quinta-feira, 30 de abril de 2009

De A a Z

Amanda bateu cabeça, desde então fazia garatuja, hieróglifos incompreensíveis. Jamais leu, mas não os provocava quando, repentinamente sentiu todo universo vir xingar zombarias.

Ainda bem, Carlos disse, e foi grampear hemerotecas. Indicava jornais, livros. Mais ninguém observava perigos que rondavam suas teses usando velhos xamãs zíngaros

Aquela banal consideração deveria estar finalizada. Grupos históricos iniciaram justas lamúrias mas, naquela ocasião patética quase recusaram suas teses ululantes xumbergando zeugmas

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Doces momentos

Conforme prometido no texto anterior, aqui vão as receitas das sobremesas do nosso jantar primata. Todas elas feitas pela prima Virgínia.

Os nomes seguem a mesma lógica dos anteriores

Lasciate ogni speranza ou a Divina Comédia
Pavê em Três Camadas



Bater no liquidificador 4 gemas, 2 latas de leite condensado, 2 latas de leite comum e uma colher de sopa rasa de Maizena. Levar ao fogo até engrossar. Reserve.

Misturar um copo de leite, 6 colheres de sopa de Nescau e uma colher de chá de Maizena. Levar ao fogo até engrossar.

Bater 4 claras em neve e misturar 6 colheres de sopa de açúcar. Acrescentar uma lata de creme de leite sem o soro.

Colocar num pirex grande a mistura das gemas. Acrescentar uma camada de bolachas tipo Maizena e ameixas secas sem caroço picadas. Cobrir com a mistura de chocolate espalhando uniformemente. Por último acrescentar a mistura das claras. Enfeitar com cerejas.

Levar ao freezer ou congelador. Retirar meia hora antes de servir.

Portakal coloidificado
Mousse de Laranja


Bater 2 xícaras de creme de leite fresco até engrossar e obter picos firmes. Juntar uma xícara de suco de laranja. Reservar.

Colocar 1/3 xícara de água numa tigela e polvilhar com um envelope de gelatina sem sabor.Mexer e deixar hidratar por 5 minutos. Levar ao fogo em banho-maria até dissolver.

Juntar 1/3 xícara de açúcar e a gelatina ao creme de leite. Misturar delicadamente e colocar numa forma untada com óleo.Levar à geladeira por pelo menos 4 horas. Delicadamente solte as bordas do doce e desenforme-o para servir.

Faça a calda: numa panela pequena cozinhe em fogo baixo 1 ½ xícara de suco de laranja e 1 ½ colher de sopa de açúcar até reduzir e engrossar. Deixar esfriar um pouco e cobrir a mousse.
Enfeite com lascas de laranja desidratada

Soro sólido e vitis enrugada em pasta desdobrada
Crostata de Ricota e Uva Passa

Prepare a massa: Em uma tigela, junte 300 gr de farinha de trigo, 150 gr de manteiga em temperatura ambiente, uma pitada de sal e 100 ml de água gelada. Misturar com uma colher de pau até incorporar bem os ingredientes. Transfira para uma superfície lisa e amasse até obter uma massa homogênea. Embrulhe em filme plástico e leve à geladeira por 30 minutos.

Prepare o recheio: Deixe 100 gr de uva passa branca de molho em 2 colheres de sopa de licor de laranja. Em uma tigela misture 500 gr de ricota com 120 gr de açúcar, 2 ovos e a casca ralada de um limão. Reserve.

Abra a massa na espessura de 0,5 cm e forre com ela uma forma redonda de 28 cm de diâmetro com fundo removível. Recorte a massa excedente e reserve. Cubra a massa com a uva passa. Por cima, espalhe a ricota. Abra a massa restante e corte-a em tiras. Decore a crostata com elas formando losangos. Leve ao forno moderado (180ºC) . Deixe amornar e desenforme. Espere esfriar completamente, polvilhe com açúcar de confeiteiro e sirva.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Foi bonita a festa pá.

A data já estava sendo negociada há tempos e acabou sendo um dia cheio de questões simbólicas: o trigésimo quinto aniversário da revolução dos cravos. Não tivemos cravos, mas um lindo vaso de gérberas enfeitava a mesa.

