terça-feira, 29 de abril de 2008

As bandas dos meus sonhos


Há muito tempo fiz uma brincadeira aqui no Mens Insana sobre quais seriam os livros e discos que eu levaria para uma ilha deserta, seria o meu Paideuma.

Hoje vou fazer outra, também sujeita a críticas afinal as escolhas são subjetivas. De qualquer forma é um exercício para pensar, em última análise, quais seriam as nossas escolhas. Aí vai :

Minha banda de jazz do passado

Piano : Duke Ellington
Baixo : Charles Mingus
Bateria : Gene Krupa
Violão/Guitarra : Django Reinhardt
Sax alto : Charlie Parker
Sax tenor : Joe Coltrane
Sax barítono : Gerry Mulligan
Trompete : Louis Armstrong
Trombone : Jack Teagarden
Clarinete : Benny Goodman
Crooners : Mel Torme e Dinah Washington

Artistas especialmente convidados : Milt Jackson (vibrafone) e Stephanne Grappelli (violino)

Minha banda de jazz do presente

Piano : Brad Mehldau
Baixo : Christian McBride
Bateria : Billy Cobham
Violão/Guitarra : John Pizzarelli
Sax alto : Greg Osby
Sax tenor : Joshua Redman
Sax barítono : James Carter
Trompete : Wynton Marsalis
Trombone : Slide Hampton
Clarinete : Don Byron
Crooners : Michael Feinstein e Madeleine Peyroux


Quem seriam os seus ??

Banqueiros afogados

Numa história que circulou na maioria dos jornais há alguns anos, cinco funcionários da área de investimentos do Barclay’s Bank , em Londres, foram demitidos por terem gasto cerca de US$63.000 ( isso mesmo que você leu, sessenta e três mil dólares – ao câmbio de hoje, cerca de 100 mil reais) em um jantar, no famoso restaurante Pétrus.

Certamente não foi a comida que custou tudo isso, aliás, o restaurante nem quis cobrar os pratos servidos, mas uma coleção de vinhos raros que foram consumidos durante o jantar. O jantar começou com um vinho “menor”, um Montrachet não especificado de 1982 ou 84, continuou com três garrafas do raro e caríssimo Château Pétrus , safras 1945, 46 e 47. Com a sobremesa beberam uma centenária garrafa de Château d'Yquem , provavelmente safra 1900 ou 1901.

Os vinhos realmente eram considerados excepcionais , os anos de 1945-47 são considerados os melhores do Pétrus, o que não os poupou do escândalo de terem pago muito mais do que os vinhos realmente valiam. Segundo publicações especializadas como a Wine Spectator , a garrafa de 1947 pela qual pagaram $17.500 poderia ter sido comprada nos leilões do ano passado por cerca de $2.500. Pela de 1945 pagaram $16.500 , valia $4.600 , a de 46 valia $3.150 mas, no restaurante, custou $13.400. Caso o Yquem fosse de 1900, valeria $1.750, se fosse de 1901 , $1.125, o preço pago foi de $13.100. Nem é o caso de discutir o pobre Montrachet. A margem de lucro do restaurante foi superior a 500 por cento , o que é um abuso mesmo para os padrões dos restaurantes mais chiques do mundo.

Evidentemente existe dinheiro , mas também existe “dinheiro’ – qualquer pessoa ao correr os olhos pela carta de vinhos de um restaurante sabe a diferença. Preços de dois dígitos é o que a maioria de nós aceita (ou pode) pagar por um vinho. Numa ocasião muito especial talvez cheguemos a 3 dígitos, sendo o primeiro bem baixinho. Acima de 4 dígitos, nem pensar.

A margem de lucro dos restaurantes com vinhos geralmente é de 100%. Alguns um pouco mais, outros raros um pouco menos. Os custos de estoque e de manutenção ( que os restaurantes sérios certamente tem) justifica uma parte dessa margem, principalmente nos vinhos mais caros e de menor saída. Os restaurantes que praticam preços mais baixos normalmente tem acordos de consignação com algum importador (em troca de divulgar o seu nome) e, não tendo o custo de estoque podem vender mais barato.

Quem gosta de beber vinhos em restaurantes e está disposto a bancar essa diferença pelo serviço e pelo conforto deve pelo menos ter uma noção geral dos preços praticados pelos importadores ou pelo varejo para não correr o mesmo risco dos banqueiros ingleses e mais do que pagar um belo mico, ter uma redução significativa na sua conta bancária. Quando quiser beber um vinho de 3 ou 4 dígitos é mais saudável procurar diretamente o importador onde a mesma garrafa vai custar pelo menos a metade do preço.

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Contículo siléptico


Numa tarde de sexta feira, o assessor entra na sala do edil, que olha pela janela como se para o nada :

- Vossa Excelência está preocupado...
- Mas você, João, é mesmo um lesma. Esta gente está furiosa e com medo; por conseqüência, capazes de tudo
- O doutor parece fatigado. Os brasileiros somos pacíficos, além do que, caça às bruxas não é permitido em nossa metrópole.
- Você bem sabe que está uma pessoa servindo missa, meia hora o cansa.
- Mas não estaremos aberto nesse feriado
- Todos os políticos somos responsáveis...
- Grande parte, porém, dos membros daquela assembléia estavam longe destas idéias
- Moramos na agitada São Paulo. Povoaram os degraus gente de toda sorte.
- Essas não esquecem. Seus asseclas estamos esperançosos.
- Sei disso. Uns esperando andais noturnas horas, outros subis telhados e paredes.
- Os dois íamos andando distraídos...
- Mas não eram seis ?
- Os quatro que escapamos nos lançamos ao mar.
- Você não diz coisa com coisa. Todos os políticos da nossa coligação padecemos de traições e fealdades.
- Todos deveis saber que as leis o proibem
- O que me parece inexplicável é que os paulistanos persistamos em engolir os sapos do nosso comandante.
- Agora uma multidão gritavam diante do ídolo oposicionista.
- Antes sejamos breve que prolixo : estamos perdidos.
- A maior parte votaram pela cassação.
- Nada mais resta a fazer...
- Tocar um tango argentino ou um pneumotórax ?
- Seremos professor de português em honra aos Lusíadas que glorificou a literatura lusófona.


