terça-feira, 6 de maio de 2008

O pão que o insano amassou

Minha avó materna, a Maricota, era uma excelente cozinheira. Aprendi várias coisas com ela, as que cheguei mais perto foram o seu capeletti (sim, quando baixa a inspiração eu faço massa de macarrão) e o molho ao sugo. Nunca aprendi fazer os seus doces, mesmo porque não sou um consumidor ávido de açúcar e admito meu egoísmo em me dedicar mais às coisas que eu gosto de comer.

Uma das suas especialidades era fazer pão caseiro. Foram raras as vezes que eu cheguei na sua casa e não tinha um filão de pão na cozinha. Casca dura o suficiente para ficar crocante e miolo macio. Quando dava a sorte de pegar o pão saindo do forno era uma festa. Dava para comer puro que já era ótimo, com uma boa talagada de manteiga (claro, a manteiga era a Aviação de latinha) era de se comer de joelhos em reverência ao mesmo.

Mas o que ela gostava mesmo era quando eu aparecia durante a preparação do pão. Ela entrava com toda sua experiência em fazer pão e eu entrava com o braço para sovar a massa. No fim da história o que aconteceu é eu fiquei com o bíceps mais desenvolvido e nunca aprendi a fazer pão. O problema é que eu sou um consumidor voraz de pão. Desde pequeno minha mãe me recomendava que eu casasse com a filha do padeiro, para não dar muito prejuízo. Casei com uma analista de sistemas. Bits e bytes não tem o mesmo gosto.

Pior, minha tentativas de fazer pão sempre foram desastrosas. Faço um excelente pão de queijo, como manda meus 50% de sangue mineiro, mas o pão básico nunca acertei. Já deixei a casca dura e o miolo cru. Consegui fazer com que uma fornada saiu dura diretamente da forma, nem como torrada servia. Já usei receitas clássicas e alternativas. Nada deu certo.

Nesse fim de semana ataquei de novo de padeiro. Tomei cuidado de comprar bons ingredientes, incluindo a banha de porco que minha avó usava e fui à luta junto com as crianças.





Primeiro misturei dois tabletes de fermento biológico com uma colher de sopa açúcar. Dissolvida a mistura, acrescentei as duas colheres de sopa de banha e a colher de sal. Continuei mexendo a mistura. Aos poucos acrescentei o copo e meio de água morna até chegar a uma pasta quase líquida e homogênea. Comecei a colocar a farinha e misturar, até completar todo o kilo do pacote. E dá-lhe braço para amassar. Depois de uma sessão de sova coloquei a massa para descansar.

Uma hora depois tinha crescido bastante, conforme o dito bíblico, um pouco de fermento leveda toda massa. Mais uma sessão de amassa e sova. Novo descanso e vamos ao forno. Cortei um pedaço da massa para o Samuel (que fez um pãozinho) e outro para a Letícia (que resolveu fazer um cubo que se transformou em algo indescritível depois de assado), com o resto formatei o meu filão.

O resultado foi razoável. Bem melhor que meus desastres anteriores, mas ainda longe do pão da Maricota. Pelo menos me animou a continuar tentando. Afinal, como diria Sêneca : "Panem et aquam natura desiderat".


7 comentários:

Cristiana Soares disse...

A forma não importa. Mas sim o sabor. Devem ter ficado ótimos! Hummm...

A minha filhota Lorena sabe fazer pão integral. A mamãe aqui que ensinou. Mas ela superou a mestra. E sofisticou a receita com ervas! Um dia faremos aqui em casa e convidarei sua turma, ok?

Beijim em vc e nos lindinhos! (queria ser sua filha :-))

Vilma disse...

Adoro fazer pão, mas não sei dar a receita, faço tudo no olhômetro, minhas filhas não são muito fãs em fazer pão, Valkiria prefere aquelas receitas americanizadas de preferência as que dá para fazer no forno de microondas, Valéria adora amassar e fazer bolachinhas, Victória come a massa ainda e meu marido sabe fazer bolinhos fritos igual aos do pai dele, meu sonho está quase se realizando, vou construir um forno à lenha na minha casa, aí sim o negócio vai ficar bom.
Minha tia que mora no sítio, faz pão com 05 kg de trigo e aquele fermento feito de batatinha que fica numa garrafa, é o melhor pão que conheço, mas ela como eu, não tem receita, embora faça sempre da mesma maneira...o díficil é acordar às 4:00 da manhã para observa-la...rs, melhor acordar às 8:00 e comer o pão quente.

Vilma disse...

Minhas dicas:

1-não use 02 tabletes para um kilo, no máximo 1 e 1/2, a massa fica com mais liga e o pão não "racha" ao crescer.

2- Enquanto a massa "descansa" cubra com um pano úmido (os "bichinhos" do fermento adoram).

3- Se quiser que ele fique com a casca grosssa ( tipo italiano) coloque uma vasilha com água parte de baixo da assadeira enquanto ele assa)

4- Se quiser casca macia passe sobre ele manteiga ou Margarina logo após retirar do forno.

malmal disse...

Razoável? ah! explica direito o que razoável quer dizer quando se refere a pão...
Mas, entrando na seção dicas, minha avó Italiana e fazedora de pães, colocava o pão pra crescer sob cobertores ,(claro que em cima ia um pano de pratos), preparava o fermento a parte e só depois de misturada a farinha,líquidos e demais ingredientes o misturava ao restante..
eu não herdei a boa mão dela, minhas tentativas foram desastrosas e desisti de vez, mas penso em comprar aquela panificadora doméstica, porque pão de razoável pra ruim, ninguém merece...
Mas sempre vale a festa das crianças

bijoks

Fábio Adiron disse...

Cris : vamos marcar, vai ser a festa da farinha...

Vilma, suas dicas estão anotadas para a próxima tentativa, depois conto como foi.

Mal : razoável em relação ao pão tem o mesmo sentido de honesto em relação ao vinho

Juliana disse...

Gostei da idéia da festa da farinha. Estão aceitando degustadores?

Anônimo disse...

Oi Fábio! Bem, vim lá do início e acabei no pão. Pode ser porque estou com fome e escutei gente na cosinha, mas, não sei, foi porque o pão é o pão e pronto.
Você é autênticamente insano, digamos, um insano beleza. Existe o maluco beleza, mas está fora de moda e bastante desgastado pelas drogas. Assim, insano beleza tá no ponto certo do pão, nem com muito, nem com pouca manteiga, sem precisar acordar às quatro da manhã para ver a mão da vó, nem nada disso. Insano beleza no ponto. Muito bom. MAQ.