segunda-feira, 19 de maio de 2008

Por uma revolução ortográfica

O problema de reformas é que elas nunca são radicais.

Eu sou contra as reformas, defendo as revoluções, se é para mudar, deixemos de eufemismos. Mesmo a reforma cristá do século XVI, que eu defendo, acabou sendo uma revolução e não apenas uma arrumação de casa.

A mais recente reforma em curso é a da ortografia da Língua Portuguesa. Não é a primeira, não será a última - e nenhuma resolveu os problemas da língua que vão muito além da ortografia.

Por isso, proponho que juntemos fileiras e lutemos pela revolução da Língua Portuguesa. Às armas, cidadãos...

Não seria simples ? Se tem som de Z, é Z, por ezemplo.

Aboliríamos todas as grafias que tem som de S e não são S, como ss, sc, c e ç

Idem ibidem com tudo que tenha som de X e não seja Xis, bebendo xávenas de xá.

Mesma coisa com o L quando tem som de U, seria maiz saudáveu.

Acabaria o uso de M antes de P e B (porque só essas duas letras tem esse privilégio ?)

Eliminaria totalmente o uso do H : depois do L colocaríamos o I, no caso dos sons nasais, depois do N, já temos o recurso do til, basta adotar a solução española

Só manteria o trema em homenagem à Cristiane, uma ex-tremista de primeira hora.

Vamos a um exemplo clássico usando as "Memórias Póstumas de Braz Cubas" de Machado de Assis, cujos primeiros parágrafos são os seguintes

Algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte. Suposto o uso vulgar seja começar pelo nascimento, duas considerações me levaram a adotar diferente método: a primeira é que eu não sou propriamente um autor defunto mas um defunto autor, para quem a campa foi outro berço; a segunda é que o escrito ficaria assim mais galante e mais novo. Moisés, que também contou a sua morte, não a pôs no intróito, mas no cabo: diferença radical entre este livro e o Pentateuco.

Dito isto, expirei às duas horas da tarde de uma sexta-feira do mês de agosto de 1869, na minha bela chácara de Catumbi. Tinha uns sessenta e quatro anos, rijos e prósperos, era solteiro, possuía cerca de trezentos contos e fui acompanhado ao cemitério por onze amigos. Onze amigos! Verdade é que não houve cartas nem anúncios. Acresce que chovia - peneirava uma chuvinha miúda, triste e constante, tão constante e tão triste, que levou um daqueles fiéis da última hora a intercalar esta engenhosa idéia no discurso que proferi. à beira de minha cova: "Vós, que o conhecestes, meus senhores vós podeis dizer comigo que a natureza parece estar chorando a perda irreparável de um dos mais belos caracteres que têm honrado a humanidade. Este ar sombrio, estas gotas do céu, aquelas nuvens escuras que cobrem o azul como um crepe funéreo, tudo isso é a dor crua e má que lhe rói à natureza as mais íntimas entranhas; tudo isso é um sublime louvor ao nosso ilustre finado."

Versão na Revolução Ortográfica Insana

Memóriaz póztumaz de Braz Cubaz de Maxado de Asiz

Augum tenpo esitei se devia abrir eztaz memóriaz pelo princípio ou pelo fim, izto é, se poria em primeiro lugar o meu nasimento ou a miña morte. Supozto o uzo vugar seja comesar pelo nasimento, duaz considerasõez me levaram a adotar diferente método: a primeira é que eu não sou propriamente um autor defunto mas um defunto autor, para quem a campa foi outro berso; a segunda é que o ezcrito ficaria asim mais galante e maiz novo. Moizéz, que também contou a sua morte, não a pôz no intróito, mas no cabo: diferensa radicau entre ezte livro e o Pentateuco.

Dito izto, ezpirei às duaz oraz da tarde de uma sezta-feira do mêz de agozto de 1869, na miña bela xácara de Catunbi. Tinha unz sesenta e quatro anoz, rijoz e prózperoz, era solteiro, posuía serca de trezentoz contoz e fui aconpañado ao semitério por onze amigoz. Onze amigoz! Verdade é que não ouve cartaz nem anúnsioz. Acrese que xovia - peneirava uma xuviña miúda, trizte e conztante, tão conztante e tão trizte, que levou um daqueles fiéiz da útima ora a intercalar esta engeñosa idéia no dizcurso que proferi. à beira de minia cova: "Vóz, que o coñeseztez, meuz señores vóz podeiz dizer comigo que a natureza parese eztar xorando a perda irreparáveu de um doz maiz beloz caraterez que têm onrado a umanidade. Ezte ar sonbrio, eztaz gotaz do séu, aquelaz nuvenz ezcuraz que cobrem o azul como um crepe funéreo, tudo iso é a dor crua e má que lie rói à natureza az maiz íntimaz entrañas; tudo iso é um sublime louvor ao noso ilustre finado."

Não concordam comigo ? Nós sofreríamos um pouco no começo, mas as gerações futuras, que estão sendo alfabetizadas agora, nos agradeceriam.

E, se é para detonar com a língua, que o façam bem feito !

6 comentários:

Cristiana Soares disse...

Hahahaha!
Obrigada pela homenagem.

Eu concordo com vc...mas ainda acho que teríamos problemas por causa dos vários sotaques. Por exemplo:

tomate ou tumati?
mermo ou mesmo?
entendendo ou entendéindo?

Dúvidas, professor Adiron. Muitas dúvidas.

Vilma disse...

Prefiro boas mensagens cheias de erros ortográficos à porcarias ocultas sob a língua formal.

Aproveitando o "gancho" da Cristiana:

Querido professor, pode incluir nessa sua reforma a extinção da crase e do acento agudo?

Lou Mello disse...

Na minha idade, tudo que eu gostaria é que não alterassem a língua portuguesa que minha professoras cretinas, digo, zelosas tiveram a gentileza de me ensinar. Odiava as aulas de português, como todos podem ver. Fico louquinho com as vírgulas e acentos que antes iam e agora não vão mais e essas mudanças todas em tão pouco tempo. Mas entendo que o mundo está em constante mudança. Na próxima encarnação, caso Calvino esteja errado, eu gostaria de ser chinês para aprender a ler com os olhos e não com os ouvidos.

Fábio Adiron disse...

Cris : certamente a revolução ortográfica deflagaria a futura revolução fonética

Vilma : pode incluir sua sugestões na plataforma do governno revolucionário

Lou, zelo mesmo você vai ver no dia que eu falar de análise sintática ...KKKK

Juliana disse...

Se é para propor mais, eu voto pela abolição do ponto e vírgula(tudo bem, eu sei que isso não é ortografia.

Profe Elis disse...

Ah não! Agora que eu aprendi...Nem pensar, os futuros aprendizes dessa língua insana que se virem!