam era um intersecção de vidas, quanto mais ficavam juntos mais aumentava o espaço comum da intersecção.

O sorriso dela, dessa vez, era de encantamento e emoção. No dia seguinte ela ligou para a loja e cancelou a compra de todos os pisos e rejuntes.

Contatou uma empresa que fazia pisos de epóxi. A cozinha dos dois passou a ter um piso único. De ponta a ponta.

sábado, 29 de maio de 2010

Para sempre


Deixe te levar
Para o meu lugar
Campos de lavanda
Tudo é real
Esperar faz mal
Campos de lavanda para sempre

Viver é fácil com olhos brilhantes
Tudo que se sente se vê
Nada difícil ser alguém
Tudo funciona muito bem
Isso é que importa para mim

Viver é fácil com sorriso aberto
E eu pensei que fosse só um sonho
Penseí, é claro, descobri a verdade
Tudo tão bom tudo tão certo
Não ouso sequer discordar

Deixe te levar
Para o meu lugar
Campos de lavanda
Tudo é real
Esperar faz mal
Campos de lavanda para sempre

Campos de lavanda para sempre
Campos de lavanda para sempre

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Paixão autrófica

Jean sempre percebeu que Valéria lhe fazia bem. E não era apenas uma questão de retórica ou de pieguismo romântico, a namorada fazia com que ele se sentisse fisicamente melhor quando estava perto dela.

Valéria ficava sem jeito quando ele dizia isso, especialmente na frente dos amigos que sempre davam sorrisos irônicos ou faziam piadas maliciosas. Ela morria de vergonha.

A sensação de paz e de bem estar de Jean era tão marcante que, mesmo contrariando a namorada, ele nunca deixou de tocar no assunto.

Chegou mesmo a perguntar para o seu médico se existia algum caso similar relatado nas pesquisas científicas.

O médico riu e disse que o mal era da idade e para tal menino não existia nenhuma explicação em toda medicina.

Jean não desistiu de tentar descobrir qual era o segredo de Valéria, por mais absurdo que todos os achassem.

Um dia estava vendo um documentário na televisão quando, de um salto, bradou: "Eureka, eureka, eu achei..." Saiu em desabalada corrida em direção à casa de Valéria.

Começou a explicar para ela o que era fotossíntese, a forma como as plantas transformavam gás carbônico em oxigênio e luz em energia.

Era isso, Valéria era uma mulher fotossintetizadora. Ela transformava todas as ansiedades e preocupações de Jean em momentos de alegria e de paz. Fazia com que seu cansaço virasse animação.

Era o ser que enchia suas veias de oxigênio puro.

Valéria suspirou fundo. Só mesmo o amor para chegar a tal explicação, pensou. E que amor.

E nunca mais se envergonhou da paixão de Jean.

terça-feira, 25 de maio de 2010

Trilha sonora

Todas as semanas Roberto dava uma passada pela loja de CD´s que ficava a meio quarteirão do seu trabalho. Algumas vezes comprava, outras não. Acabou ficando amigo de Geraldo, o dono da loja que o atendia pessoalmente.

Geraldo se gabava de conhecer o gosto musical de todos os seus clientes. E estava certo. Raras foram as vezes que indicou algo para algum deles sem sucesso. Não era diferente com Roberto que, através de do lojista conheceu coisas que, sozinho não teria se arriscado a comprar. Richard Galliano, Tiziano Ferro, Jovanotti, Victor Ramil e Jessica Molaskey foram apenas algumas de suas agradáveis descobertas. Por mais que seu gosto fosse eclético, Geraldo acertava sempre.

Luciana era apaixonada pelo concerto para violino de Mendelssohn. Também gostava de outras coisas, mas o velho Felix era a paixão da sua vida por motivos que nem ela sabia explicar direito o por que. O andante a emocionava quantas vezes o ouvisse. Também era cliente de Geraldo que a abastecia não só de versões da sua paixão, mas de outras gravações eruditas que a encantavam.

Um dia, por acaso, Geraldo estava passeando num shopping quando, de longe, viu Roberto e Luciana de mãos dadas trocando olhares apaixonados.

