sábado, 28 de fevereiro de 2009

Esopiana - parte II

Porém já cinco sóis eram passados que dali nos partíramos, cortando a grama e o mato esbugalhado, quando novamente encontramos as comadres no quintal.

Ainda receosa do último encontro, a barata não se aproximou da lagartixa e postou-se ao lado de um ralo que lhe permitisse uma rápida fuga, se necessário.

" - Bom dia amiga, você está com uma aparência melhor hoje, mais corada...

" - Isso lá é verdade dona baratinha*, encontrei um ninho de pernilongos no telhado e há uma semana ando bem alimentada. E a senhora, teve melhor sorte ?

" - Qual o que..., nem aquelas tripas de camarão que eu fiquei namorando sobraram, os monstros não comeram, mas fecharam num saco tão amarrado que eu passaria eras geológicas roendo para alcançá-las..."

" - Eles estão ficando cada vez piores. Imagine que outro dia perdi o Geconildo, só porque a monstrinha estava com medo dele. O monstro barrigudo ainda tentou explicar que lagartixas são boas porque comem insetos, mas não teve negociação. Ele acabou decapitado."

" - Também tive algumas baixas na família. Parece que o gigante de bigodes está mais rápido esse ano, ou elas é que estavam tão desnutridas que mal conseguiam correr..."

" - É verdade que a sua espécie é unanimemente detestada pelos brobdingnaguianos, mas a nossa ? Tirando a sensação gelada, eles não tem do que reclamar... mas estão virando terríveis jacobinos."

" - Anda roendo livros, comadre ?"

Antes de que a lagartixa começasse a responder, uma casal de corujas que passava pelo local deu uma rasante e levou as comadres nos seus bicos, garantindo o jantar.

Moral : "A distração é a tragédia das almas pobres."

* essa não tinha fita no cabelo, nem dinheiro na caixinha.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Esopiana - parte I

Estava linda Inês posta em sossego, na rede da casa de praia, colhendo coquinhos, quando avistou no muro de hera uma lagartixa caminhando em direção a uma barata.

Certa de presenciaria mais uma cena de documentário sobre a cadeia alimentar, ficou perplexa ao ouvir as duas conversando:

"- Bom dia comadre geconídia - saudou a inseta - como andam seus passeios noturnos pelos tetos e paredes?"

"- Bom dia neóptera colega. Os passeios andam cada vez mais longos e cansativos. Especialmente nessa nossa casa."

"- É verdade gélida amiga, a vida não anda fácil não. Eu que esperava mais sobras com a chegada dos veranistas, também ando me arrastando de fome".

"- Eles estão ficando cada vez piores. Antigamente se protegiam só nos ambientes internos, agora nem nosso quintal escapou."

"- Acho que o monstro barrigudo deve ter se convertido a uma nova seita zoroástrica. Todas as noites acende aquela espiral fumarenta aqui na varanda. Se aquilo ainda matasse algum bichinho eu poderia aproveitar os cadáveres, mas nada, só serve para atacar os meus pulmões..."

"- Exatamente... minha dieta de pernilongos foi muito prejudicada, ando com uma carência brutal de proteínas...daqui a pouco vou ter de comer baratas...

Ao ouvir isso, a artrópode levantou as antenas e, sem dizer mais nenhuma palavra, saiu voando e gritando :

"- Comadre, fique longe das baratas, elas são um veneno para o seu colesterol."

Moral : Um pedaço de pernilongo comido em paz é melhor do que uma barata com gordura trans.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Definição



Na escuridão das noites vazias
És esperança

Nas duras horas de amargor
És razão de viver

Nas lutas debatidas em vão
És recompensa

Na procura de um destino incerto
És encontro

Nas páginas em branco da minha vida
És poesia

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Trucidando analogias

Tema:

A fome é a melhor cozinheira


Variações:

Água e mantimentos vão na algibeira

Ginástica de amor é a melhor canseira

Gelatina endurece, na geladeira

Nunca vi o menino na porteira

Morro da Viúva e Ilha Solteira

Velho folião, sai na jardineira

Sombria e úmida clareira

Leite frio vai para a chaleira

Ouviu berimbau, é capoeira

Insano analogando, é brincadeira

A imagem de hoje é uma homenagem ao Lou Mello que, frequentemente, ilustra seus posts com belas mulheres.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Consultório insano-sentimental

Fazendo a sua função de utilidade pública, o Mens Insana atende regularmente o chamado desesperado de seus leitores através da coluna "Pergunte ao Insano".

A pergunta de hoje, vem de Nova York, Maranhão, de um leitor que se denomina "Ansioso cronométrico" :

Prezado Insano,

Marquei um compromisso com uma pessoa que quero muito encontrar, mas isso só vai acontecer daqui a uma semana. Como posso ocupar meu tempo sem enlouquecer?

Querido Cronométrico

A ansiedade pode provocar males diversos ao fígado e ao coração, por isso recomendo que seja controlada rigorosamente, sob pena de, ao invés de comparecer ao seu encontro marcado, passar uns dias em alguma UTI. Abaixo seguem algumas distrações possíveis:

Se você for do estilo literário, pode escolher entre a Busca do Tempo Perdido de Proust ou os Lusíadas de Camões. Certamente os dias passarão antes que você chegue ao fim de qualquer um deles. Contra-indicação : você pode gostar tanto dos livros e perder a hora do seu compromisso.

Também pode optar pela música, nesse caso pode optar pelas cantatas de Bach (são 224 com uma duração média de 40 minutos cada uma) ou a edição completa das óperas de Wagner, que são cerca de 20 peças, mas como cada uma dura umas 4 horas dá para se distrair. Como trata-se de um caso de ansiedade eu optaria por Bach. Wagner pode potencializar seu sofrimento.