A proposta era a de um jantar a 4 mãos, as minhas duas e as duas da minha prima Virgínia. Ela cozinha muito bem salgados (já tive a felicidade de experimentar) mas, como eu não tenho o menor pendor para os doces, eu fiquei encarregado da entrada e do prato principal, ela das sobremesas.


Chef e Chefa

Combinamos o cardápio, que depois recebeu nomes extravagantes inspirados pelo aperitivo de porco espinho. Quem come porco espinho come qualquer coisa...


Porco espinho

Já que você leu até aqui toda essa enrolação, aqui vão os pratos (depois eu peço as receitas dos doces para a Virgínia e também publico)

Gadus au façon de Torquemada*


Dessalgue em água gelada 1 kg de bacalhau em postas. Na última água acrescente 1/2 litro de leite.
Escorra e cozinhe o bacalhau em mais 1/2 litro de leite. Espere esfriar e desfie.
Numa panela grande coloque 1 xícara de azeite, alho picado e 1 cebola ralada, quando estiverem corados acrescente o bacalhau e refogue.
Passe o bacalhau num processador para ficar bem fino.
Com o bacalhau de volta à panela, acrescente 2 ou 3 batatas cozidas e espremidas e mexa bem.
Quando a mistura estiver homogênea coloque, aos poucos, creme de leite até a ficar com uma consistência pastosa (ceca de meio litro)
Verifique o sal, tempere com noz moscada moída na hora e deixe na geladeira por duas ou três horas.
Na hora de servir, regue com azeite e polvilhe pimenta rosa em grãos.

*O prato recebeu esse nome porque o coitado do bacalhau passa frio, calor, é despedaçado, triturado, espremido e mexido. Se você preferir um nome mais chique, pode chamar de Brandade de Morue.
Com o prato foi servido um Sangiovese Fontella 2006

Dorso artiodáctilo com magnoliopsida officinalis

Pegue uma lombo de porco de +-1kg, tempere com sal.
Depois pincele a carne com mel.
Faça um caldo de azeite, alho picado, pimenta do reino e ervas de provence e coloque na carne.
No dia seguinte asse por 2 horas coberto com papel alumínio e, depois tire o papel até o lombro ficar moreno.
Pegue o caldo que ficou do assado e cozinhe com folhas de alecrim, quando reduzir acrescente 100g de manteiga e mexa bem.
(o caldo das folhas de alecrim pode ser coado antes de acrescentar a manteiga, para não ficar com excesso de folhas)
Acerte o sal e sirva como molho da carne.

Pastifício cítrico picante


Rale a casca de 3 limões sicilianos e separe o suco dos mesmos.
Numa panela alta coloque 100g de manteiga e as raspas de limão.
Quando a raspa amolecer acrescente o suco dos limões e deixe reduzir.
Acrescente 1/2 litro de creme de leite fresco e mexa até reduzir um pouco.
Coloque uma colher de sobremesa cheia de pimenta do reino verde fresca e apague o fogo.
Coloque o molho em 1kg de macarrão não recheado da sua preferência, eu usei tagliatelle

Com o lombo e o macarrão, foi servido um Perfect Pinot -Lurton - 2006

No fim estávamos todos bem satisfeitos...

domingo, 26 de abril de 2009

Nem o som Romero aprovaria

Juca blesava de dor. Sua odontíase tardia o privava de qualquer oaristo e o fazia perder a tramontana.

O sofrimento ipsolateral deixara-lhe anoético e merencório.

A mulher tantava ripostá-lo e torná-lo álibil oferecendo-lhe arabaiana com filipêndula. Nem isso o tirava da cafuca onde se metera.

Nem seu balame preferido o comovia. Ela apelou para recursos salimânticos, mas as mênades não exauriram tmeses.

A ademonia de Juca beirava a amaurose, que permanecia flexo.

Recorreu à oomancia para evitar o solapamento, sua atitude socancra degringolou para um charivari, entre babuges e aporréias.

Nem a noologia, nem o apodamento lhe foram anéticos.

O sofrimento locular instigou sua mendace e, tufado, adotou a anemoterapia como forma de bastir sua aflição.

Nélson Romero (Rio de Janeiro 1890 - Id. 1963) foi filólogo e professor diplomado pela Universidade Gregoriana de Roma, Itália, em 1913. Fundador da Academia Brasileira de Filologia.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

A sedução de uma gata

Banshee era uma gata mimada. Assim tinha sido criada pelo seu dono e assim se convenceu de que era a rainha da sua vida.