*silepse: consiste na concordância não com o que vem expresso, mas com o que se subentende, com o que está implícito

domingo, 27 de abril de 2008

A voz de veludo




Mas o piso sempre estava debaixo dos meus pés...

sábado, 26 de abril de 2008

Cena de cinema


Luzes apagadas
Começa a sessão
Máquina ligada
Hora de emoção

Mente desligada
Numa concessão
Idéia afagada
Sem opinião

Palavra falada
Supre o coração
A face fechada
Introspecção.

Você um minuto
Me amou, sem tenção.

sexta-feira, 25 de abril de 2008

O prazer de engolir sapos

Sapo é um nome genérico dado aos anfíbios anuros, também chamados de vagarosos (Salientia). Mas nem tudo a que chamamos de sapo realmente é um. O sapo é uma das três espécies mais comuns desses bichinhos, costuma ter a pele rugosa, glândulas com veneno atrás dos olhos e seus dedos são separados. Definitivamente eu não recomendo a ninguém engolir sapos. Real ou metafóricamente, ambos são venenosos e, no mínimo, causam uma boa dor de barriga. Algumas espécies produzem venenos que podem levar à morte, caso ingeridos.

A respeito das simpáticas pererecas também nunca soube que fossem comestíveis. Essas tem a pele lisa, são de tamanho menor e tem os dedos terminados em ventosas para prender-se em superfícies verticais. Se você vir um sapo pendurado no tronco de uma árvore, não é sapo, é perereca.

Já as rãs que, diferentemente da crença popular, não são as mulheres dos sapos (e nem as pererecas são as filhas dos sapos com as rãs...), não só são comestíveis como podem gerar pratos deliciosos. A rã tem a pele lisa, mas os dedos são ligados por uma membrana, como se fossem nadadeiras. Algumas espécies como as rãs-touro podem ser muito grandes, algumas chegam a pesar até meio quilo.

Rã tem gosto de rã, já vou avisando para aqueles que gostam de perguntam : mas tem gosto de que ? Apesar da aparência lembrar um mini-frango, seja pela forma, seja pela coloração, não é verdade dizer que o bicho tem gosto de frango. Mas posso afirmar que são bastante saborosos. Não é um produto fácil de se encontrar. No mercado onde faço minhas compras elas são achadas na banca de peixes. O que se vende e se come são as pernas, o que já produziu uma enormidade de piadinhas que eu vou poupar meus leitores de ouvir novamente.

A última vez que fiz pernas de rã aqui em casa contei com a interessada participação das crianças. Tanto na elaboração do prato como no consumo do mesmo. Não só acharam divertida essa história de comer "sapo", como gostaram e repetiram. O preparo pode ser muito fácil. Claro, existem também receitas complexas, mas deixo aqui uma rã básica :

Numa panela grande coloque 4 colheres de sopa de azeite. Pique quatro dentes de alho e frite-os. Quando o alho estiver ficando moreno, coloque as pernas de rã, 16 coxas são cerca de meio quilo de carne, o que foi suficiente para nós três.

Quando a rã estiver corada acrescente ervas verdes picadas. Salsinha, cebolinha, orégano e tomilho - de preferência frescos. Cozinhe um pouco mais em fogo baixo e tempere com sal e pimenta do reino a gosto.

Sirva com um arroz branco, de preferência feito com azeite ( o mesmo da rã...) no lugar de óleo comum. Um vinho branco seco ou um tinto jovem são a melhor combinação.

Importante : não exagere no alho e nos temperos verdes para disfarçar a rã. Se você gosta de alho e óleo mas tem pavor de experimentar um prato novo, faça uma pasta de alho, óleo e ervas e coma com torradas - é mais barato e mais honesto.

quinta-feira, 24 de abril de 2008

Ando me sentindo um ESC


Depois de tanto texto nos últimos dias, hoje deixo uma mensagem visual.

Descrição para os meus amigos cegos que usam leitores de tela : a imagem mostra uma tecla CTRL com chapéu de polícia e cassetete na mão perseguindo a tecla ESC

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Novos conticulóides fobofóbicos


Tafofobia

Não tinha mais esperanças de arranjar emprego. Em todos os anteriores criara problemas e, de muitos, foi despedido por justa causa. Para agravar a situação,mal sabia ler e escrever. Um vereador amigo de um amigo de um parente lhe arranjou uma vaga de coveiro. Conseguiu se manter, até o dia que, ao jogar a última pá de terra, viu algo se movendo (era apenas um rato desaninhado). Só foi controlado com camisa-de-força e tranquilizantes.

Quimofobia

Janaína fez o caminho inverso de seus pais e voltou para o sertão do Piauí. A vida era difícil mas ela se sentia protegida e sossegada. Aprendeu a fazer bilro e conseguia ganhar o suficiente para a sobrevivência e juntou um dinheirinho para comprar uma garrucha. Nenhuma asa-branca sobreviveu à sua pontaria certeira.

Potamofobia

Marcão foi convidado por amigos para viajar do Espírito Santo até São Paulo. Pela primeira vez iria sair do seu estado e estava excitadíssimo com a perspectiva de conhecer novas terras. Comprou um mapa rodoviário só pelo prazer de estudar o roteiro : Rio das Ostras, Rio Bonito, Rio de Janeiro, Rio das Flores, Três Rios, Rio Claro e ainda as Cachoeiras do Macacu. Preferiu ficar no seu estado que só tinha Pinheiros e Montanha.

Mirmecofobia

Cátia nunca gostou de insetos. Quando ainda pequena, picada por um zangão, teve um alergia fortíssima e passou quase uma semana no hospital. Desde então começou a usar repelentes diariamente. Aos 30 anos teve os primeiros sintomas de cirrose hepática, justa ela que não bebia nem o vinho da ceia. Os médicos não conseguiam descobrir a origem do seu mal e, em pouco tempo, acabou morrendo. Os parentes atenderam seu último pedido. Foi cremada, as cinzas diluídas e derramadas no formigueiro que ficava nos fundos do quintal.

Oclofobia

Nasceu numa família de classe média, mas os pais sempre economizaram para que ele fosse educado nas escolas da aristocracia. A faculdade foi fazer no exterior. Na volta passou no concurso para diplomata. Carismático sempre convenceu seus superiores a enviá-lo para missões tranqüilas em países de baixíssima densidade demográfica, onde fez toda a sua carreira. Apesar das posses sempre se recusou a ter empregados, o que provocou seu dois divórcios e a incompreensão dos filhos. Morreu sozinho e feliz.

terça-feira, 22 de abril de 2008

Combatendo os cifozoários urticantes


O mundo está cheio de gente esquisita. Eu dentre elas - reconheço meu lado ogro. Quem acompanha esse blog sabe bem o que é isso. Nessas últimas semanas, porém, tive uma sobrecarga de seres esdrúxulos no meu caminho.