Na mesma semana Roberto apareceu na loja em busca de discos de música clássica. Geraldo questionou se era para ele mesmo. Roberto disse que precisava aprender mais a respeito do assunto pois a namorada era apaixonada pelos eruditos. Geraldo sorriu por dentro. Escolheu uma antologia básica para Roberto acostumar o ouvido e sugeriu que ele levasse um presente para a namorada. Era o concerto de Mendelssohn na interpretação de Sarah Chang e Kurt Masur que ele tinha acabado de receber.

Roberto receou dar algo que não conhecia justo para a nova namorada. Geraldo disse que tinha um feeling que ela gostaria e até escolheu um papel de presente colorido que não tinha o logotipo da loja.
No dia seguinte Geraldo encontrou Roberto esperando a loja abrir. Tinha vindo para agradecer, o presente fizera o maior sucesso.

Dias depois, foi Luciana que apareceu. Não sabia o que dar para o namorado que tinha um gosto muito diverso. Além disso, contou para Geraldo, ele lhe dera uma jóia preciosa e ela não poderia retribuir com menos que isso. Geraldo nem pensou. Pegou uma caixa de CD´s de Leonard Cohen e afirmou que ela não erraria naquela escolha.

O tiro foi certeiro. Luciana lhe ligou para agradecer, Roberto passou na loja só para contar para Geraldo sobre o presente que tinha ganho.

Nos meses seguintes a situação se repetiu várias vezes. Luciana ganhava Paganini, Roberto, Tom Waits. Ela comprava Costello, ele retribuia com Bruch. Um dia Geraldo resolveu radicalizar e inverter as preferências musicais. Escolheu um CD com os quartetos de Borodin para Luciana dar para Roberto. Quando ele veio encantado comprar algo para ela, Geraldo o convenceu a comprar Piazzolla para a namorada.

A paixão que parecia ter chegado ao máximo aumentou ainda mais.

Até que, num sábado, aconteceu o inevitável, Luciana e Roberto se encontraram na loja de Geraldo. Um surpreso com o local de compras do outro. Não demorou muito a ficha lhes caiu, olharam juntos para Geraldo que exibia um largo sorriso de satisfação.

Casaram-se pouco depois. Geraldo foi padrinho e responsável por toda trilha sonora da festa.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

O amante da geometria

A transversalidade é um tema que recorrente nos colóquios de Plutão.

O sábio da Acaia costumava se debruçar sobre a geometria de forma contundente e, na maioria das vezes, ela não reclamava.

Sua incursões costumavam ser analíticas, ainda que a preferência da geometria fosse projetiva.

Quando isolado do mundo e do seu campo de estudos, ele tinha atividades meramente descritivas.

Sua geometria se considerava esférica, um modelo simplificado e herdado da geometria elíptica, esta sim, muito mais sofisticada e elegante.

Sua relação com a matéria tornou-se gradativamente hiperbólica e sem paralelos na história da matemática moderna. Chegando a um ponto dado com um número infinito de ultra-paralelas.

Amante da geometria, ela era música para os seus ouvidos , Platínico a tocava em espirais ascendentes que a conduzia muito além das cúpulas ensolaradas de Oviedo

A sonoridade geométrica era fora do comum, projetando-se no tempo e no espaço, de forma grave e cônica, como soem ser as elipses transversais.

Sua obra mater foi a transformação do duplo foco dos eixos em uma única linha que se estendeu além dos limites conhecidos do universo

sábado, 22 de maio de 2010

A mulher que enlouquecia os homens

Desde muito jovem ela era uma mulher linda e doce. Não era de surpreender que os rapazes se desmanchavam todos por ela.

Por excesso de modéstia, ela nunca acreditou que tivesse todo esse poder, pelo contrário, ainda que se achasse bonita, se via com um monte de limitações estéticas.

Limitações que só ela enxergava, o que todos os demais viam era uma mulher deslumbrante, não só por sua aparência física mas também pelo bom gosto para se vestir.

Era a própria definição da mulher perfeita. Além de bonita, era inteligente, estudiosa, dedicada ao que fazia, compreensiva e gentil, muito gentil.

