terça-feira, 6 de abril de 2010

Lição de amor

André entrou em casa com cara de poucos amigos. A mãe perguntou o que tinha acontecido, ele nem respondeu e foi para o quarto. Coisa de adolescente, pensou a mãe, e foi atrás dele.

O problema era a escola. A professora de português tinha dado um trabalho que ele achava impossível de fazer. A mulher era uma insana e ele já tinha decidido que era melhor tirar zero no trabalho do que tentar fazer.

A mãe foi cutucando com jeito até descobrir o que era. O menino tinha de escrever uma carta que fosse uma declaração de amor. A mãe quase sorriu, mas se controlou. Falou que o ajudaria pesquisando exemplos para que ele tivesse alguma idéia. André concordou, sem muita vontade.

Durante a semana a mãe foi abastecendo o filho com as cartas de amor mais famosas que ela conhecia. Também lhe repassava poemas e trechos de livros. Ele lia sem muita vontade, achava tudo piegas (sim, André não era um adolescente qualquer, seu vocabulário era muito rico).

Depois de alguns dias mostrou à mãe algumas tentativas que nem ele mesmo tinha gostado. Escrevia, mostrava para a mãe e jogava fora em seguida. Um dia antes da data prevista para a entrega do trabalho não tinha nada.

Quando o levou para a escola no dia seguinte perguntou do trabalho, ele disse que tinha feito algo só para tirar nota. Três dias depois a mãe foi chamada na escola. A professora de português queria conversar com ela. Perguntou de onde André tinha copiado o trabalho que fizera. A mãe disse que, até onde sabia, de lugar nenhum, contou o que tinha acontecido.

A professora disse que o que André lhe entregara era bom demais para um garoto da sua idade, mesmo considerando que ele era um ponto fora da curva em português. Ela ia dar nota dez pelo trabalho mas, caso a mãe descobrisse, ela gostaria de saber a fonte do texto, e entregou uma cópia para que ela lesse.

A mãe saiu da escola, parou num café e pegou a carta de André que dizia:

" Enquanto espero a aula começar, aproveito para dizer que o que você fez na minha vida é algo que eu jamais poderia imaginar. Não imaginava porque me achava alguém muito cheio de manias imutáveis.Não imaginava porque muitas dessas mudanças jamais tinham passado pela minha cabeça, sequer como hipótese.

Aí chega você. Linda, inteligente, carinhosa, amorosa, apaixonante, sexy e perfeita e se torna a minha professora, contrariando tudo que eu poderia crer.

Me ensinou o que é amar, o que é sonhar, o que é tornar sonhos em realidade, o que é ser feliz.
Mais que isso, ao seu lado aprendi o que é me apaixonar todos os dias, todas as horas, todos os minutos.

Uma mulher para eu me orgulhar das suas realizações, para eu ficar convencido pelo fato de ser minha todas as manhãs.

Uma mulher que me motiva a retomar muitas coisas que eu amava fazer, que me motiva a fazer coisas que eu não ligava muito para fazer, até a escrever declarações de amor.

A mulher que me fez ignorar qualquer outra pessoa, não por me obrigar a isso, mas porque não sinto mais nenhum tipo de interesse a esse respeito. Quem precisa de qualquer coisa a mais, quando se te tudo numa pessoa só?

E isso acontece em todos os aspectos. Você é a interlocutora intelectual acima de todas as pessoas, é a amiga de todos os momentos, incondicionalmente.

É a mulher que me provoca e me enlouquece. A mulher que está dentro de mim o tempo todo. Não sei e nunca mais vou saber o que significa solidão. Quando está comigo ou não.

Eu te amo, desde sempre, para sempre. Eu te amo com toda a intensidade do meu corpo e da minha alma.

Por isso tudo eu só consigo fazer uma coisa. Te agradecer todo o tempo por existir, te agradecer o tempo todo por, um dia, ter olhado para mim. Te agradecer por me fazer amar.

Eu te amo. Minha mestra, minha felicidade, meu amor, minha vida inteira."

A mãe começou a chorar de tal forma que a garçonete do café veio ver o que se passava e oferecer ajuda. Ela não precisava de ajuda, só queria ler e reler a carta milhões de vezes.

Foi para casa feliz. Ao chegar, beijou e abraçou André sem dizer nada. Quando ele disse que tinha tirado nota máxima no trabalho, ela olhou com cara de surpresa.

E dormiu realizada por ter criado um jovem romântico.

3 comentários:

Vilma Mello disse...

Isso porque ele achava a professora insana...

Raquel disse...

Sofri muito disputando esse tipo de paixão,toda a classe era apaixonada
por ele...Camilo,Camilo,como entender
matemática,afogando-se no verde dos seus olhos.

clau disse...

Hhihi.
Este adolescente bem que poderia ter sido vc mm, Fabio.
Com a diferença de que a sua paixao seria pela lingua portuguesa, pela qual parece ser apaixonado, ainda hoje. rss
Uma coisa nadinha piegas, heim!
Bjs!