Estranhamente, apesar deles pertencerem a contextos diferentes da minha vida, todos agiram como cifozoários urticantes.

Me explico melhor.

Cada um na sua área de atuação, agiu como se fosse um celenterado. Não sei se apenas metafóricamente ou porque estavam com seus estômagos ocos. A fome pode ser um detonador de reações intempestivas. Mas não eram celenterados quaisquer. Definitivamente eram cifozoários

Esses são, provavelmente, algumas das criaturas mais estranhas e misteriosas que você poderá encontrar. Com seu corpo gelatinoso, seus tentáculos bamboleantes, seus movimentos subreptícios eles se parecem mais com um filme de terror do que com um ser de verdade. Para agravar a situação, são seres venenosos

O corpo dessas criaturas são cobertos por células chamadas cnidoblastos - filamentos urticantes. Quando uma dessas pessoas encontra outra com a qual proventura discorde, uma estrutura de disparo expele o veneno. O veneno é uma neurotoxina desenvolvida para paralisar suas presas. Os tipos de toxinas variam : podem ser ameaças, ofensas e, caso o ataque seja presencial pode até incluir agressões.

Felizmente sua fisgada não é fatal aos humanos esclarecidos. Ela costuma provocar dor, irritações, febre de raiva e cãibras nos músculos da face de tamanho desgosto. O grau de dor e a reação a uma fisgada pode depender da espécie do mesmo. Os celenterados maiores têm cnidoblastos grandes que podem penetrar mais fundo na pele e alguns deles possuem um veneno mais forte do que outros.

Aproveito para deixar aqui minha dicas, caso você seja atacado por algum desses tipo perigosos :
Vinagre é o melhor antídoto para o veneno. Seja amargo e muito ácido. Nunca utilize água fresca ou alcóol, o cifozoário vai se achar o bom, ainda que bêbado. Não permita que ele continue esfregando a área atingida. Esse tipo de celenterado adora espezinhar, revide com anestésico, é preciso deixar o bicho sem ação.

Não ausência desses, areia fina pode aliviar, especialmente se atirada nos olhos do seu êmulo.

segunda-feira, 21 de abril de 2008

Canto genetlíaco

Você sabia que Hitler e Miró faziam aniversário no mesmo dia ? Miró era seis anos mais velho e ambos teriam comemorado seu genetlíaco ontem.

Hoje seria o aniversário de Anthony Quinn, de Mário Covas e é o da Rainha Elizabeth II.

Mas também é o dia em que morreram, além de Tiradentes, é claro, Telê Santana, Maurício Tapajós e o famoso Barão Vermelho, ele mesmo : o Ás Voador que persegue o Snoopy - Manfred Albrecht Freiherr von Richthoffen, abatido por um aviador canadense quando perseguia o Sopwith Camel de Wilfred May.

Descobri tudo isso hoje através de uma mensagem que o Deumas me mandou para eu saber quem nasceu e morreu no dia do meu aniversário. O site que tem o nome horrível de Projeto VIP. Eu acho esse conceito de vip uma pulha de mau gosto executada por alguém que surtou de arrogãncia.

Quer descobrir quem são seus co-aniversariantes ? É só ir até lá.

Entre os meus companheiros de velinhas estavam Álvares de Azevedo e Caio Fernando de Abreu - que talvez expliquem meu gosto pela letras; Vicente Celestino, Berry White e Geraldo Vandré - que talvez expliquem meu gosto pela música; Maurice Chevalier - que talvez explique meu gosto pelos musicais de cinema; Juscelino Kubitschek - que talvez explique meu gosto por pão de queijo e Malu Mader - que dispensa quaisquer outras explicações.

Não sei se tem algum significado intrínseco, mas JK nasceu no mesmo dia que eu e morreu no dia do aniversário da minha mulher.

Existem outros, com os quais não vi nenhuma ligação ou não faço a menor idéia de quem são. Sem recorrer ao São Google, você tem idéia de quem é Amy Yasbek ou Linda Gray ?

Do outro lado da vida, algumas mortes que eu lamentei quando ocorreram, como as de Johnny Cash e Anthony Perkins.

Umas que eu nem percebi pois aconteceram antes da minha existência : Zé Lins do Rego e Dom Afonso VI - o vitorioso.

E uma de alguém que não me deixou nenhuma saudade : Ernesto Geisel.

domingo, 20 de abril de 2008

Para cada um que você leva



Uma trilha de cinzas queimando sob os seus pés

sábado, 19 de abril de 2008

Coisas de crianças


Para o Zé Moacir que, como Lucas, muitas vezes é um médico de homens e de almas

- Seu sacripanta boquirroto !

- Boquirroto é vossa mercê, vá se anastomasar em paradigmas !

O pai, que estava passando no corredor, voltou uns passos e chegou mais perto da porta do quarto dos meninos

- Você deveria ir para um nosocômio de ceroulas...

- Mequetrefe de uma figa, quem sói visitar o físico é vossa senhoria

- Está se achando o alcaide da freguesia, passar-lhe-ei uma carraspana

Não resistiu e olhou pelo vão da porta entreaberta. Só conseguiu ver Pedro sentado na cama com um imenso volume preto nas mãos.

- Essa sua grandiloquência para elocubrar cevatícios me regatam

- Deixe de paraninfar, contumacíssimo embarbascador

O pai parou a mãe que estava passando. Com as mãos perguntou o que era aquilo. Ela balançou a cabeça sinalizando não saber.

- Seu parantropo, vagas em meio ao parantisselênio

- Outrossim deverias tu chafurdar suas deutorologias orofílicas em odes saturnídeas

Ouviu-se um som de livro fechando com raiva.

- Tá bom..tá bom...tá bom...hoje você ganhou, mas amanhã eu fico com o Aurélio e você com o Houaiss

O pai abriu a porta e perguntou o que exatamente era aquilo.

- Nada não pai. Todo dia a gente faz um concurso de palavrão e quem consegue dizer a frase mais longa com mais palavrões ganha...