Solitário, ele a adotou de forma impulsiva. Não tinha mais esperança de ter alguma companheira. Ela surgiu, como que do nada, em visitas esporádicas no seu quintal.

Ele começou a tentar atraí-la dando sinais de que sua presença era bem vinda.

Ela demorou um pouco a perceber isso. Nas primeiras vezes que ele se aproximou ela fugiu. Depois começou a observá-lo à distância.

Finalmente ela sentiu que ele gostava dela. De certa forma, ela também gostava daquele jogo de sedução.

Quando ela se instalou de vez em sua vida ele começou a cobrí-la de mimos. Ela retribuia com sua atenção e o seu carinho.

Todas as noites, depois que ele chegava do trabalho, ela se acomodava no seu colo.

Ele descobriu que Mozart agradava a bichana, especialmente os concertos. Bastava ligar o som, e ela entrava pela janela.

Quando ele estava triste, ela rolava no chão pedindo brincadeiras. Quando ela estava triste. ele se fazia de palhaço.

Uma noite ela não apareceu. Ele aumentou o volume do som e passou a noite em claro, ouvindo os 41 concertos. Nada.

Acabou desabando de cansaço no sofá, quando acordou, estava coberto de gérberas.

Banshee, sentada majestosa na pia da cozinha, aguardava ansiosa sua tigela de leite.

Nada que ele dissesse poderia dar a mínima noção do que ele sentia. Mas ela sabia que seu amor lhe bastava.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Tempero diário

Sal, alho e pimenta
Aipo e manjericão

Orégano, poró, cebolinha
Cardamono e salsinha

Alecrim, louro, mostarda,
Gengibre e estragão

Canela, baunilha e anis
Cominho e forte raiz

Endro, noz moscada,
Zimbro e açafrão.

Sálvia, tomilho, cebola,
Segurelha e papoula.

Coentro, cravo, curcuma
Azeite que tudo perfuma.

Tantos aromas, texturas
Universos multicores

Mas só seus ternos sabores
Temperam meu coração

segunda-feira, 20 de abril de 2009

As cores da vida

Teodoro e Mariana estavam casados há quase trinta anos quando ela teve as primeiras suspeitas a respeito da fidelidade do marido.

Não que ele desse sinais muito claros a respeito, mas ela o conhecia o suficiente para saber que alguma coisa andava estranha.

Teodoro sempre trabalhou muito longe de casa, trabalhava como fiscal da prefeitura numa região do outro lado da cidade.

Nem eles nunca quiseram mudar de casa, nem ele nunca quis pedir transferência. Era comum que ele chegasse tarde da noite, o que nunca foi objeto de dúvidas.

O que incomodava Mariana é que, tirando uma vez que o chefe de Teodoro se metera numa falcatrua, ele nunca falara do seu trabalho e, nos últimos tempos dera para comentar a respeito de uma fiscalização que estava fazendo num depósito de materiais de construção.

Não que, por isso ele estivesse chegando mais tarde que o normal mas, porque é que ficava se justificando?

Começou a procurar sinais. Não os achava. Ao invés de marcas de batom, suas camisas apareciam manchadas de tinta. Nenhum cheiro de perfume mas, volta e meia ele chegava cheirando a thinner.

Um dia encontrou algo no carro que, de longe, lhe parecia um fio de cabelo. Não era, era um fiapo de crina de pincel. Questionado, Teodoro respondia que eram coisas da loja que fiscalizava.

A desconfiança de Mariana só aumentava. Resolveu ir atrás dele um dia. Observou-o de longe entrando e saindo de pequenos estabelecimentos comerciais. Em cada um nunca passava mais que uma hora.

Ela já estava concluindo que tudo isso não passava de uma crise passageira de ciúmes quando viu Teodoro entrando numa loja de tintas. Sentou num bar em frente, pediu um café e resolveu esperar, já pensando em como se desculpar com o marido pelo vexame.

Uma hora. Duas horas. Três horas e nada. Quatro. Resolveu entrar.

Perguntou à menina do caixa se sabia onde estava Teodoro. A garota gritou : "- Seu Teodoro! tem uma mulher aqui querendo falar com você..."

Quando Teodoro viu Mariana seu rosto ficou de todas as cores possíveis...