Teve namorados.Todos perdidamente apaixonados por ela. Por um motivo ou por outro nenhum namoro durava mais que algumas semanas.

Os homens que namorava ou se revelavam muito diferentes do que ela esperava ou não conseguiam retribuir tantas virtudes.

Abandonados, entravam, no mínimo, em depressão. Os mais fortes conseguiram se recuperar apenas com medicamentos, dois deles tiveram de ser internados em manicômios. Um continuou a perseguindo pelo resto da vida.

Já adulta conheceu um homem pelo qual se apaixonou. Pela primeira vez da mesma forma que ele se apaixonara por ela, com a mesma intensidade, com a mesma entrega.

Juntos descobriram mundos que nenhum dos dois pensara antes fosse capaz de existir.

Sem jamais pensar em deixarem um ao outro enlouqueceram juntos e, na sua loucura, internaram-se um no outro e tornaram-se dependentes químicos mútuos.

Juraram amor pelas próximas trinta e uma eternidades.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

A fruta verde do vovô

Bruno ouviu a batida na porta que se abriu trazendo seu neto mais velho para dentro da sala.
" - Boa noite vô, tudo bem?"

" - Boa noite filho, tudo tranquilo."

" - Vô, minha mãe me recomendou vir conversar com você sobre um assunto."

" - Senta aí, vamos conversar. Me diga o que você precisa."

" - É o seguinte vô, você lembra da Patativa ?"

" - Claro neto, sua namorada com nome de passarinho..."

" - Então, a gente está pensando em casar."

" - Muito bom menino, vocês estão apaixonados mesmo, não é?"

" - A gente se gosta vô , dá bastante risada juntos..."

" - Mas estão apaixonados..."

" - A gente se ama muito vô..."

" - Luís, me diga uma coisa, vocês estão apaixonados ou não?"

" - Apaixonado apaixonado não vô , a gente já namora há 5 anos, a fase da paixão já passou..."

" - Então não casem, meu filho..."

" - Como assim vô? "

" - Simples assim Luís, se vocês não estão apaixonados, não casem. Aliás nem continuem a namorar, procurem suas paixões"

" - Mas vô , a gente já está na fase do amor maduro..."

" - Se já está maduro daqui a pouco começa a apodrecer..."

" - Fala sério vô..."

" - Estou falando muito sério, aliás, acho que é por isso que sua mãe quis que você conversasse comigo."

" - Eu acho que ela não gosta da minha namorada... vai dizer que você é ainda é apaixonado pela vovó?"

" - Claro que eu sou, como você acha que estamos casados há mais de 50 anos? Eu continuo me apaixonando todos os dias... Sua avó ainda fica corada com coisas que eu falo. Eu ainda sinto frio na barriga quando a convido para sair."

" - Está de brincadeira, vô"

" - Brincadeira seria você casar com uma mulher por quem você não está mais apaixonado. Casamento já não é fácil entre pessoas apaixonadas, sem paixão é só uma questão de tempo para acabar."

Luís, que esperava sair da sala com a benção do avô, ficou desconsolado com o que ouviu. Foi para o seu quarto e não conseguiu dormiu a noite toda, mal cochilava começava a ter pesadelos com frutas maduras apodrecendo.

No dia seguinte, ao chegar na cozinha encontrou a avó arrumando o lugar do café da manhã para o avô.

" - Bom dia vó, por que a senhora está arrumando a mesa do café? Já não estava pronta?"

" - Bom dia Luís. Eu arrumo o lugar do seu avô todos os dias, todo dia com algum detalhe diferente para surpreendê-lo..."

Naquele momento ele entendeu a recomendação do avô. No mesmo dia desmanchou com a namorada que até hoje tenta entender o que Luis queria dizer com aquela história de queria um amor verde.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Outro milésimo

Não faz tanto tempo assim eu comemorei por aqui a minha milésima postagem nos blogs.

Hoje comemoro mais um milênio, ou será milhar, ou será milenar?

Desde o dia 24 de Agosto de 2007 até hoje se passaram mil dias onde, tirando as minhas férias, eu publiquei algo todos os dias.

Em alguns dias, mais do que uma vez, tanto que já foram 1142 textos publicados.