A partir daquela dia, todas as noites ele passou a ler algumas páginas do dicionário antes de dormir. Um dia poderia precisar se defender.

Observação a respeito da imagem, citando o ZéMoa : o que difere é que no fim das brigas Asterixianas é que nessas todos continuam firmes na união dos ideais e na da vida real...

sexta-feira, 18 de abril de 2008

Constatações transitórias


Conclusões aleatórias coletadas na minha experiência empírica no trânsito de São Paulo

Se você ouvir um carro cantando pneu atrás de você, te ultrapassar a 100 por hora para parar no farol (em São Paulo, semáforo é farol) 50 metros adiante, pode saber que é um mauricinho dirigindo uma imensa pick-up. Geralmente, quanto maior a pick-up, menor o mauricinho.
Se, ao tentar mudar de faixa, o carro que estiver atrás acelerar e não te deixar entrar, é mulher ou motorista de táxi. Se além de te fechar ainda olhar feio, é uma mulher dirigindo um táxi.

Se o carro da sua frente fica no meio de duas faixas e anda a 20 por hora. Bingo ! Está falando no celular. Se você buzinar o motorista leva um susto e breca repentinamente - mantenha a distância.

Se você entrou numa rua e o tráfego flui é porque a CET* ainda não descobriu o fato. Corolário : se você vir funcionários da CET em algum lugar, pode saber que vão fazer mudanças para piorar a circulação de veículos.

Mulher quando sorri para você no trânsito é porque está querendo que você a deixe passar. Quando deixamos passar elas nunca agradecem. Exceção : mulher não dá passagem para mulher, por isso elas nem perdem tempo sorrindo umas para as outras.

Buzinar é um ato tipicamente masculino. Como se barulho fizesse algum veículo se mover.

Homem também adora abrir a tampa do motor do carro. Como se entendesse alguma coisa do que está olhando.

*CET é a companhia de engarrafamento do trânsito cuja missão é complicar cada vez mais o tráfego de forma que pareça que ela é imprescindível. Tenho uma tese de que, se extinta, no dia seguinte a cidade voltaria a andar.

quinta-feira, 17 de abril de 2008

Quebrando os copos

Atenção. Antes de ler esse texto esteja consciente que ele trata de um tema que é tabu e, portanto você corre o risco de se escandalizar. Caso você seja do tipo que se ofende facilmente, recomendo que clique aqui

Eu nunca levei a sério essa história de que um copo pode melhorar ou piorar o gosto de um vinho. Ainda está para nascer alguém que me prove que Sangue de Boi numa taça Riedel é melhor que um Nuits-St-George num cristal Cica.

No entanto, a variedade de copos para vinhos é quase proporcional à variedade de vinhos disponíveis. O que provoca exageros que chegam quase ao limite de existirem copos de acordo com a safra de um mesmo vinho.

Os chamados especialistas vão alegar motivos técnicos, ou melhor, usando o termo certo, organolépticos, para o uso de copos de espessura, altura, largura diferentes de acordo com cada tipo de vinho. Outros defenderão as razões históricas. Mas ainda acredito que o maior motivo para essa variedade de taças seja o de alimentar a indústria de cristais.

Claro que existem alguns materiais que passam gosto para a bebida, especialmente os plásticos vagabundos e o estanho - se bem que esse foram muito usados na idade média, o que contrariaria as tais razões históricas.

Cuidados especiais que devem ser tomados se limitam à higiene dos copos. Lavar com água quente diminui a probabilidade de sobrarem restos de detergente. Enxugar bem evita que fiapos do pano de prato sejam engolidos com aquele bom cabernet. Lavar os copos que ficam muito tempo guardados exclui um possível gosto de pó - não se iluda, gosto de pó não deixa o vinho com um sabor mais envelhecido.

E, claro, o local de guarda dos copos não deve ser ao lado de produtos de aroma intenso que possam se impregnar nas taças. Vinho com cheiro de cândida não é exatamente uma experiência sensorial agradável.

A menos que você seja um sommelier capaz de detectar aromas terciários de margarida-do-campo naquele Pétrus de 1617 basta um tipo de copo para beber vinhos : que seja de vidro transparente (senão como é que você poderá ver a cor do vinho ?) e com haste para que não se segure pelo bojo da taça e esquente o vinho

De resto, use seu dinheiro para comprar melhores vinhos e não melhores copos.

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Seguro abrigo

*para ler ouvindo Harbor lights com Bing Crosby



Navegando os mares desta vida
Combatendo guerras e procelas
Sem força p'rá vencer todas elas
Perdendo o prazer da minha lida.

Se não naufragava minha nau
Em portos de angústias atracava.
Menos vivia, menos amava
Era indiferente o bem do mal.

Soprou então vento bom e amigo
Dirigiu-me ao teu seguro abrigo
Ancorando no mar dos teu olhos.

Outrora sofrido mar de abrolhos
Troquei, enfim, pelos seus encantos,
Que me são belos, suaves e tantos

*a foto é de Rejane Martins

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Nota de pesar



No último dia 30 de março, completou-se um ano desde que o Brasil assinou a Convenção. Doze meses...

No dia 3 de maio de 2008 a Convenção dos Direitos das Pessoas com Deficiência entrará em vigor no mundo e o Brasil perdeu a oportunidade de ficar entre os 20 primeiros países que a ratificaram, porque nosso Congresso sequer indicou os membros da comissão que deve analisar o assunto,o que nos causa grande pesar

Manifeste sua insatisfação assinando a Nota de Pesar pelo descaso dos nossos parlamentares :

http://manifesto.ativo.vilabol.uol.com.br/

Ratificação Já ! Com quórum qualificado !

ADAP - Associação dos Deficientes Auditivos, Pais, Amigos e Usuários de Implante Coclear
Agência Inclusive
Amankay Instituto de Estudos e Pesquisas
APARU - Associação dos Paraplégicos de Uberlândia
CCD - Centro de Convivência da Pessoa com Deficiência de Petrolina
Comud - Conselho Municipal dos Direitos da Pessoa com Deficiência de Petrolina
Construindo o Caminho
CVI Araci Nallin
DF Down
Federação Brasileira das Associações de Síndrome de Down
Fórum Permanente de Educação Inclusiva
Grupo Educação e Autismo
Grupo Rede Inclusiva- Educação Para Todos
Grupo RJ Down
Grupo Síndrome de Down
Grupo Universo Down
Happy Down
Movimento Assino Inclusão
Movimento Nacional de Vida Independente
Projeto Roma Brasil

A Convenção dos Direitos das Pessoas com Deficiência é um marco dos esforços para promover, proteger e garantir o pleno exercício de todos os direitos humanos e liberdades fundamentais das pessoas com deficiência, além de promover o respeito pela sua dignidade inerente.