Claro que você também pode se dedicar a algumas atividades ao ar livre, como pescar trutas no Rio Parnaíba ou uma caminhada até São Luís, o que são 500 km?? Além do que, se conseguir pegar uma truta nessa região, você vai entrar para o livro dos recordes por ter pescado a truta mais setentrional do hemisfério Sul.

Caso nenhuma dessas atividades te atraia, a única solução será uma dose cavalar de soníferos que te deixem apagado pelos próximos 6 dias (não arrisque os 7 dias para não dar mancada....)

Não esqueça depois de nos escrever para contar o que aconteceu, se der resultado publicaremos na nossa coluna "As insanidades que funcionam".

Ah, e se puder me mande por sedex um pouco de arroz-de cuxá.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Aforosos insanerismos

Solidão é ter a alma inundada de silêncios

Desastres acontecem até na cabeça de um alfinete.

Aonde pousam olhares que não se cruzam ?

Nem toda verdura é verde. Nem dura.

Prefiro o tédio* da coerência do que a aventura da contradição.

A falta de razão tem razões que são um arraso.

Não me venha com indiretas, eu odeio terceiros, ainda que metafóricos.

Seu silêncio responde todas as minhas perguntas.
Corolário: As respostas muitas vezes estão nas perguntas não formuladas (vs)

Não acredito em coincidências só em reicidências.

* segundo Wilde "A coerência é o último refúgio dos que não têm imaginação" (curiosamente ele foi preso por manter sua coerência)

Como um lírio


Nos seus olhos o brilho colorido de oceanos, nada pacíficos,
trazia o mistério de continentes submersos.

Seria apenas um sonho? Um delírio? Um presente que, de surpresa,
me brindava o universo?

Deixei-me levar pelas ondas arrebentando em cores e paredes,
por canções e não poucos versos.

Enquanto me guiava em corredores repletos de tesouros
um mundo totalmente diverso.

Entre linhas e entre textos escancaravam-se janelas,
portas e almas mostrando seus anversos.

Nem mesmo tempestades de adagas flamejantes
nos deixarão dispersos.

Nem densas trevas cotidianas esconderão
o bem querer onde me alicerço.


Imagem : quadro pintado por Virgínia Susana

domingo, 22 de fevereiro de 2009

Panis non conficitur sine farina




Para a Claudia, pela receita e para a Virginia, pelo poema

Meu leitores mais assíduos conhecem meu relacionamento tumultuado com os pães. Não é de hoje, e tão pouco de ontem que eu me aventuro na arte da panificação com resultados variando da mediocridade intolerável ao desastre hecatômbico.

Ja tentei as mais diversas receitas. Mais simples, mais complexas. Usando óleo, usando manteiga, usando banha. Fermento biológico, fermento em pó, só faltou usar fermento inativo.

Já estava decidido a me recolher à minha panifícia ignorância e me limitar a fazer pão de queijo (que, por sinal, não usa fermento) quando me convenci de que a esperança é a última que morre.

Desde junho do ano passado eu tinha guardado uma receita que a Cláudia publicou no seu ótimo "...pro mnesis", que ela chamou de pão perfeito.

Não sei se foi especialmente dirigido para mim, mas esse mês ela publicou outra receita chamada "pão à prova de qualquer desastre" e eu afirmei que, no meu caso, isso não existia.

Mas é carnaval...não me disse quem era eu mesmo e encarei de frente a farinha de trigo e o fermento e...

Não é que deu certo ?

O pão ficou crocante por fora e macio por dentro nas duas versões de formatos que eu fiz.

Minha filha que ficou chocando o forno quando o dito cujo começou a cheirar, e foi a responsável pelo test-drive assim que ficou pronto, fez o comentário definitivo: "desta vez ficou bom".

Isso significa que não vou jogar fora o restante do fermento biológico que comprei e partirei para novas tentativas, mesmo sabendo que "modicum fermentum totam massam corrumpit..."



Devore as imagens lendo o maravilhoso poema de Gabriela Mistral

Pan

Dejaron un pan en la mesa,
mitad quemado, mitad blanco,
pellizcado encima y abierto
en unos migajones de ampo.

Me parece nuevo o como no visto,
y otra cosa que él no me ha alimentado,
pero volteando su miga, sonámbula,
tacto y olor se me olvidaron.

Huele a mi madre cuando dio su leche,
huele a tres valles por donde he pasado:
a Aconcagua, a Pátzcuaro, a Elqui,
y a mis entrañas cuando yo canto.

Otros olores no hay en la estancia
y por eso él así me ha llamado;
y no hay nadie tampoco en la casa
sino este pan abierto en un plato,
que con su cuerpo me reconoce
y con el mío yo reconozco.

Se ha comido en todos los climas
el mismo pan en cien hermanos:
pan de Coquimbo, pan de Oaxaca,
pan de Santa Ana y de Santiago.

En mis infancias yo le sabía
forma de sol, de pez o de halo,
y sabía mi mano su miga
y el calor de pichón emplumado...

Después le olvidé, hasta este día
en que los dos nos encontramos,
yo con mi cuerpo de Sara vieja
y él con el suyo de cinco años.

Amigos muertos con que comíalo
en otros valles, sientan el vaho
de un pan en septiembre molido
y en agosto en Castilla segado.

Es otro y es el que comimos
en tierras donde se acostaron.
Abro la miga y les doy su calor;
lo volteo y les pongo su hálito.