Muitas pessoas me perguntam de onde tiro as idéias para tantas histórias.

A resposta é simples: as histórias estão em todos os lugares, basta prestar atenção no que ocorre à nossa volta.

A todos que me leram nesses 1000 dias. eu agradeço.

A todos que me deram as idéias peço que continuem a me inspirar.

Que venham os próximos 1000

terça-feira, 18 de maio de 2010

Bailarina


Vanilina numa esquina
Cafeína e sacarina
Sempre toda adrenalina
Bailarina

Seja tela ou cartolina
Azul ou vermelho-da-china
O mundo se descortina
Bailarina

Suporte de parafina
Pierrot e Colombina
Passos com disciplina
Bailarina

Gelatina e tangerina
Vitamina e proteína
Em busca de uma terrina
Bailarina

Um amor de purpurina
Brilha na minha retina
Conspiração e sina
Bailarina

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Desabaulado


O abaulamento é um fenômeno de inestabilidade elástica mesmo quando acontece em estruturas de borracha.

Costuma afetar elementos estruturais bidimensionais, tridimensionais e emocionais.

Geralmente acontecem quando algo é submetido a tensão de compressão sobre o seu plano ou superfície média

Eu nunca entendi direito o que flambagem e abaulamento têm entre si mas, de acordo com os estudos do operador laplaciano se o cognac for vagabundo a tensão se prolifera pelo eixo de L3.

Se a compressão ocorrer sobre a cauda equinal, existe um risco do bicho dar coices muito doloridos que se irradiam por uma das pernas.

Em alguns casos, o abaulamento também atende pelo nome de protusão, o que geralmente, é motivo de confusão ciatálgica.

A fórmula acima representa a capacidade máxima de um corpo resistir à compressão antes de defletirem.

A equação também pode ser usada para analisar abaulamentos sentimentais, nesse caso, o tempo de flambagem é o fator crítico para se manter a rigidez necessária.

Como eu nunca gostei de lidar com incógnitas nunca soube calcular esse limite e, muito menos fazer uso dele.

Passei a vida me dasabaulando

domingo, 16 de maio de 2010

...es un tango


Ele entrou no salão e a viu sentada do lado oposto.

Caminhou pela pista em meio a casais que dançavam animadamente.

Com os olhos fixos nela, foi se desviando de cada um deles até chegar à sua frente.

Ela o olhou com espanto. Não o esperava, muito menos naquele lugar.

Imaginou que ele fosse chamá-la para ir para outro lugar. Ele nunca soubera dançar.

Ela já preparava uma recusa para a suposta proposta, quando a orquestra passou a tocar um tango.

Ele olhou nos seus olhos e, sem nada dizer, lhe estendeu a mão e a trouxe para perto de si.

Ela não entendeu nada quando ele começou a conduzí-la com uma pegada inimaginável.

Caminhadas, oitos, ganchos, sacadas, voleios e torções. Parecia que ele tinha nascido dançando tango.

Os olhos dela brilhavam de felicidade, os dele de paixão e desejo.

Ele a amava bailando nos seus sonhos.

A amava bailando nos seus braços.

A amaria para sempre no salão de baile da sua vida.

sábado, 15 de maio de 2010

Brilho eterno

Petra era uma mulher sensível e delicada. Casou-se cedo com Gustavo e durante anos conviveu com suas idiossincrasias e suas indelicadezas.

A pior delas era o que Gustavo teimava em fazer com a vela de Petra.

Todas as noites ela acendia uma vela num castiçal de cristal que ganhara de sua mãe quando casara. Era o símbolo da chama do amor, eternamente acesa.

No começo Gustavo até lidou bem com aquele hábito. Não demorou muito, porém, ele passou a apagar a vela todas as noites antes de dormir, sem que Petra visse.

Na primeira manhã que encontrou a vela apagada, Petra acreditou que tivesse sido alguma corrente de ar. Na segunda manhã ela estranhou e, quando acendeu a vela mais tarde, certificou-se de que tudo estava fechado.

A vela continuou a aparecer apagada de manhã. Perguntou sobre o assunto para Gustavo e ele começou a se justificar a respeito de apagar a vela. Petra ficou arrasada. Chorou muito. Mas não desistiu.