Conheça mais sobre o movimento pró-Convenção no site Assino Inclusão
IMPORTANTE : a coleta de assinaturas foi encerrada e o movimento bem sucedido, a Convenção já está em processo de votação na Câmara

Nossa (???) língua portuguesa - Arroz com pequi


- Tá boa ?

- Oww, deixa eu te falar, lembra aquele trem que eu te pedi…? Pois bem, eu sei que chega dói, mas será que dava para desligar esse ar condicionado ?

- Nem pensar..

- Eu fico encabulada com esse seu descaso...

- Tem base ? Na Goiânia se a gente não refresca pode madurar e quando é fé o cheiro fica insuportável.

- Mas assim eu num dô conta de continuar no Goiás nas férias. Eu gosto de você demais da conta, mas deixa de ser custoso.

- Anêim ! Vamos fazer o seguinte eu mais você vamos dar uma volta. No queijim tem um pit dog que serve um piqui de sal, bão ??

- Pode ser, mas veja bem onde me leva, aquele dia na calçada tinha mandruvá no meu disco...

- Coró de doce ou de sal ? Deixa de ser barriga verde, ou quá ?

- Não me faz dar rata de novo. Senão te caço e te dou uma voadeira.

- Uai...então vamos de guariroba, bão mesmo ?

Para as outras versões do Nossa (???) língua portuguesa : Carioquês, Gauchês, Mineirês, Baianês e Amazonês

domingo, 13 de abril de 2008

sábado, 12 de abril de 2008

Ut nunc sunt homines

Andrômaco sempre pareceu ser um sujeito comum. Apesar do seu nome. Ele mesmo admitia que seus pais tiveram escolhas esdrúxulas. O nome de uma de suas irmãs era Minâncora, a outra chamava-se Maizena. Claro que foram expostos a todas as piadas e trocadilhos possíveis na infância e juventude. Fora isso, nunca chamou a atenção. Foi um aluno mediano, um jovem sem excessos, um trabalhador dedicado mas sem nenhum brilhantismo.

Quando conheceu Mariana foi paixão à primeira vista de ambos os lados. Nesse momento ele se revelou um amante apaixonado. Depois de algum tempo, também mostrou ser fogoso. Mariana adorava o espírito de aventura do namorado. No começo dentro do carro, depois em lugares inesperados. Quando ela se dava conta não tinha como voltar atrás. Sempre riam das situações e eram felizes.

Alguns poucos anos de namoro e resolveram casar. O evento não poderia ser mais tradicional. Casamento civil. Igreja com tudo que Mariana tinha direito, incluindo Mendelssohn na entrada e Wagner na saída. Festa no buffet até às 4 da manhã, de onde saíram direto para o aeroporto para a lua-de-mel em Fernando de Noronha.

Foi uma semana em que Andrômaco se superou. Nos rochedos. Na praia. No Leão. Nos Golfinhos. No Sancho. Dentro do hotel poucos locais não foram explorados, sempre com o risco de serem flagrados. Quando chegavam ao quarto estavam tão cansados que caíam na cama e dormiam. A única vez dentro do quarto foi uma manhã no chuveiro.

Quando voltaram para a casa a frequência diminuiu, o que era natural. Mas não o estilo. Mariana sempre se surpreendia com as investidas de Andrômaco onde menos esperava. Não que ela não gostasse, mas um dia se tocou que estavam casados há mais de seis meses e nunca tinham feito na cama. Retrocedeu aos tempos de namoro e constatou que nem quando foram a um motel, uma única vez, tinham usado a cama.

Resolveu testar o marido. Na hora de dormir aconchegava-se e tentava provocá-lo. Uma, duas, três vezes sem resultado. Ele dormia ou fingia que estava dormindo. Aquilo começou incomodá-la. Um dia, durante o jantar resolveu confrontá-lo. Ele engasgou com o frango e quase foi parar no hospital, não fosse o tapa que ela deu nas suas costas fazendo voar a farofa. Pediu desculpas e fizeram amor na mesa da copa.

Esperou alguns dias e, sem comida por perto, perguntou de novo. Ele ruborizou a ponto dela achar que ele iria passar mal. Respirou fundo e respondeu : " - eu nunca te contei para não te preocupar, mas eu sou um aparafílico, alguns preferem chamar de infetichista. Enquanto um fetichista clássico se fixa num objeto para sentir prazer, eu sofro de total desprazer em relação à cama..."

Parada estava. Parada ficou. Olhos esbugalhados e completamente muda. Como iria falar para as amigas que era casada com uma apara... o que mesmo ? Ele perguntou se estava tudo bem. Ela só balançou a cabeça e foi para o quarto. Retomaram a falta de rotina alguns dias depois que o estado de choque passou.

Meses depois Mariana arranjou um amante. Aceitou a situação mas condicionou seu relacionamento extra-conjugal à sua necessidade de rotina. Só se encontrariam no apartamento dele e sexo só na cama, sem invenções - dessas ela já tinha bastante em casa.

sexta-feira, 11 de abril de 2008

Traição lírica

Byron era um romântico exagerado. Pensando bem, que romântico não é exagerado.

Traí-lo é apenas mais um dos meus próprios exageros insanos :

Não iremos mais vagar

Não iremos mais vagar
Pelo fim da madrugada
Mas ainda hei de amar
Sob a noite enluarada

Espada além da armadura
A alma além da respiração
Precisa de ar meu coração
E o amor em repouso dura

Inda que a noite seja de amar
Inda que amanheça o nada
Não iremos mais vagar
Sob a noite enluarada


O texto original é :

Go no more a-roving

So we'll go no more a-roving
So late into the night,
Though the heart be still as loving,
And the moon be still as bright.

For the sword outwears its sheath,
And the soul outwears the breast,
And the heart must pause to breathe,
And love itself have rest.

Though the night was made for loving,
And the day returns too soon,
Yet we'll go no more a-roving
By the light of the moon.