" - Teodoro, o que significa isso? Por quê você não sai dessa loja ? Por que está com essa roupa toda cheia de tintas?"

Quando se recompôs, ele finalmente explicou:

" Mariana, naquela vez que falei do chefe metido numa falcatrua, não era o chefe, era eu. Fui demitido do serviço público há mais de 10 anos. Não quis te contar e, com o dinheiro que tinha ganho, comprei essa loja. É das tintas que nós vivemos."

Mariana não se conteve, e rompeu em lágrimas: "Há muitos anos reclamei com você que nosso casamento tinha virado um foto em sépia e que eu precisava de uma vida mais pigmentada. Você nunca me deu ouvidos. Até que enfim você me dá uma notícia para colorir a minha vida."

domingo, 19 de abril de 2009

Cool, cult e chato


Por aqui eu já coloquei vários dos meus paideumas*, com maior ou menor concordância dos meus leitores.

Hoje me arrisco a fazer o contrário. Digo que me arrisco porque tenho certeza que as chances de ser bombardeado pelos respectivos fãs é imensa. Como eu já passei da idade de falar que gosto só para agradar as pessoas, me dei essa liberdade.

Minha lista é daquelas coisas que são consideradas cool ou que são adoradas como sendo marcos cult. Mas que eu acho um porre de chatas. Aí vai ela

1. Poesia concreta. Sou filho de arquiteto. Para mim concreto serve para fazer edificações ou, no campo das artes, esculturas.

2. Joni Mitchell : apesar de ser um admirador da música folk americana, até hoje não consegui ouvir um disco dela que me agradasse

3. Debussy. Meu professor de desenho geométrico, o saudoso mestre Fausto, o adorava (não tanto quanto idolatrava Chopin), mas volta e meia cantarolava La mér durante a aula. Para mim, momentos de tédio. Preferia as abcissas e coordenadas.

4. José de Alencar. Provavelmente o mais chato escritor da língua portuguesa. Consegui chegar ao fim de dois livros dele (O Guarani e Senhora) só porque era parte dos trabalhos forçados que fui submetido na escola.

5. A insuportável leveza do ser (essa é a tradução correta para "unbearable" e também a que qualifica o livro): um best seller. Fiz três tentativas e nunca consegui passar do primeiro capítulo. Tentei de novo quando o filme passou na televisão. Dormi.

6. Wagner: uma das poucas discordâncias que tinha com o também saudoso Paulo Francis. Para mim, suas óperas são a melhor tradução do que é tortura.

7. Culinária japonesa: como é que algo pode ser chamado de culinária quando o prato mais famoso é comido cru?

8. Arte sacra. Não a considero sacra e, poucas vezes, arte.

9. Terapias alternativas, que eu considero eficientíssimas para curar males alternativos.

10. Nietzsche : o filósofo que 11 em cada 10 pessoas que o seguem, nunca leu nenhum dos seus livros até o fim. Eu li exatamente UM, Assim falou Zaratustra, e mudou a minha vida. Me prometi nunca mais tentar ler outro.

*Segundo Ezra Pound, Paideuma é "a ordenação do conhecimento de modo que o próximo homem (ou geração) possa achar, o mais rapidamente possível, a parte viva dele e gastar um mínimo de tempo com itens obsoletos"

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Amor bem distribuído

Godofredo nunca sentira nenhuma correlação por Fermata. Num primeiro momento ela lhe pareceu apenas uma mulher mediana que andava de acordo com a moda.

Até o dia que começou a sentir variâncias. Testou algumas hipóteses e concluiu que sofrera um desvio padrão nos seus sentimentos. Imaginou ser apenas uma regressão, apenas uma sentimento qualquer fora da curva.

Não era. Fermata era um ocorrência real de personalidade múltipla. Um ponto de inflexão na sua vida quase normal.

Começou a fazer média com ela, com bastante frequência, mas ela não se rendeu às tendências de Godofredo.

Ele passou a fazer amostragens contínuas dos seus dotes. Mas tinham grande dispersão, o que gerava nenhuma significância.

Percebeu que precisava de váriaveis que aumentassem as suas probabilidade, que lhe dessem alguma esperança.

Godofredo pensou em alguma atitudes não paramétricas que fossem mais robustas que suas cantadas aleatórias e não direcionais.