Com o tempo ela foi perdendo o ânimo e não acendia a vela com a mesma frequência mas, por maior que se tornassem os intervalos entre uma tentativa e outra, ela nunca deixou de acender sua luz. E todas as vezes Gustavo a apagava.

Petra concluiu que era para ela mesma que acendia. Assim como a vela, a chama do amor já tinha se apagado há muito tempo.

Um dia Gustavo convidou alguns amigos para jantar. Dentre eles João que, apesar de ser um amigo de Gustavo desde a infância dos dois, era muito diferente dele.

João e Petra sempre tinham mantido um relacionamento meramente formal. Até aquela noite.

Já estavam todos espalhados pela sala tomando café quando Petra notou que João estava em pé perto da janela. Delicada e boa anfitriã, como sempre, foi ver se tudo estava bem com ele. Ele respondeu que sim e ela quis saber porque ele não se sentava com os demais.

João explicou que estava encantado com o brilho e o perfume da vela que estava sobre a mesa e que, se ele saísse de onde estava o vento apagaria a vela.

Petra começou a chorar. Acudida por João, disse que ele não precisava se preocupar com suas lágrimas, eram de emoção e felicidade. Apaixonaram-se.

Tempos depois, quando foram morar juntos, colocaram o castiçal no lugar de maior destaque da casa.

E todas as noites, juntos, acendiam a vela.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Além do céu

Subiram no balão. Prontos para uma experiência inédita e única.

Muitas vezes tinham visto cenas de balonismo na televisão mas, a partir de agora, teriam de navegar e voar sozinhos.

Não lhes faltava nada. O cesto abastecido. O reservatório de gás repleto de energia e a chama acesa no volume máximo

O balão saiu do chão, poucos metros. O vento o empurrava em direção à floresta, precisam subir antes que chegassem às árvores.

Lembraram dos sacos de areia. Começaram a pegar, um a um, e a desamarrá-los do balão.

Subiram um pouco, depois um pouco mais, o suficiente para ficar acima das copas das árvores.

À distância avistaram as montanhas. Se não subissem mais corriam o risco de um acidente.

Ele olhou para o chão e viu um enorme saco de areia. Não conseguia tirá-lo sozinho.

Ela o acudiu e, juntos, despejaram o peso para fora do cesto. O balão subiu incrivelmente, mas não ainda o suficiente para atravessarem a cordilheira.

Os pequenos sacos de contrapeso pareciam brotar no chão. Ele aumentou a força do fogo.

Continuaram a lançar os sacos para fora e continuavam subindo.

Conforme a montanha crescia à frente deles, eles também subiam.

Perceberam que só se livrando dos maiores pesos é que conseguiriam atingir seu objetivo.

Deram-se as mãos e, juntos, iam arremessando cada saco com o ânimo e a energia dos apaixonados.

Quando se deram conta já tinha ultrapassado as montanhas. Comemoraram com palmas.

Sabiam que sempre surgiriam novas montanhas. Sabiam que os sacos de areia não parariam de surgir.

Enfim aprenderam que essa era a regra do jogo e que só podiam vencê-lo jogando como se fossem um.

O céu não era mais o limite. Eles não eram mais seus próprios limites.

Voaram felizes para sempre.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Cerimônia do chá

Quando Mariana convidou Alberto para um chá ele abaixou a cabeça e as lágrimas começaram a correr pelos seus olhos.

Ela sabia que ele era um coração de manteiga, mesmo assim não entendeu a sua reação, até porque não era a primeira vez que tomavam chá juntos.

Ele fez um sinal com a mão pedindo que ela esperasse um pouco. Levantou-se sem dizer nada e entrou na cozinha.

Voltou alguns minutos depois com duas xícaras fumegantes sobre uma bandeja. Serviu-a e sentou novamente ao seu lado.

Aspiraram o perfume suave do "Príncipe de Gales", ele levantou sua xícara, como se brindasse e tomou um gole. Ela o acompanhou.

Ele olhou para ela e começou a falar. Durante toda a sua vida nunca tinha tido alguém que realmente se preocupasse com ele.