La mano tengo de él rebosada
y la mirada puesta en mi mano;
entrego un llanto arrepentido
por el olvido de tantos años,
y la cara se me envejece
o me renace en este hallazgo.

Como se halla vacía la casa,
estemos juntos los reencontrados,
sobre esta mesa sin carne y fruta,
los dos en este silencio humano,
hasta que seamos otra vez uno
y nuestro día haya acabado...

sábado, 21 de fevereiro de 2009

A volta de repressão

Vivemos em tempos difíceis. Depois de alguns anos de democracia relativa ou, pelo menos, ausência de repressão organizada, parece que estamos voltando aos momentos mais atrozes das ditaduras.

Diferentemente do passado, agora não são militares ou tiranetes de plantão que assumiram o perfil repressor, mas os nutricionistas.

Sim, meus concidadãos, essa classe que emergiu entre as novas profissões nos últimos anos está empreendendo uma perseguição implacável a nós e outros radicais livres.

Alegam que somos instáveis, que temos um comportamento ímpar e ainda nos acusam de reações exacerbadas com o que encontramos pela frente, a ponto de nos acusarem de ladrões de elétrons.

Não percebem que nós, radicais, livres, abandonamos há muito a luta armada e a guerrilha urbana.

Nos tempos da ditadura nos chamavam de provocadores e degenerados, agora, dizem que provocamos a degeneração de tecidos sociais. Nem mudaram a terminologia.

Mais do que isso, alguns colegas estão sendo processados pelo assassinato de bactérias ou por manter em cárcere privado o tônus de músculos lisos.

Correm boatos, de fonte confiável, que o conselho federal desses profissionais contratou um lobista para aprovar um projeto de lei que cria uma polícia especial para nos caçar - o Esquadrão Anti-Oxidante que usará vitaminas de efeito moral e gás carotênico.

Já estamos saturados dessas acusações. De nos classificarem na mesma vala comum dos pesticidas e poluentes.

Apelamos aos poderes superiores para que nossa liberdade, ainda que radical, seja preservada, irradiada e discriminalizada.

Radicais desunidos, jamais serão desoxidados.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Na trilha de Afrânio Peixoto*

Na remota cidade de Acad, um auruspice medanista que cultivava epicantos, dedicava-se à parassematografia.

Todos os dias, depois de realizar sua asssepsia anti-ulômica, atrelava saigas à sua carroça, saudava as potâmides do Ili sobrelevando sua bacorinha de um modo quase fescenino e dirigia-se à sua seiada.

Entre aragoas e taiobas que cozia em sirage, sacudia o cavername adiáforo e coçava as gelhas em meditação.

Consultava seu esclerômetro e sua infusão de pérula, em busca de respostas que não fossem catacréticas.

Mas não havia teriaga que o tirasse do seu rodamento domatófobo, ainda que seus hábitos cancrívoros garantissem sua evemia.

Ao fim de cada dia, embarcava em seu acátio turbinado por albacoras, como se um lamego fosse, e anegava-se no seival.


*Júlio Afrânio Peixoto (Lençóis, 17 de dezembro de 1876 — Rio de Janeiro, 12 de janeiro de 1947) foi um médico, político, professor, crítico literário, ensaísta, romancista e historiador brasileiro.Ocupou a Cadeira nº 7 da Academia Brasileira de Letras, onde foi eleito em 7 de maio de 1910, e a Cadeira nº 2 da Academia Brasileira de Filologia, da qual foi fundador.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Banquete frugal

Muitas vezes passo a impressão, pelas receitas que publico aqui, que meu mundo gourmet se resume a pratos sofisticados e complexos. Não é verdade.

Se, de um lado, gosto dos temperos, ingredientes e combinações incomuns, de outro sou fã da boa e velha culinária do cotidiano.

Hoje, por exemplo, tive um banquete no meu almoço : língua e jiló. (se você torceu o nariz para um ou para outro, ou para ambos, não sabe o que está perdendo)

A língua do boi (podia ser vaca também, mas o açougue não fornece dados a respeito do gênero do bicho) é uma das partes mais saborosas do bovino. Usada na culinária de várias origens, especialmente na cozinha judaica, é muito rica em nutrientes.

Tem apenas o defeito de ser de digestão lenta, ou seja, não é um prato para comer antes de dormir. Nesse ponto que entra o jiló como acompanhamento

Muitos costumam dar a desculpa de que o nobre fruto (o jiló não é um legume) é amargo. Amargas também são as chiquérrimas endívias e o colorido radicchio, nem por isso são alvos de queixas dos paladares pedantes.

O jiló não chega a ser exatamente rico em nutrientes mas o é em ácidos que estimulam a produção do suco gástrico, ajudando a digestão (talvez por isso muito receitado em dietas).

Pode ser refogado com azeite, alho, sal e pimenta do reino, ou apenas frito no azeite. Um acepipe indispensável.

Luiz Gonzaga cantava que a saudade é amarga "que nem jiló", o que não deixa de ser uma verdade. O que não significa que, de tempos em tempos, a saudade possa fazer muito bem.



quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Conticulóides coloridos

Vermelho

Aproveitou a parada do sinal e despencou. Chorava tanto que o motorista do carro ao lado lhe lançou um sorriso de conforto. Quando o farol abriu ela lhe deu uma fechada e ainda fez um sinal obsceno - sua dor não aceitava misericórdia.

Amarelo

Quando pequeno lhe contaram que os orientais eram da raça amarela. Ficou imaginando seres da cor do girassol. Decepcionou-se ao ver que sua namorada, nipônica, tinha outro colorido.