Um dia, totalmente desprovido de inferências, ele ultrapassou todos os seus limites e abordou a região crítica de Fermata

Fermata, que não estimava uma ação assim viesada abriu mão da sua confiança e de suas margens de erro, e se atirou nos braços de Godofredo.

Nunca houve aderência como aquela, tal a homogeneidade dos seus graus de liberdade.

Na primeira contigência, juntaram seus resíduos numa intersecção que jamais prognosticariam.

Geraram uma coleção de dados populacionais indescritíveis.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Conticulóides navegantes

Bússola

Andréa só dava cabeçadas na vida. Não conseguia concluir seus estudos, não parava em nenhum emprego, nem com nenhum namorado. Até o dia que conheceu Mário, um paraense, criador de búfalos. Era o norte que buscava.

Sextante

Hélio amava as estrelas. As chamava pelos nomes e as conhecia em detalhes. Professor de astronomia, um dia recebeu na sua sala uma aluna chamada Cassiopéia. O conhecimento foi maior que o amor. Não toleraria ter um genro chamado Perseu.

Astrolábio

Marina sempre fora tão fascinada por bocas que acabou se tornando dentista. Tantas foram as que viu que deixou de acreditar que houvesse uma que realmente combinasse com a sua. Abandonou a carreira e foi ser pintora. Perfeição mesmo só encontrou nos seus desenhos.

Nônio

Carlos não acreditava no que via. Tinha acabado de dar a tacada perfeita. Mais de 300 metros e a bola foi exatamente em direção do 18o buraco e parou milímetros antes de entrar. Processou o clube, contratou uma perícia e constatou que quatro folhas de grama estavam maiores que o permitido pelo regulamento.

Balestilha

Ricardo se contorcia de dor, enquanto a massagista tentava dar um jeito na inflamação do nervo ciático que o afligia. A cada toque um urro. A cada urro um palavrão. E a certeza de que ele já passara da idade para descobrir os segredos do kama sutra.

terça-feira, 14 de abril de 2009

Lapidação

Tantas faces tem
um lapidado diamante.
Em todas elas, cor, clareza e cortes precisos.
Tantas faces me apresenta,
tantas necessito
Em cada uma delas a jóia e o coração errante

Facetas se espalhando
entre a mesa e o pavilhão
Sobre elas a coroa, na base o pinhão.
Aqueles que questionam sua dureza
Não sabem o ponto de clivagem
da beleza

Um brilhante é limitado
A um número determinado de faces
Você, por outro lado,
é sempre uma surpresa
No meu coração a única certeza

Nascido no fogo
em altíssima pressão
Colhido no remanso de águas cristalinas
Amor que surge em erupção
Alaga a minha alma
Bailarina

domingo, 12 de abril de 2009

Contículo perifrásico, quase antonomásico

"E ao rabi simples, que a igualdade prega,
Rasga e enlameia a túnica inconsútil;
(Raimundo Correia)


Manuel entrou na estrada cedo, ia da terra da garoa para a rainha da Borborema.

O caminho seria longo. Encheu o carro de discos dos quatro rapazes de Liverpool e acelerou.

Apreciava a paisagem de ouro verde banhado pelo astro rei, quando, ao passar pela cidade maravilhosa teve uma visão aterradora.

Um ser descomunal lhe surgiu no caminho, como se fora o rei das selvas diante da presa.

Será a reencarnação do cisne da Mântua ou uma versão fantasmagórica do Dante negro? Nem a dama ou o mestre do suspense ser-lhe-iam capaz de explicar.

Acelerou ainda mais querendo chegar o quanto antes à divisa da terra do poeta dos escravos. Talvez os ares do águia de Haia fizessem desparecer tal visão.

O espectro o perseguia como o corso caçou o povo lusitano, lançando-lhe impropérios da última flor do Lácio.

Manuel não sabia se pedia a proteção aquela que depois de morta foi rainha ou à rainha do pop.

Num gesto de desespero, atirou o carro de um penhasco sobre o o mar, e entregou a alma ao filho de Deus.

Antonomásia ou perífrase: consiste em substituir um nome por uma expressão que o identifique com facilidade:

sábado, 11 de abril de 2009

Era uma vez...