Ele sempre fora o lado forte de todas as suas relações, quando não era, fingia ser. Anos de solidão, anos de solidão.

Depois que ela entrara na sua vida ele começou a descobrir o que era reciprocidade.

Convidar e ser convidado, cuidar e ser cuidado, mimar e ser mimado, desejar e ser desejado, amar e ser amado.

O chá que ela propusera era muito mais que uma simples infusão de folhas. Era o símbolo daquele amor.

No momento em que ela o convidara, toda sua história passou pela sua cabeça, como se ela tivesse dito uma palavra mágica.

Ela o ouvia com ternura. Tirou a xícara das suas mãos, colocou a sua cabeça no seu colo e o acariciou.

Poderiam passar dificuldades, poderia faltar o que comer, mas naquela casa nunca faltaria chá.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Paixão Esfigmomanométrica

Sempre que ela a encontrava ficava sialogogo, ela rubefaciente.

Ela lhe era hematopoética, ele lhe era midriático.

Eram sempre assim seus encontros, aquela sensação surfatante que dava motilidade ao amor e, ao mesmo tempo os tornavam antidiscinéticos.

Sua cardiotonicidade aumentara significativamente quando a conhecera, ela não conseguia mais disfarçar sua ciclopegia.

O jeito demulcente com que a tratava elevava a diaforese mútua e a paixão efervescia e flavorizava os lábios.

Nada que fizessem era excipiente ou placebo. Tudo induzia a taquicardias sistêmicas e não raras dispnéias suspirantes.

Viviam de maneira quelante em largo espectro.

Ele a acariciava de forma tópica, um efeito ansiolítico sem contra indicações.

Mesmo quando se desentendiam os efeitos eram anecóicos e se depuravam rapidamente.

Nunca tiveram intercorrências mais sérias. Nunca caustificaram o companheirismo.

Transfusionaram-se numa vida de total compatibilidade

terça-feira, 11 de maio de 2010

Um travesseiro

Chegaram ao hotel cansados da viagem, loucos para tomar um banho, jantar e dormir.

Inspecionaram o quarto, como lhes era de hábito, resolveram quem tomaria banho primeiro, se vestiram e foram para o restaurante.

Não demoraram muito e voltaram. Quando ela puxou a colcha uma surpresa, a cama tinha um longo travesseiro único.

Se entreolharam. Ela dormia de lado, ele de bruços. Como é que iriam resolver a questão?

Pensaram em pedir outro travesseiro na recepção mas concluíram que dois travesseiros daquele tamanho acabariam gerando mais confusão.

Resolveram fazer uma tentativa, cavalheiro, ele tentou dormir de lado também. Não conseguiu.

Deitou de barriga para cima e ficou olhando o teto. Ela percebeu e se aninhou no seu colo.

Ele a acariciou e a sentiu ressonando. A amava demais para tirá-la dali, mesmo que passasse a noite em claro não se incomodaria.

Ela o abraçou e se enroscou ainda mais nele. Ele se virou para o lado dela, encostou sua cabeça no seu ombro, e a beijou.

Acordaram entrelaçados de uma forma que pareciam ser um só corpo.

O travesseiro amanheceu no chão.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Coruja technicolor


Corujas brancas corujam tintas encorujadas nos seus ninhos.

Todas as manhãs que vivo, sem me esconder pelas ruas, me encantam

Todas giram giram, todas debaixo da lua de cristal incandescente

A coruja que me olha revive a sensação da vida projetada em mim

Eu a conheço de antes de antes de antes

Nunca me fui, nunca me vou, jamais me irei

Sua voz me segue piando, cantando

Seus olhos farol como a luz do trem para um destino certo

Suas marcas em minha pele tingem meus sonhos reais

Corujas brancas corujam tintas encorujadas nos seus ninhos.

domingo, 9 de maio de 2010

Alices maravilhosas

Alice não é uma história para qualquer um, como, por sinal, não costumam ser as Alices que eu conheci.

Nem toda Alice que eu conheço atende pelo nome de Alice.

São seres irriquietos e vívidos transitando em mundos que alternam sonhos e poesia

Como Alice, a personagem, também têm seus medos e inseguranças, mas não se deixam vencer por eles.