Verde

Frustrado por não ter os olhos de sua mãe, ela passou a vida em busca de um marido de olhos cor de esperança, na esperança que os filhos pudessem compensar sua perda. Estragou a vida preferindo a genética à paixão.

Azul

Antonio era um otimista. Perto dele, Poliana não passava de uma brincadeira de criança, nem a maior desgraça o abalava. Quando a mulher o trocou por outra, ele teve uma iluminação e fundou a igreja do onanismo maniqueu. Dizem estar perdido em alguma ilha da Oceania em busca de prosélitos,

Laranja

Todos os dias, Agnaldo passava pelo prédio de Janaína e deixava um buquê de rosas e uma caixa de bombons com um bilhete. O porteiro nunca entendia porque ele não subia e não falava com ela. Até o dia que soube que ela fugira com um cara casado. Era o chefe de Agnaldo.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

De um trocadilho

Anárquica
Arco com a ausência
de você

Quica coração
Bola em terreno baldio
Cheio de crianças.

Anárquica experiência
Rara e rica
Detalhes
Sensações

Amiga alegria : anarquista
conquista
espaços de um coração

aonde só cabem o anarquismo
o lirismo de uma rosa paixão:

primeiro.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Confuso horário

Eu sou fã do horário de verão. Gosto das tardes claras e da luz até 7, 8 horas da noite. Sempre lamento quando recebo a notícia que vai acabar.

Normalmente, tenho o hábito de começar a acertar os relógios da casa durante a tarde do sábado (o horário de verão sempre começa e acaba em domingos) assim, quando acordamos já estamos no fuso correto.

Quando ele começa, isso é fundamental, pois perdemos uma hora e já aconteceu de eu chegar num compromisso no domingo de manhã, quando esse já tinha acabado.

No final, quando ganhamos (ou recuperamos a hora perdida) essa paranóia dos relógios é menos relevante. Na pior das hipóteses podemos chegar antes em algum lugar.

Por isso mesmo ontem não me preocupei muito com isso. Acertei meu relógio de pulso, o computador e o celular se acertaram sozinhos...e fui dormir.

Acordei com a minha mulher me perguntando : "você acertou o relógio da cozinha?"

Respondi que não e ela quis saber que horas eram... zumbi de sono procurei o meu relógio no criado-mudo

"São dez para seis..." eu grunhi...

"Ah, é que eu nunca sei se é uma hora para frente ou para trás..."

Ou seja, além de não resgatar a hora que eu tinha em crédito, ainda acordei 2 horas antes do que precisava.

Portanto, se você precisar falar comigo, lembre-se que eu estou funcionando no fuso horário das Ilhas Galápagos...

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Vovô viu a uva

Começou a aparecer uva preta no mercado.

Alguns chamam de uva Bordeaux, apesar de não ser exatamente uma Carbernet ou Merlot, é a uva que permite a fabricação caseira de suco e geléia de uva (na dúvida, pergunte para o seu feirante ou fruteiro do mercado se é a uva de suco, uva de mesa não se presta para isso).

Fazer suco e geléia não exige prática, tão pouco habilidade, mas é preciso de braço forte, especialmente com a geléia.

Não esqueça de preparar um estoque de recipientes proporcional à quantidade de uva que você comprou - no Ceasa de São Paulo, por exemplo, vende-se em caixas de 6 kg, o que produz uns 10 litros de suco e cerca de 1,5 kg de geléia.

Pegue a uva e separe os bagos dos talos. Lave-as e, numa panela grande (se comprar muita uva, uma panela imensa), coloque as uvas e água na proporção de 2 litros de água para cada kilo de uva.

Cozinhe em fogo alto e fique de olho na panela quando começar a ferver. Sujar o fogão de suco de uva não é exatamente uma aventura divertida.

Quando os bagos estiverem praticamente sem cor (o volume de liquido se reduz a quase metade do original) passe o suco por uma peneira e está pronto. Se a uva for de boa qualidade não precisa nem adoçar (a menos, é claro, que os consumidores sejam loucos por sacarose)

Nesse ponto começa o exercício de musculação. Pegue a massa de uvas que sobrou na panela e comece a passar numa peneira, de forma a extrair uma pasta homogênea.

Coloque essa pasta numa outra panela (por favor...) e acrescente açúcar. A receita da família recomendava a mesma proporção de uva e açúcar. Eu faço com metade do açúcar (1 parte de açúcar para duas de uva) e ainda acho que fica doce.

Cozinhe até ficarem bem misturados. Distribua nos potes. Mantenha guardada em geladeira.

Como sou um purista e minha produção destina-se apenas ao uso doméstico não adiciono conservantes nem espessantes.

Caso exagere na dose saio distribuindo geléia entre os amigos. Nem todos afirmam que as uvas estavam verdes.

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Poemeto tragicômico

Na imagem a lembrança,
relembrava o tempo
de harmonia e sentimentos.

Acordes no compasso da dor.
a foto no aparador
sábado, dia de ócio e tragédia
solidão e cenas de amargura
o abandono
o abandono
que só se vê na fotografia.

Ele sozinho no quarto
meias pretas e cuecas
o espelho revelador
o bandoneon a chorar....

Um corpo sobre a calçada
Sirenes na madrugada.

Ela sozinha na esquina
Saia longa e botina
Cafeína e nicotina
Nem notou sua ruína.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Até que a rede nos separe

Já soube de muitas histórias esdruxulas a respeito de fins de namoros ou de casamentos.

Algumas envolviam violência, outras abandonos seguidos de desaparecimento puro e simples de um dos cônjuges.
Separações resolvidas por telefone, por carta, por recado dado a amigos...