Todos os dias Helena acordava cedo e ia caminhar no parque. Respirava ar puro, encontrava alguns poucos vizinhos madrugadores e uma enorme variedade pássaros que ali viviam.

Foi numa dessas manhãs que viu um filhote caído no meio da pista e parou para ver o que era. Não conseguiu identificá-lo, mas pegou a ave, bastante machucada, e tentou achar o seu ninho, sem sucesso.

Preocupada com o bichinho acabou juntando alguns galhos e folhas num canto de uma árvore e o colocou lá, junto com duas minhocas e um inseto morto.

No dia seguinte passou para ver se ainda estava lá. Não só estava como não havia nenhum vestígio do alimento. Procurou mais minhocas. Passou a fazer isso todos os dias.

Não muito tempo depois a penugem do filhote começou a se transformar em penas. Helena percebeu que era uma coruja. Pensou em levá-la para casa mas suas crenças ecológicas não permitiram. Continuou a cuidar dela ali mesmo no parque.

Um dia, junto com um amigo veterinário, descobriu que não era ela. Era ele, uma coruja macho. Batizou-o de Otto, pois sua cara brava recordava Helena de uma ilustração do imperador germânico num antigo livro de história.

Otto passou a ser sua companhia de caminhadas. Helena se afeiçoou de tal forma à ave que passou a fazer suas caminhadas até nos dias que antes não costumava ir.

Concluiu que não podia mais viver sem ele no dia que foi para o parque debaixo de um temporal.

Os amigos de Helena tinham reações dúbias em relação a isso. Se, de um lado, reconheciam que ela estava muito mais bem humorada e feliz, por outro, se queixavam que ela não os acompanhava mais nos programas, pois sempre tinha de acordar cedo.

Helena temia que um dia ele a abandonasse. Afinal, mais hora menos hora, ele poderia encontrar uma simpática corujinha e alçar vôos em outra direção. Helena chegou mesmo a pensar em procurar uma parceira para seu amigo. Sabia que isso não era muito natural, desistiu.

Um dia Helena não apareceu no parque. Otto passou o dia voando e esperando. Dois dias. Três. No quarto dia ele se aventurou para fora dos muros, pela primeira vez.

Atravessou ruas, pousou em janelas, assustou empregadas que trabalhavam nas suas cozinhas. Até que viu penduradas numa área de serviço, as roupas de Helena. Procurou uma entrada e achou a janela do banheiro aberta.

Dentro da casa silêncio. Até que ouviu uma tosse. Voou em direção ao som e encontrou Helena na cama, ardendo em febre. Pousou na cabeceira da cama e ficou olhando para ela.

Quando o viu, Helena levou um susto. O que Otto fazia ali? Abriu um sorriso e lhe estendeu a mão. Ele agarrou forte seus dedos e bicou a palma de sua mão.

Helena se recuperou rapidamente da pneumonia. Otto se instalou de vez na sua casa. E foram felizes para sempre

sexta-feira, 10 de abril de 2009

A guerra dos tomates

"- É hoje que nós nos vingamos daquele chato", disseram os tomates para as cebolas, "cada vez que ele vem aqui fica passando a mão em todo mundo, aperta cada um de nós e depois nos joga de volta na pilha sem nenhum cuidado."

" - Aqui é a mesma coisa", responderam as aliáceas,"a vantagem é que somos mais duras e aguentamos melhor. Mas, digam, o que é que vocês vão fazer?"

"- Uma surpresa, não podemos contar para ninguém".

"- Ah...deixem de manha, contem. Vão rolar em cima dele quando ele passar?"

"- De jeito nenhum, isso atrapalharia os outros clientes".

"- Já sei", disse um dos bulbos, "vocês vão se estragar no caminho da casa dele..."

"- Que nada, isso apenas o deixaria ainda mais chato..."

Nessa altura do papo, o chato chegou e todos se calaram. Ele manteve o estilo, apalpou, apertou, cheirou...e ia arremessando as fanerógamas de volta na bancada.

Até que viu um tomate perfeito. Grande, homogeneamente vermelho, firme e perfumado. Não teve dúvidas, colocou na sacola, pagou e foi para casa.

Na hora do almoço caprichou no molho, não era todo dia que encontrava um fruto daqueles. Devorou-o de forma edaz.

No meio da tarde começou a diarréia que o manteve no banheiro por 3 dias, ao final dos quais, estava anêmico.