No seus caminhos já encontraram gatos invisíveis, chapeleiros malucos e rainhas insanas.

Convivem todos os dias com cenas cômicas e surrealistas.

Questionam tudo, duvidam de tudo, analisam tudo.

O que não lhes dá garantia de estarem no melhor caminho, mas não se envergonham de perguntar a direção.

No Glorian Day elas acabam com o dragão, se livram da tirana e seus asseclas.

E reconstroem suas histórias em direção à liberdade.

sábado, 8 de maio de 2010

Altaminaro que o diga

Godofredo armava outro desar brandindo o pestilo banhado de cauim. Ronronava um aboio entre as aldrabas e defenestrava verrumas.

Depois da ceata que tivera ficou pernóstico e nem ligava para a atocia da mulher.

Se precisasse dava uma escapa aninda que isso prejudicasse sua cistocele.

De aziúme, fez uma bodocada sobre Abelardo que, mais mucudo que Godofredo, aplicou-lhe um piparote

Obturado pela desfeita lancetou seu êmulo a ponto de deixá-lo álalo.

Foi necessária a intervenção da marani féerica para cernir a inana.

Tudo foi descrito em predelas que se encontram no museu de Abidos.

Altaminaro Nunes Pereira foi fundador da Academia Brasileira de Filologia

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Fábula entomogastronômica

Elas chegaram na janela da cozinha e ficaram observando o movimento.

Crianças correndo, mãe gritando, empregada descascando tomates para o molho do macarrão.

O perfume do tomate fresco e do manjericão até chegou a atraí-las, mas o barulho as assustou.

Pousaram perto do vidro. Quem sabe uma hora todos saíssem e elas pudessem entrar e aproveitar melhor o perfume dos ingredientes.

As crianças foram para o quarto, a mãe atrás delas, só tinham de esperar que a empregada se distraísse.

Quando a água começou a ferver ela saiu em direção à dispensa.

As duas borboletas rapidamente entraram.

Uma foi direto para o tomate picado, a outra se deliciava com as folhas do tempero fresco.

Não demorou muito e a empregada voltou com um pacote de macarrão.

As duas olharam para o pacote, se olharam e sairam em disparada.

Nunca mais chegariam perto daquela casa habitada por canibais.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Uma mulher protusa

Hérnia era uma mulher protusa, se imiscuia em todos os assuntos que não lhe diziam respeito.

Não se preocupava se fazia isso de forma natural ou se adquiria meios para invadir todas as cavidades que lhe eram visíveis.

Geralmente ela aparecia quando alguém estava sobrecarregado, dava uma tossida como quem não quer nada e queria saber qual era a dor de barriga da pessoa.

Era justamente no momento em as pessoas estavam desestruturadas que ela manifestava sua índole melíflua. E deixava as pessoas completamente aponeuróticas.

Dependendo da encrenca que passava o circunstante que ela atacava, a reação podia variar de um simples desconforto a uma dor intensa.

Dentre os seus hábitos desagradáveis ela dava um jeito de se tornar o mais visível que pudesse e trancava a circulação de qualquer outra pessoa no assunto.

Até o dia em que quis intervir na vida de um sujeito violento.

Hérnia foi estrangulada, sem sangue e oxigênio teve uma isquemia e necrosou-se rapidamente.

Seus restos mortais foram enterrados em Septicemia, sua cidade natal.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Só por você

Minha petulância continua, dessa vez traindo um dos maiores letristas do cancioneiro americano Oscar Hammerstein II

Para ouvir a música: clique aqui

Só por você

Só por você música no coração
Só por você gênese da paixão
Só por você o sol não para de brilhar
Só por ser minha, lua e estrelas a fulgurar

Para sempre a mesma emoção

Só vivo por seu beijo e seu amar
É como no paraíso morar
Só por você a vida vale a pena
Você, meu sorriso, minha pequena

Because of you

Because of you there's a song in my heart
because of you my romance had its start
Because of you the sun will shine
the moon and stars will say you're mine

Forever and never to part

I only live for your love and your kiss
it's paradise to be near you like this
Because of you my life is now worthwhile
and I can smile because of you

terça-feira, 4 de maio de 2010

Carinho essencial

Vi-a de longe. Sabia muito bem o que era, apesar de ver apenas um vulto negro com dois grandes olhos amarelos olhando na minha direção.

