quarta-feira, 28 de abril de 2010

Retorno à eternidade


Para ser lido ao som da Sinfonia nº1 de Mahler

Felipe saiu da estação de metrô em plena Xavier de Toledo. Olhou para a sua direita e lá estava ele. Altivo, imponente, majestoso. A iluminação realçava sua arquitetura eclética misturando elementos barrocos, renascentistas e até de art nouveau. Ele ficou parado olhando o prédio e todo um filme do passado rodou pela sua cabeça. Fora ali dentro que tudo começara.

O seu relacionamento com Romana começou bem devagar, quase se arrastando. Ele emitia sinais sutis demais para que ela percebesse e, quando achava que tinha percebido não acreditava que fosse exatamente aquilo.De qualquer forma, as insinuações de Felipe foram se multiplicando e se tornando cada dia menos duvidosas. Romana entendeu tudo e gostou da descoberta.

Ele a convidou para um concerto. Conhecedora do gosto musical dele, ela aceitou. Ele passou pelos Campos Elísios para pegá-la, ela estava deslumbrante. Estacionou longe e foram caminhando até a porta do Theatro Municipal que brilhava à distância, iluminado por holofotes azuis. Mais de uma vez, durante a caminhada, ele pensou em se declarar. Mais de uma vez ela esperou que ele falasse algo.

O programa musical foi fantástico. Durante a valsa ele finalmente tomou coragem e segurou a mão de Romana. Ela apertou com força e sussurrou no seu ouvido um elogio ao repertório. Um turbilhão de emoções se apossou dos dois. Estavam apaixonados.

Os meses seguintes foram poderosamente agitados, eles mergulharam num romance sem limites numa velocidade com a qual nenhum dos dois jamais sonhara. O amor se manifestava de todas as formas e a entrega mútua era total.

Com o tempo, o namoro assumiu um caráter solene, moderado, mas sem se arrastar. Eles já tinham entrado numa velocidade que não dava mais para parar. Se envolveram juntos ou um com o apoio do outro em várias atividades, todas movidas a música.

Assim como os presentes e mimos que trocavam, mesmo os que não eram musicais por sua própria natureza o eram por sua essência. Melodia, ritmo e harmonia eram componentes essenciais do amor. Não faziam nada que não tivesse uma trilha sonora, sempre escolhida a dedo por um dos dois.

Um ano depois Felipe estava de novo diante do Theatro. Dessa vez sozinho, Romana tinha um outro compromisso que a impedia de ir comemorar o aniversário naquela noite. Ele entrou no saguão, olhou as colunas. Ela estava em cada tijolo do local. No Foyer sentiu os aromas dos chás que eram servidos e respirou fundo como se fossem os perfumes dela.

Esperou para entrar na sala de concertos só depois do toque do terceiro sinal. Imaginou que entrando depois de apagado o grande lustre estaria protegido do impacto da ausência dela pela penumbra. Não funcionou, à medida que descia o corredor para se sentar no mesmo lugar do ano anterior seu coração foi ficando mais e mais agitado. Para piorar seu incômodo notou, de longe, que alguém tinha se sentado no lugar que deveria ficar vazio.

Ao chegar na sua fileira ele viu os tons vermelhos do vestido que dera a ela no Natal. Olhou para o chão, os sapatos eram os que ele comprara.

Romana sorriu para Felipe e mandou-o sentar logo que o concerto iria começar. Como se fosse a primeira vez. De certa forma era.

Sempre seria uma primeira vez. Para sempre.

5 comentários:

Vilma A. de Mello disse...

Fiquei aqui parada feito um tijolo... muito lindo

beijos

Bel disse...

Arrepiada. Me senti a própria.

Rubinho Osório disse...

Sempre a primeira vez... taí uma coisa que exige um esforço quase sobre-humano. Mas, pelo jeito, vale a pena!

clau disse...

Que situaçao genial, Fabio!
Na vida real uma coisa assim faria um super efeito. Emotivo, digo.
E em outra vida daria,até, um bom argumento para um filme.
Incrivel...
Bjs!

Fábio Adiron disse...

Vilma: melhor que parada como uma porta

Bel: bom isso, não é mesmo

Rubinho: sempre vale a pena

Clau: amor com efeitos especiais