segunda-feira, 20 de abril de 2009

As cores da vida

Teodoro e Mariana estavam casados há quase trinta anos quando ela teve as primeiras suspeitas a respeito da fidelidade do marido.

Não que ele desse sinais muito claros a respeito, mas ela o conhecia o suficiente para saber que alguma coisa andava estranha.

Teodoro sempre trabalhou muito longe de casa, trabalhava como fiscal da prefeitura numa região do outro lado da cidade.

Nem eles nunca quiseram mudar de casa, nem ele nunca quis pedir transferência. Era comum que ele chegasse tarde da noite, o que nunca foi objeto de dúvidas.

O que incomodava Mariana é que, tirando uma vez que o chefe de Teodoro se metera numa falcatrua, ele nunca falara do seu trabalho e, nos últimos tempos dera para comentar a respeito de uma fiscalização que estava fazendo num depósito de materiais de construção.

Não que, por isso ele estivesse chegando mais tarde que o normal mas, porque é que ficava se justificando?

Começou a procurar sinais. Não os achava. Ao invés de marcas de batom, suas camisas apareciam manchadas de tinta. Nenhum cheiro de perfume mas, volta e meia ele chegava cheirando a thinner.

Um dia encontrou algo no carro que, de longe, lhe parecia um fio de cabelo. Não era, era um fiapo de crina de pincel. Questionado, Teodoro respondia que eram coisas da loja que fiscalizava.

A desconfiança de Mariana só aumentava. Resolveu ir atrás dele um dia. Observou-o de longe entrando e saindo de pequenos estabelecimentos comerciais. Em cada um nunca passava mais que uma hora.

Ela já estava concluindo que tudo isso não passava de uma crise passageira de ciúmes quando viu Teodoro entrando numa loja de tintas. Sentou num bar em frente, pediu um café e resolveu esperar, já pensando em como se desculpar com o marido pelo vexame.

Uma hora. Duas horas. Três horas e nada. Quatro. Resolveu entrar.

Perguntou à menina do caixa se sabia onde estava Teodoro. A garota gritou : "- Seu Teodoro! tem uma mulher aqui querendo falar com você..."

Quando Teodoro viu Mariana seu rosto ficou de todas as cores possíveis...

" - Teodoro, o que significa isso? Por quê você não sai dessa loja ? Por que está com essa roupa toda cheia de tintas?"

Quando se recompôs, ele finalmente explicou:

" Mariana, naquela vez que falei do chefe metido numa falcatrua, não era o chefe, era eu. Fui demitido do serviço público há mais de 10 anos. Não quis te contar e, com o dinheiro que tinha ganho, comprei essa loja. É das tintas que nós vivemos."

Mariana não se conteve, e rompeu em lágrimas: "Há muitos anos reclamei com você que nosso casamento tinha virado um foto em sépia e que eu precisava de uma vida mais pigmentada. Você nunca me deu ouvidos. Até que enfim você me dá uma notícia para colorir a minha vida."

2 comentários:

Virginia disse...

Adorei o desfecho da história...

clau disse...

Nem a Agatha Christie faria melhor, hihihi.
Bjs!