Mas o caso do Neil Brady foi o primeiro que eu tomei conhecimento. Fiquei imaginando como seria se ele tivesse escolhido outro meio virtual :

(para facilitar a leitura usarei sempre "ele", mas tudo abaixo também vale para "elas")

Divórcio pelo Orkut

O primeiro sinal é quando você descobre que perdeu a estrelinha de fã dele. É como dizer "o gato subiu no telhado". Depois descobre que seus scraps são apagados sem que tenham resposta e seus depoimentos rejeitados.

Até que um belo dia você descobre que foi excluída, pior, ele colocou nos seus vídeos o filmete "Vou-te excluir do meu Orkut".

Pontapé pelo MSN

Geralmente são divórcios rápidos. A frase clássica é : Vc naum e + nd p/ mim. Ads.
O bloqueio é apenas uma consequência.

Fora via Twitter

Ex-querida, eu queria poder explicar melhor, mas só tenho 140 caracteres. Pode ficar com a coleção do Paulo Coelho. Até nunca mais. Fui.Bjs.

Se for uma rede profissional como o Linkedin ou Plaxo

Amigos, anuncio que, a partir da data de hoje, estou me desligando de Aninha e parto em busca de novos desafios. Caso tenham conhecimento de alguma oportunidade adequada ao meu perfil me avisem que eu lhes encaminho o meu currículum amoroso.

Second Life que virou Third

Observei que Juliana prefere um outro avatar. O que me obriga a abandoná-la imediatamente, mudar de país, de nome e de showcase.

Descantada pelo My Space (ou pelo You Tube)

Novidades. Trajano acabou de postar um novo vídeo com a sua versão cover de "Fim de caso". Baixe aqui direto para o seu MP3 player e pode chorar....

E-mail

Ninguém mais rompe por e-mail, isso é coisa de gente das antigas.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Desalinhado

Ella llevaba una camisa ardiente
Ella tenía ojos de adormecedora de mares
Ella había escondido un sueño en un armario oscuro
Ella había encontrado un muerto en medio de su cabeza
(Ella - Vicente García-Huidobro - 1941)


A geometria define uma linha como sendo um conjunto alinhado de pontos. Pode ser uma reta, ou não. Sendo, alegam que seja a menor distância entre dois pontos.

Não existem linha finas ou grossas. Uma linha grossa cria uma segunda dimensão e a linha passa a ser uma área e não a linha.

Corolariamente, dizer que existe uma linha fina que separa o amor do ódio é um pleonasmo. Se a linha for reta, vicioso, se for curva pode até ter algum estilo.

Existem linhas reais e imaginárias. Da segunda categoria a mais famosa é a do Equador, que nem Gagarin conseguiu ver, em meio a tanto azul.

Tanto as linhas que unem, como as que separam são muito frágeis. Podem ser rompidas ou ultrapassadas com pouco ou nenhum esforço. Intencionalmente ou não.

Linhas que separam a guerra da paz. Linhas que unem amantes (se bem que esses, geralmente, preferem laços que são mais fortes).

A linha que separa a ironia da gafe. O jogo de sedução do assédio sexual. A vida da morte.

Teve uma época que era muito bom de geometria (analítica e descritiva) - saudades do Prof. Fausto que entendia de linhas e de Chopin.

Mas o tempo passou e eu nunca mais usei essas coisas e desaprendi totalmente a lidar com elas.

Por isso já rompi algumas que deveria ter acompanhado em paralelo, e passei por cima de outras que deveria ter rompido.

O que não me impede de continuar olhando para cada uma delas com um misto de fascínio e pânico.

Como um desenho surrealista.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Hai kais vegetais


Cenoura

Lábios de carmim
Radiante sensação
Beijo colorido

Arroz

Suor escorrendo
Num olhar desconfiado
Íntima união

Endívia

Tua palidez
Escancara um universo
De certo amargor

Uvas

A minha paixão
Não aceita aperitivo
Do tempo que passa

Tomate

Gotas venenosas
Corre o sangue em minhas veias
Rubro e assustador

Se quiser saber mais sobre hai kais, veja aqui

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Cloaca literária

Depois de ter me debruçado sobre o ralo, recebi de presente do meu primo Alberto um livro que é uma jóia histórica: Temples of Convenience & Chambers of Delight. O livro da inglesa Lucinda Hamilton mostra o banheiro através da história. Poderia se chamar "um luxo de WC" ou "o conforto da latrina".

Não sei se o livro foi editado no Brasil e se está disponível nas melhores lojas do ramo (livrarias, é claro, se bem que poderia ser vendido em lojas de equipamentos sanitários). Caso sim, recomendo a leitura.

O que me preocupou, assim que recebi o livro, foi onde ler os templos da conveniência ?

Como é um típico livro de mesinha de sala, pensei em deixar por lá e ir lendo nos momentos que dou uma descansada no sofá. A idéia não foi bem recebida em casa : fotos de privada na sala ???

Também fui obrigado a tirar da mesa do escritório, sob a alegação que ficaria estranho caso algum cliente fosse folheá-lo antes de uma reunião.

Na sala de jantar eu mesmo já concluíra que seria algo incompatível. No quarto, daria uma boa leitura antes de dormir. O veto também veio de forma radical.

Como a área de serviço da casa não é exatamente um lugar confortável, o único lugar que me restou foi o meu templo de conveniência pessoal.

Por mais pedante que possa parecer, ao invés de revistas semanais ou palavra cruzadas, no meu banheiro você encontra um belíssimo livro de capa dura, com dezenas de fotos e em inglês.