Links para as traições antigas

quinta-feira, 10 de abril de 2008

Contículo elíptico. Incluí espasmos zeugmáticos


Céu baixo, ondas mansas, vento leve. Aquela hora, quase deserto restaurante, contava os últimos fregueses. Veio sem pintura, um vestido leve, sandálias coloridas. Eu já tinha visto aquela moça, não sabia onde.

Em redor, tudo parado. Estático. No silêncio da madrugada, nem o piar de um pássaro, nem o farfalhar de uma folha. Na sala, apenas quatro ou cinco solitários : um deles, bom rapaz, o verdureiro, cheio de atenções para com os fregueses. Outra uma professora insatisfeita, como, aliás, todas as suas colegas. João estava com pressa. Preferiu não entrar. Aos poucos, só nós dois. Um em cada canto do salão.

Olhei. As mãos eram pequenas e os dedos delicados. Os cabelos longos pareciam já ter tido tempos melhores. Olhar perdido sabe-se lá onde. Passava a impressão de que eu via coisas belas, emocionantes. Ela, as horríveis e abomináveis.

Levantei. Em direção ao caixa puxei assunto. Perguntei-lhe até quando ficaria. Ele disse que não sabia. Esboçou um sorriso. Só ai me inteirei de que ela havia sofrido e era boa. Por que será que a criatura se imola? pensei. Um ato de protesto, um amor desfeito ? Pareceu-me que, quando jovem, era bonita. Agora, cansada, não brilhava tanto a face.

Sentei-me ao lado. Ela me contou sua história.

"- Não foi agradável. E espero tenha sido a única. Ele era rico, fazia o que quisesse. Trouxe-me para cá. Na minha terra, só havia mato, aqui prédios. Nasci e cresci onde caçam todos os animais que podem. Não gente. Ao redor, bons pastos, boa gente, terra boa para se plantar. Acreditava que se trabalhasse e fosse dedicada, seria feliz."

Mais um gole de cerveja e continuou : " - E agora ? Onde o meu namorado ? Nem posso ir e dizer a ele as minhas penas e pedir, pedir apenas que ele lembre as nossas horas de poesia... Um dia, saímos, primeiro ao cinema, depois, ao baile..."

Parou para enxugar as lágrimas. Pedi café. "- Com ou sem açúcar ?" Ela se recompôs. Continuou : "Eu trabalho com fatos; outros com boatos. Na vida, tanta tormenta e tanto dano. Quanta maldade na terra. Diziam que ele agia qual bandido. Não cri. Antes tivesse.

"Entraram em casa, as armas na mão, os olhos atentos, procurando. Me escondi no quarto, ele também. Arrombaram a porta gritando : ´o prêmio foi conseguido e a prisoneira, solta. Venha conosco´. Ele, com expressão de surpresa relutou, mas cedeu às armas. Não gritei. Temi por sua vida. Saíram todos."

"Tive sorte, ele não, pensei. Até me aproximar da janela do quarto e ver na rua ele rindo junto com os bandidos. No armário as minhas roupas, as dele não. Tudo planejado."

Pagamos as contas. Acompanhei-a até o carro. Não a revi jamais.

quarta-feira, 9 de abril de 2008

Microbiologia do auto conhecimento

Uma vez trabalhei para uma empresa de alimentos que tinha desenvolvido uma tecnologia de embalagem que permitia que ela produzisse conservas que não precisavam ser refrigeradas e, ao mesmo tempo não usava conservantes.

A tal da tecnologia conseguia eliminar até mesmo o temido Clostridium botulinum, produtor de toxinas mortais e o mesmo que algumas senhoras aplicam nas mais diversas partes do corpo para ficarem esticadas (algumas tão esticadas que não conseguem nem fechar a boca).

Mas também fiz umas descobertas a meu respeito e, já que o Lou Mello insiste que as pessoas se revelem em seus blogs, aí vai o meu aprendizado.

Descobri que como os microrganismos psicrófilos (aqueles que têm temperatura de multiplicação entre 0°C e 20°C) eu também só consigo me reproduzir em baixas temperaturas, o que levou meus filhos a serem gerados no outono.

Assim como os mesófilos (aqueles que têm a temperatura ótima de multiplicação entre 25°C e 40°C) eu só gosto de calor mesmo é na praia ou à beira de uma piscina onde, antes de atingir a linha do princípio de cozimento, eu me jogo na água fria.

Termófilo (aqueles que têm temperatura ótima de multiplicação entre 45°C e 65°C) eu só fico quando alguém literalmente ultrapassa todos os limites do bom senso e eu explodo de raiva, o que é extremamente raro, mas não impossível.

Como já está tarde e a temperatura é mesófila, eu vou dar uma passada no chuveiro e dormir.

Já diria Bragvanastky Grachodian , falta de assunto também é cultura.

Lou : não deu para fazer poesia com esses nomes !

terça-feira, 8 de abril de 2008

Ah, Rosa, e o meu projeto de vida?


"Rose is a rose is a rose is a rose." (Gertrude Stein`s Sacred Emily, 1913 )
"A rose by any other name would smell as sweet." (Shakespeare's Romeo and Juliet, 1594)


Em meados dos anos 70, o crítico literário e semiota Umberto Eco publicou um livro de ensaios a respeito das relações entre a arte e a cultura de massa, dividindo as pessoas em duas cosmogonias distintas em relação às suas abordagens sobre a questão.

De um lado os integrados, os otimistas que viam toda forma de cultura de massa como manifestações artísticas válidas, adequadas ao contexto histórico. Esses, segundo Eco, não teorizam a respeito da cultura e, sem esse viés crítico, podem produzir, emitir e consumir suas mensagens irrestritamente

No outro extremo, estão os apocalípticos, isolados nas suas torres de erudição representam a dissenção contra tudo que pode ser compreendido ou absorvido com facilidade. Acreditam numa comunidade de “super-homens” posicionados acima de banalidade média, uma quase não-comunidade, de tão poucos que são. Não tem a intenção de serem consumidos, mas de serem admirados.

Curiosamente, seu livro mais famoso "O Nome da Rosa", escrito num tom apocalítico (dentro do conceito acima, é claro) acabou virando um produto totalmente integrado. Foi um best-seller, filme com Sean Connery e, se distrair, deve ter tido sua linha própria de merchandising.

Diga-se de passagem que eu duvido que mais do que 2% das pessoas que compraram o livro o tenham realmente lido e, dos que leram, quantos se detiveram na discussão se uma rosa é mesmo ou rosa ou apenas um flatus vocis (não confunda flatus com flato, poupe-me dessa) ? A discussão do nominalismo que é a essência do livro, mal é citada no filme, o que fez com que o nome do filme ficasse incompreensível...