Parei onde estava e fiquei esperando que algo acontecesse. Nenhum movimento. Apenas os olhos que, de tempos em tempos, piscavam.

Era um olhar intenso, sedutor e, ao mesmo tempo, assustador.

Dei um passo adiante e ela, de forma assustadiça se moveu, como se esperasse qual seria a minha atitude para definir sua próxima ação.

Sentei no chão e fiquei, em meio à escuridão, esperando que ela tomasse alguma atitude.

Ela esperou mais um pouco e, depois de alguns minutos de silêncio, moveu seu corpo esguio, cheio de curvas.

Me olhou com um jeito superior querendo ressaltar sua independência. Sua elegância caminhando na minha direção era emocionante.

Sem que eu fizesse nada, ela se aconchegou no meu colo esperando um carinho que sabia estava guardado só para ela.

Cochilamos juntos. Enroscados um no outro, sonhamos céus e oceanos.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

A acoimável antologia de Abril

O mês teve menos textos, mas não menos comentários. Só o "Assédio automobilístico" não emocionou nenhum dos meus comentaristas. Lembre de ler os comentários sem voltar aos textos originais, vai se divertir mais usando a sua imaginação:

Um mosquito dançou tango...

Um mosqueteiro do século 20 querendo dançar tango com uma raposa que, por ser louca, tinha uma espada.

Estou aqui embolando de rir

Fêmeas costumam ser sábias...

as suas bolotas de esterco,,,

Essa eu jurei que você tinha inventado.

Camilo,Camilo,como entender matemática,afogando-se no verde dos seus olhos

bem que ela podia ter batido na porta...

honra em dobro ao acompanhar tão belo poema..

pensando que me bastava o meu indispensavel guarda chuva

E beijo na chuva é o que há!!!

esqueceu de mencionar que ela era vascaína e levava isso a sério.

Quantos sapatos você tem?

...podia até andar descalça...

Na França, ninguém conhece a região da Gironda.

Se paga o preço, quer dizer, o dentista.

Você bebeu leite estragado?

Você deu 15 nós na minha cabeça...

Acho que já vi esta história em algum lugar...

Meu diamante azul tem o brilho de olhos cor-de-mel...

parada feito um tijolo...

exige um esforço quase sobre-humano...

dezenas de botões do vestido de noiva ... que suplício!

Eu poderia matar a fidumaégua...

um desses matemáticos perdeu a amante...

fazer a utopia parecer ao alcance da nossa mão!...

Ah! E trocaram de óculos também.

domingo, 2 de maio de 2010

Aforismos inconsequentes

A beleza não está só na alegria, nem a feiúra é atributo exclusivo da tristeza

A falta de reação, muitas vezes, é aterrorizante

Carinho, mesmo atrasado, sempre chega na hora certa

Juízo nunca é de menos

Parar de sonhar atrofia a alma

Quem trata os sintomas não cura as causas

Algumas coisas nunca mudam. Ainda bem

Otimismo crônico pode provocar algumas dores agudas.

Amor não se explica, sente-se e pratica-se

sábado, 1 de maio de 2010

Sobre a caixa

A coruja sobre a caixa observa René com sua paleta de tintas.

A coruja sobre a caixa admira a posição em que ele se senta para pintar

A coruja sobre a caixa capta cada movimento que faz seu professor

A coruja sobre a caixa se emociona a cada traço que ele riscar

A coruja sobre a caixa guardará essa imagem na retina e na memória

A coruja sobre a caixa aprenderá as técnicas acadêmicas

A coruja sobre a caixa reproduzirá os cavalos de René

A coruja sobre a caixa subverterá os traços e esculpírá as tintas.

A coruja sobre a caixa parece empalhada, mas está bem viva

A coruja sobre a caixa é Henri

A coruja sobre a caixa sou eu.

Quadro: "Princeteau no seu estúdio" de Toulouse Lautrec