Agora, se vocês me dão licença, que eu preciso ler.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Como entrar numa blogotrip

Antes de mais nada, para realizar uma blogotrip é necessário:

a) Ter tempo de sobra, ou não ter tempo de sobra mas não estar com vontade de trabalhar

b) Uma dose razoável de tolerância com o que as pessoas escrevem (seja no conteúdo, seja na forma)

c) Não ser um crítico de estética, nem diretor de arte de agência pós-moderna.

d) Ter certeza que as crianças estão dormindo. Seja para não ver algumas besteiras, seja para não ouvir seu palavrões que podem ser inevitáveis.

e) Não ser um realizador frequente de egotrips, pode dar choque anafilático.

Roteiro básico :

1. Escolha um blog qualquer que você costuma frequentar*, pode ser até mesmo esse

2. Escolha um dos blogs que estão linkados e vá até ele

3. Leia a postagem mais recente, depois veja a lista dos blogs que estão linkados, escolha algum onde nunca esteve e continue a viagem.

Observações importantes:

i. se você gostar muito do blog que achou, coloque nos seus favoritos, mas não continue a ler nesse momento. Blogtripper sério só lê um post por blog.
ii. em hipótese alguma pare para fazer comentários, blogtrip interrompida pode gerar crise de abstinência

4. Faça a mesma coisa no seguinte e, assim sucessivamente. Caso caia em algum que não linka ninguém, volte para o anterior e escolha outra estrada.

5. Enquanto a viagem for prazeirosa ou, pelo menos, tolerável, vá em frente.

6. Quando a sua cabeça começar a zunir de tanta informação, deite no chão com os pés para cima e olhe fixamente para o teto, até ver tudo girando.

Efeitos colaterais :

Na grande maioria das vezes, ver o teto girando é apenas "confusão mental" causadas pelo conteúdo das postagens e pode se dissipar com o tempo.

Porém podem gerar desconforto físico forte e, se não controlados podem causar alucinações perturbadoras, dores no corpo (mais comuns quando a cadeira que você usa é dura), aumento da frequência* cardíaca (dependendo das imagens usadas pelo blogueiro visitado), medo de ficar viciado.

Também podem ocasionar, de forma menos frequente* : Pânico, despertar de fobias, e aquisição psicoses agudas caso você seja muito instável, naturalmente.


*Nova fonética, leia-se: frekentar, frekencia, frekente

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Bom prá cachorro

Já ouvi falar várias vezes de inversão de valores, de inversão de faltas (especialmente em futebol) e até de reversão. Nunca tinha ouvido falar em inversão de nomes próprios.

Fui de manhã numa ótima loja de vinhos que tem aqui do lado de caso e, enquanto eu me deliciava com as opções o Samuel encontrou uma moça com três cachorrinhos e ficou brincando com eles - os cães, os cães, ele ainda não fica se engraçando com as moças, tanto que nem pediu o telefone dos totós.

Aliás, nem poderia pedir o telefone dos totós, porque nenhum dos três animais tinha nome de cachorro. Era a Ana Júlia, a Bianca e o Joaquim.

Fiquei com saudades do tempo que cachorro erá Totó, Faísca, Rex e Fluffy. Nomes pomposos só tinham os cães de raça e, mesmo esses, tinham apelidos carinhos e seus donos não costumavam se referir a eles como Anatólio de Weinbrungen. Creio que totó surgiu justamente como um apelido para esse cão.

A verdade é que os cachorros estão substituindo os filhos e, por isso mesmo, levando os nomes que esses teriam se existissem.

Sempre que ouço uma madame no meio da rua gritando "vem cá meu nenê" e o nenê é um dinamarquês ou histérico fox paulistinha eu me lembro do rock da cachorra do Eduardo Dusek, dizendo que conhecia um menininho que queria ser pastor alemão, assim não passaria fome.

E olha que eu nem reparei na patronímica, tenho certeza de que alguns canídeos já portam sobrenome da família no lugar do tradicional pedigree e, algumas pessoas, certamente já estão andando com o seu certificado de registro na carteira, ao invés de um mero RG.

Seguindo essa lógica combinada com suas preferências políticas, o cachorrinho que o Obama vai comprar para as filhas, provavelmente vai atender pelo nome de Abraham ou Luther, se bem que já ouvi gente com cachorro que atende por Barak e até um Sadam.

O Veríssimo tem uma crônica que dizia que se alienígenas chegassem na terra reconheceriam imediatamente quem são os seres mais poderosos. Os cães. Afinal, quem mais tem um escravo que fica andando atrás deles na rua catando o seu cocô ?

Não vai demorar muito para que as crianças recém nascidas comecem a ganhar nomes de cachorros. Para esse pais que já tem um Eduardo que é o seu setter, o filho só pode se achamar Bidu ou Scooby.

Também não duvido que o avanço da genética ainda vai permitir que os donos levem seus cachorros em clínicas de reprodução para que eles escolham que tipo de bebê humano eles vão querer.

Erasmo, o filósofo e teólogo, não o cantor, é que tinha razão : Qui canem alit exterum, huic praeter lorum nil fit reliquum.

Au ! Grrrr.... Au !

sábado, 7 de fevereiro de 2009

A insublimavel antologia de Janeiro


Janeiro foi um mês curto de postagens, mas rico de insanomentários.


Como sempre recomendo, não procure o contexto dos mesmos, mas divirta-se imaginando uma situação para cada um deles:


Você comeu muitas ostras?

...paguei caro essa infâmia...