O que é essencial, parece ser o nome da rosa como nome, se em si um conceito, portanto um universal, eterno, imutável, imortal ou de sua contraposição à rosa particular, individual no mundo, flor de existência única na realidade, é passageira, mortal e transitória.

A nota curiosa sobre isso é que, depois do Nome, as pessoas passaram a achar que Eco era um romancista. Lembro de um aniversário em que me deram "Viagem na irrealidade cotidiana" (um livro fabuloso que analisava a simbologia da cultura californiana) só porque estava escrito na capa : "Do mesmo autor de O Nome da Rosa". Como sempre fui um consumidor de Barthes, Sausurre, Eco e Jakobson (até cheguei a ler Pignatari e os irmãos Campos... seres absolutamente apocalípticos), achei ótimo o presente mas, por boa educação, não fiz nenhum comentário mordaz.

Não sei se me classifico como apocalíptico (no sentido econiano, mesmo porque no sentido dado por Hendriksen eu sou mesmo) ou integrado. Se universal ou particular. Quem pode, através de proposições lógicas afirmar se os apocalípticos são universais ou particulares ? E os integrados ?

Pessoalmente não acho que qualquer manifestação seja culturalmente válida. Ao mesmo tempo não detono a cultura popular. Vejo luxo e lixo nas duas facções, o que faz com que não seja levado a sério por nenhuma das duas.

Sigo simplesmente sendo um apocagrado intelíctico.

Ah, antes que me perguntem : eu não li o Pêndulo de Foucault.

segunda-feira, 7 de abril de 2008

Laissez faire


Despi a realeza, corpo e alma,
E regressei à noite antiga e calma
Como a paisagem ao morrer do dia.
(Fernando Pessoa 1913)



Pedro sentou no banco do parque no meio da tarde e começou a pensar na vida. Estava desempregado, sozinho e correndo o risco de ser despejado. Nada disso, porém, o incomodava.

Ele mesmo tinha pedido demissão do seu último trabalho depois de receber vários pedidos de favorecimento na contratação de novos empregados. Era um homem de princípios e, apesar de nunca ter acatado essa demanda, ninguém nunca o ameaçou. Simplesmente cansou.

Também abrira mão na mesma semana de suas duas mulheres, a oficial e a oficiosa. Leopolda era uma pessoa doce, carinhosa e tolerante, sabia do seu romance com Domícia, mas fingia que não era com ela. Nem ela nem o marido da outra se incomodavam muito. Domícia, por sua vez, era muito ciumenta, mas nunca encontrou espaço para manifestar seu excesso de zelo. Todas as vezes que tocava no assunto Pedro deixava entrar por um ouvido e sair pelo outro.

Seu divórcio foi amigável, desistiu voluntariamente de todos os seus bens a favor da mulher e dos filhos. Não levou nem mesmo sua coleção completa dos gibis do Super Homem que deixou para Pedrinho. As jóias a que tinha direito na partilha ficaram para Maria.

Pensou em voltar à casa dos pais. A idéia não prosperou pois não os via desde quando saíra da cidadezinha do interior em direção à capital. Quando soube da morte da mãe, através de um dos irmãos que queria discutir a herança, dirigiu-se imediatamente ao cartório mais próximo e lavrou um documento despojando-se de qualquer interesse.

Olhando os passarinhos do parque concluiu que não sobrara mais nada a que pudesse renunciar, exceto à vida. Como tantas outras coisas, não se sentia no direito de dispor dela, não era proprietário de si mesmo.

Entardecia. Levantou-se, desceu as frias escadarias. Calmamente regressou à sua casa, enquanto as árvores desapareciam na escuridão.

sábado, 5 de abril de 2008

Soneto Lúgubre


Ao estilo de Augusto dos Anjos


Enquanto saboreias teu cigarro
Palavras rescendendo atro sarro
Escarradas de dentro dessa alma
Que nunca desfrutou a vida calma.

Não conviveste com a amenidade
Um lúgubre estio da eternidade
Na morte, musa amiga, decantada,
Repousas, como um colo, da amada.

Deleita-te em brasas infernais
Almas chorando sangue, nada mais
Além do ranger alegre dos dentes

Goza tua solidão vil e eterna
A dor deste teu coração caverna
E o riso das desgraças inclementes.

sexta-feira, 4 de abril de 2008

Aforismos inconsequentes


Para o Guilherme Vanin que costumava dizer : "Não tente ensinar um porco a cantar. Você vai perder seu tempo e aborrecer o porco."


Da autoridade
Você pode não saber quem tem razão, mas precisa saber quem manda.

Da tranquilidade ignorante
Quem mantém a calma quando todo mundo em volta perdeu a cabeça é que, provavelmente, não entendeu a gravidade da situação.

Da mentira necessária
Para muitas pessoas, uma mentira fácil de entender é mais útil que uma verdade complexa e incompreensível.

Do macaco velho
Jamais descubra erros que não sabe corrigir, nem problemas para os quais você não tem a solução.

Do menor esforço
Se você tem um trabalho difícil a executar entregue-o a um preguiçoso - logo ele vai arrumar um meio mais fácil de executá-lo.

Da inevitabilidade
A cada ação corresponde uma crítica arrasadora.

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Unhappy endings


Estou ficando velho. Não, não são só os cabelos brancos que proliferam. São sensações e impressões .

Outro dia fiquei acordado até de madrugada revendo um filme que devo ter visto a primeira vez quando tinha uns 16 anos - The Great Gatsby.

Lembrava vagamente da história, o romance dele com a chatíssima Mia Farrow (chatice que não é limitada a esse filme, mas perpassa toda a sua carreira), as festas no casarão e a morte no final (já não lembrava quem matava e por que) que me lembrou muito a cena inicial de Sunset Boulevard (em péssima tradução "O crepúsculo dos deuses) outro grande filme trágico.

Fiquei incomodado com situações e frases do filme . "Meninas ricas não casam com meninos pobres..." ; " ...por quê você não esperou ...? " ; ou quando ela diz ao primo " se você não tem dinheiro para casar com ela, tenha um caso.." Eu sei que você vai dizer que a vida é assim mesmo mas, se eu achasse a realidade satisfatória não escreveria insanidades.