Santa Clarice Lispector da fina talhada de melancia

E eu que pensei não saber sâncrito, russo, finlandês e romeno!!!

...meu pai aurélio já estava pegando poeira.

depois que os pés estão empanados, a gente frita ou assa?

...liberdade indescritível, só comparada a tirar o soutien.

Sabia que eu tive aulas de português com um tataraneto de Dom Palheta ?

Parece um círculo redondo...

Por um acaso essa senhora Kung Fu tinha filhos chamados Tai Chi Chuan e Aikidô?

Por aqui loucos varridos não vão para debaixo do tapete

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Ab infantia usque ad decrepitam senectutem


Revirando os meus alfarrábios encontrei a minha primeira tentativa poética.

As rimas são pobres e os pés estão quebrados... fica aqui como um registro histórico

Poeta

Queria fazer poesia
Mas eu nunca fui poeta
como sê-lo, tal queria
Se nem a rima sai correta

E não é que agora acertei
Foi só para me desmentir
Já que isso, muito bem sei
Eu nunca irei reproduzir.

Raios...o que houve comigo?
Ora, novamente acertei
Não há de tardar, meu amigo
Em breve,aguarde, eu errarei

Vou fazer você tão feliz
Me esforçarei até errar
Dessa vez, veja, por um triz
Novamente fui acertar

Caro amigo, dileto leitor
Agora enfim lhe deixarei
Com tristeza e tal amargor
Sem sua atenção. Xi! Errei !

29 de outubro de 1975 (revisado quase 34 anos depois)
Antes que me perguntem : a foto é mais antiga que o poema

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Selo ou não selo*?

Constantemente eu vejo blogs de amigos sendo premiados com condecorações oficiais da blogosfera.

Recebem o selo Dardos, o selo Flechas, o selo Zarabatanas e, os melhores, já ganharam selo Bala de Festim.

Tem o blog amigo, o blog massa, blog original, blog simpático, blog show e blog blog (os que receberam o selo glub glub morreram afogados, resquiecat in pacem)

Até hoje o Mens Insana se posicionava contra esse tipo de ação entre amigos. Agradeceu alguns confetes recebidos mas, como o síndico do blog não gosta de carnaval, acabou nem retribuindo nem espalhando serpentina.

Até que hoje eu achei o único prêmio coerente com a missão, os princípios e valores insanos (se você não conhece a nossa carta de princípios leia o primeiro texto publicado aqui)

Revolvi lançar mais um prêmio blogante : O certificado de insanidade.

Para manter a nossa filosofia, as regras do prêmio serão as seguintes :

1. Escolha os 7 blogs mais absurdos que você já leu

2. Apague-os dos seus favoritos e coloque na lista de bloqueio do seu firewall

3. Em seguida mande para todas as mães que você conhece um arquivo PPSx com a letra de Coração Materno (Vicente Celestino), tendo como fundo musical a terceira ária de barítono de Jaköbsleiter de Schoenberg e cole muitas fotos de cirurgias cardíacas.

4. Se tiver menos de 45 anos faça uma busca para descobrir quem é o ser que aparece no certificado de insanidade (abaixo)

5. Desligue o computador e vá dormir antes que fique tentado a deixar uma mensagem desaforada nos comentários

*frase extraída do volume III do Vade Mecum dos filatelistas de Odense, publicado em 1734 por Homilético Johansson

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Assassinando analogias

De grão em grão a galinha enche o papo

Quem muito resmunga leva sopapo

Mesmo em sinuca eu encaçapo

Se não tem terno vai de farrapo

Óleo na pista e eu não derrapo

Azeite bom vai mais que um fiapo

De olhar em olhar conquista o guapo

Licor de cajá e de jenipapo

Gaze, mercúrio e esparadrapo

Você descasca e eu encapo

Cosa nostra sempre tem capo

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Fruto proibido

Manuel estava arrependido. Também estava de ressaca, mas isso era uma outra questão. Mais do que a boca de cabo de guarda-chuva (sim, continua com hífen) ele sofria as dores do remorso pelo que tinha feito junto com ela. Seu corpo todo, a começar do fígado, estava em pandarecos.

O filme passava continuamente na sua cabeça, o que aumentava a sua dor.

Ele a tinha visto logo cedo, do outro lado da calçada da rua onde morava. Não era a primeira vez que isso acontecia mas nunca antes tinha se arriscado. Quando voltou da padaria ela continuava lá com aquela sua cor tentadora. Mudou de calçada para observá-la melhor. Mais perto dava até para sentir o seu perfume.

Não resistiu e puxou papo com o sujeito que estava com ela que era seu antigo conhecido. Ela acabou envolvida no assunto e envolvida por ele que a convidou para a ceia daquela mesma noite. Ela não teve como recusar, a proposta era precisa e direta.

A ceia correu sem sobressaltos, até de maneira frugal. Depois da refeição ele a levou para a sala de estar e acomodaram-se no sofá. Não demorou muito para que ele a atacasse.

Cheirava-a de forma ofegante, tomou-a nas mãos e começou a acariciá-la explorando toda a sua topografia. A pele lisa o deixava ainda mais excitado. Sua boca a tocou. Primeiro os lábios, levemente. Depois os dentes, quase que de forma furiosa a ponto de deixar marcas indeléveis. Por fim a boca toda, num ritual contínuo.

Ela se deixou levar por ele sem resistir. Chegou a gotejar seus líquidos no seu colo.

O festim só acabou quando ela estava completamente esgotada, quando a madrugada ia alta. Ele recostou no sofá e lá mesmo dormiu, todo torto. Na manhã seguinte ela não estava mais lá.

Pela janela ele olhou para o local onde a havia encontrado e caiu em si.

Nunca mais passaria a noite comendo nectarina.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Como uma onda

Uma onda é uma perturbação oscilante de alguma grandeza física no espaço e periódica no tempo, esse conceito também é bastante conhecido como fazer onda, ou enrolar o circunstante com quem que se conversa.

A oscilação define comprimento de onda e a periodicidade no tempo é medida pela freqüência da onda, que é o inverso do seu período, seja lá o que isso signifique, mesmo porque eu não estou fazendo mais nada do que tirar uma onda de vocês.

Uma onda se propaga através do espaço ou através de um meio (líquido, sólido ou gasoso), de qualquer forma, as ondas mais famosas são as do mar, que já foram massacradas até pelo Lulu Santos. Quando ele declara que a vida vem em ondas ele não explica o comprimento,a frequência ou a velocidade da metáfora, o que torna sua afirmação sem nenhum valor científico.

Nada impede que uma onda magnética se propague no vácuo. A pergunta filosófica derivada desse fato é : se ninguém está no vácuo, a onda existe ?

Uma onda pode ser longitudinal quando a oscilação ocorre na direção da propagação, ou transversal quando a oscilação ocorre na direção perpendicular à direção de propagação da onda. São pouco conhecidas as ondas diagonais ou aleatórias, até porque os matemáticos do caos ainda não se detiveram demais no assunto.

As ondas oceânicas de superfície são ondas de superfície que ocorrem nos oceanos. Encontrei essa frase na Wikipedia e fiquei boquiaberto com ondas salivares escorrendo pela minha língua, longitudinalmente. Que primor de construção.

Os físicos acreditam que as mesmas são provocadas pelo vento que cria forças de pressão e fricção que perturbam o equilíbrio da superfície dos oceanos. Os biólogos marinhos, no entanto, especialmente os estudiosos da Universidade de Riga, liderados pelo Prof Dr Krloxivic D´Orgnion da Silva, grande mestre de origem sino-nicaraguense, fizeram uma grande descoberta : as ondas são provocadas pelos peixes que habitam a orla marítima.

O que ocorre é que, em função da densidade salina de cada praia, os sais de potássio, iodo e, durante o carnaval, os sais de purpurina, provocam micro engasgos nos peixes. Como se sabe engasgo é o bloqueio da traquéia de uma ser vivo por um objeto estranho que gera uma reação violenta semelhante à tosse.

Como ninguém sabe realizar manobras Heimlich, até porque as nadadeiras não são adequadas para esse tipo de operação, nada resta aos peixes senão tossir.

A combinação da salinidade com a circunferência da traquéia da fauna aquática local, elevada a potência enésima do tamanho dos cardumes, provoca ondas maiores ou menores. O Havaí é conhecido pela sua relação inversa de salinidade e traquéia, o que faz com que os peixes tussam furiosamente e gerem ondas de mais de 5 metros. Surfista que se preza estuda detalhadamente mineralogia e piscicultura para saber que tipo de onda vai enfrentar.

Em alguns países, a pesca predatória próxima à costa tem provocado uma diminuição constante na dimensão das ondas. Estima-se que daqui a 10 a 12 séculos as praias de Santa Catarina formarão um grande lago sem ondas.

Na próxima vez que você for a praia e o mar estiver muito agitado, não esqueça de dizer aos peixes : Deus te crie...

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Sou do contra


Desde o seu lançamento ouvi muita gente me recomendando o filme Sideways (em português denominado "entre umas e outras"), especialmente por saberem que eu gosto de vinhos e essas pessoas acreditarem que o filme seja sobre esse tema.

Durante a minha maratona cinematográfica das férias (esse ano assisti 41 filmes) carreguei o DVD na bagagem. Se, dentre todos, não foi o pior filme que vi, certamente ficou classificado entre os 3 mais chatos e soníferos.

O filme se define como uma comédia (inclusive ganhou prêmios nessa categoria). Não tem graça nenhuma. Os personagens são pobres. De um lado um depressivo professor que não dá uma bola dentro da vida (o que os americanos classificam como "loser"), de outro seu amigo infantil e priápico. As mocinhas da trama também não se destacam pela originalidade nem pela profundidade.

O roteiro chega a ser indecentemente previsível. Boy meets girl, começam um relacionamento, tem um desentendimento provocado por um mal entendido e acabam felizes para sempre.

O contexto é supostamente enológico, a história se passa na região vinícola da Califórnia. O professor e as duas meninas são "entendidos" no assunto (o amigo do professor não entende nem quer entender nada, só quer farra sexual).

Fala-se muito em vinho. O filme aproveita a glamourização da bebida de Noé e de Baco, criando uma espécie de universo paralelo habitado por uma série de rituais e pelo excesso de semântica e pela arrogância de pseudo enófilos/enólogos pedantes com valor zero. Ao invés de ajudar na informações, criam uma aura de mistério como se a bebida fosse algo inatingível.

Além disso, o filme deifica os vinhos produzidos com Pinot Noir e atiram no último círculo do inferno a uva Merlot, como se todo vinho feito com a primeira fosse bom e com a última um lixo.

Sei que os adoradores do filme vão me bombardear por aqui. A eles meus brindes com grandes Merlots (por mais que eu goste também da Pinot Noir) tenho certeza que fugirão da minha oferta como o vampiro de alho).

O DVD ?? Ah...esse eu não me dei ao trabalho nem de colocar de volta na minha estante de filmes. Já deve ter sido reaproveitado em alguma estação de reciclagem.