Ele apaixonado, ela oportunista. Ele esperançoso, ela inconseqüente (não só em relação ao romance como em relação à vida). Nunca se sabe qual foi a forma, provavelmente ilegal, que ele usou para enriquecer. Os fins não justificam os meios, mas o objetivo romântico dele era mais forte.

Tão forte que não percebeu que ela nunca voltaria para ele. É perceptível que ela não vai voltar. Tanto durante o romance de verão quanto na crise dela com o marido no final do filme.

Mas ele não perdeu a esperança de que ela iria voltar. Ele não queria que o verão acabasse, mas concordava que existiriam outros verões pela frente (que acabaram não acontecendo).

Nada como uma história de amor sem happy ending para encerrar o dia

quarta-feira, 2 de abril de 2008

A inesquecível antologia de Março


Como acontece todos os meses, eu coleciono os melhores comentários dos meus leitores e os apresento totalmente fora de contexto...e deixo cada um criar a sua própria vida na imaginação de vocês. Aí vão eles, divirtam-se

Viu? não sou só eu que quero !!!!!

mas é que eu tenho de manter a minha fama de mau...

...chocaria mais os imoralistas, creio, se é que eles existem.

condená-las ao afogamento compulsário me parece bastante cruel.

Sou a favor de tudo que vc é contra e contra tudo que você é a favor, o inverso também é verdadeiro.

...eles são importados de Moçambique a troco de pó de café.

dá até certo com zilões de litros d'agua pra engolir sapos

Talvez porque eles os alimentem com folhas de seringueiras...

...na semana passada vomitei um reservado chileno.

Eu já tinha percebido isso em mim também, mas achei melhor esperar alguém tocar no assunto

Que geringonça é essa?

...minha mãe vai odiar a resposta da próxima vez que citar a célebre frase...

Temos bolinho de bacalhão.

Motel é motel. Restaurante é restaurante.

eu me julgava uma borracha...

Eu só não esperava esses olhos verdes.

Na próxima não troque linguiça por salsicha.

fiquei ate com dó do meu bacalhau...

...deve existir alguma lei que proiba uma coisa dessas !!!!

Na próxima, envie-lhe cravos de defuntos,que você economiza no cartão.

afetar seu grau de insanidade? pra mais , né?

terça-feira, 1 de abril de 2008

Comprando vinhos sem medo

Comprar vinhos não é uma tarefa fácil para os iniciantes, pior, não é possível estabeceler nenhum tipo de regra que garanta um mínimo de qualidade. É um conhecimento que só se adquire com experiência tanto em relação à qualidade quanto em relação aos preços que costumam ter variações absurdas de um comerciante para outro. Aprender a comprar bem exige um gasto significativo de gasolina ou de sola de sapato.

As casas especializadas em vinhos são, normalmente, opções mais cômodas. Costumam ter uma variedade considerável de rótulos, especialmente entre os importados. Também têm a vantagem de tratar melhor a bebida que outros estabelecimentos, mas, infelizmente, as condições de armazenagem e transporte dentro do Brasil ainda são precárias. Muitas vezes a loja tem uma adega muito bem cuidada para receber vinhos que se deterioram durante a viagem.

Algumas poucas importadoras pagam pelo transporte em contêineres climatizados o que garante a qualidade, mas se reflete no preço. Alguns bons negócios, às vezes, estão escondidos em pequenas lojas, bares e, ultimamente, em alguns supermercados que têm investido nesse tipo de produto e em funcionários especializados para lidar com eles.

Nos restaurantes, a situação ainda é mais complexa. Exceto nos mais sofisticados, os vinhos costumam ser maltratados, as cartas são feitas com desleixo e o seu consumo não é incentivado.

Você pode achar até pitorescas aquelas cantinas italianas com garrafas de vinho penduradas pelo teto, mas eu não recomendaria nenhum deles para acompanhar a sua refeição. Dificimente os garçons estão preparados para oferecer ou recomendar vinhos, a menos que algum produtor ou importador esteja fazendo uma promoção no estabelecimento, quando qualquer prato combina com o vinho que está na oferta.

O pior de tudo está na coluna de preços da carta de vinhos, geralmente duas ou três vezes mais caro do que o vinho é encontrado no varejo, fato que de forma alguma se justifica. Os restaurantes que cobram preços honestos costumam vender bem mais.

Tanto no comércio como nos restaurantes alguns cuidados básicos podem ser tomados. Eles garantem que o vinho não está estragado, mas não garantem que sejam bons.

Verifique se a cápsula que protege a rolha está em bom estado, se estiver rasgada ou furada pode ser um sinal de que o ar encontrou o seu caminho para oxidar a bebida. Se estiver estufada, passe longe da garrafa, a rolha está defeituosa e o vinho já está produzindo gases que estão procurando se libertar.

Outro sinal de defeito na rolha pode ser notado se o espaço entre a rolha e o líquido for muito grande. Ou a rolha está vazando (e por onde sai vinho entra ar) ou, de tão velho, boa parte do álcool já se evaporou. Num restaurante, nunca aceite um vinho que já venha aberto, o garçom deve mostrar a garrafa intacta e abri-la na sua presença.

Um pouco de atenção com a cor do vinho também pode evitar aborrecimentos desnecessários. Olhe pelo gargalo , contra a luz. Os vinhos tintos costumam resistir melhor aos maus tratos. Se a cor estiver alaranjada e o vinho for um vinho de guarda (encorpado feito para envelhecer bem), isso pode ser um bom sinal.

Se o vinho é para ser bebido jovem, a cor laranja indica que ele já passou do ponto. Nos brancos, que normalmente não envelhecem bem, a cor pode ser um sintoma indicativo de deterioração. A cor amarela escura indica que o processo de oxidação já começou (essa regra não é válida para os vinhos de sobremesa que costumam ter uma cor amarelo-alaranjada). O amarelo escuro, que algumas pessoas chamam de âmbar, indica que você não deve nem perder tempo abrindo a garrafa.

Em caso de dúvida, quando comprar no varejo, experimente adquirir só uma garrafa e testar. Se for bom, volte e complete a compra.

Num restaurante, não se sinta constrangido em devolver um vinho se ele estiver com as suas propriedades alteradas, é para isso mesmo que se experimenta antes de aceitá-lo, só tenha a educação e o cuidado de não usar a prova do vinho como exercício de degustação.