O antibiograma indicou a presença de magnoliófitos vingativus. O médico o proibiu terminantemente de comer tomates para o resto da vida.

No sacolão as solanáceas sorriam.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Seni seviyorum

Minhas traições atravessaram o Bósforo e caminham em direção ao Oriente

Amo em ti
a aventura da nau em direção ao polo
amo em ti
a audácia do jogador das grandes descobertas
amo no que está distante
amo no que é impossível
entro em seus olhos como num bosque
pleno de sol
e suado, esfomeado e furioso
tenho a gana do caçador
por morder a tua carne.

amo em ti o impossível
sem desesperos

Nazım Hikmet Ran (20 de Novembro de 1901 – 3 de Junho 1963) foi um importante poeta e dramaturgo turco, conhecido na Europa como o melhor poeta de vanguarda da Turquia, sendo os seus poemas traduzidos para diversas línguas.

Antes que alguém conclua que eu estou estudando turco, aviso que minha tradução/traição, foi feita a partir da versão italiana do poema, conforme abaixo

Amo in te
1943 - Nazim Hikmet


Amo in te
l'avventura della nave che va verso il polo
amo in te
l'audacia dei giocatori delle grandi scoperte
amo in te le cose lontane
amo in te l'impossibile
entro nei tuoi occhi come in un bosco
pieno di sole
e sudato affamato infuriato
ho la passione del cacciatore
per mordere nella tua carne.
amo in te l'impossibile
ma non la disperazione.

terça-feira, 7 de abril de 2009

Um toque de gengibre

Virginia Katherine McMath não foi uma pessoa particularmente conhecida. A menina, nascida em 1911 no Missouri, ganhou um outro nome 14 anos depois num prosaico concurso de dança no Texas, quando passou a atender pelo nome de Ginger.

Apesar de muitos acharem que o apelido vinha dos seus cabelos quase ruivos, e outro que era compatível com o seu gênio (ardida como gengibre), na verdade ela virou Ginger porque um primo pequeno não conseguia falar Virginia e dizia "Ginja".

Baixinha (reparem nos saltos imensos que usava nos filmes), quase loira, quase ruiva, olhos claros e sempre explosiva. Não era o padrão de beleza de Holywood, mas se transformou num dos seus maiores ícones.

Ela dançou no vaudeville e na Broadway, mas foi com Fred Astaire, a partir de 1933, que formou o casal mágico do cinema em 8 filmes.

A mágica de Astaire e de Rogers não pode ser explicada; pode somente ser sentida, assim como as paixões também não se explicam.

Criaram um estilo, um modo, um acontecimento. Flertaram, perseguiram-se, cortejaram, deslizaram, acariciaram-se, saltaram das mais diversas formas, dobraram-se, balançaram, ondularam, aninharam-se-se, giraram.

Era como se fizessem amor diante dos nossos olhos. Não existiu nada semelhante depois disso, por mais tentativas que ambos tivessem feito com outros parceiros.

Dizem que, na vida real, os dois não se suportavam. Mas, o que me importa? Minha relação com ela era a das telas, onde também dava bastante trabalho para o eterno enamorado. (fora das telas ela deve ter dado bastante trabalho para outros, casou-se 5 vezes).

Morreu num mês de abril. O mais cruel dos meses.

Eu, como tantos outros, continuamos a amá-la. Sempre esperando que ela apareça pequena, loira e fulgurante diante dos nossos olhares de Fred Astaire.

domingo, 5 de abril de 2009

Escreveria Elia

Mesmo em seu êxul Romanov nunca perdeu seu vezo gateador.

Vestia sua gonga e passeava pelas alamedas distribuindo sorites flâmeos, era um fanal emitindo alectorofonemas.

As garotas renitiam ao sicofanta oferecendo negaças à sua lipitude.

Um dia, já tomadote, colimou uma arruadora que descia a covanca.

Por não ser polímata, mal notou que a refece hirudina tinha merocele, além de ser anota.

A beliz notou que era uma opima chance, cobrindo Romanov de aporemas e, numa favila, maniatou-lhe como um lictor.

Desde então ele tornou-se atérmano, tanas e biofóbico.

Sylvio Edmundo Elia, nasceu no Rio de Janeiro (RJ), a 4 de julho de 1913 e faleceu no Rio a 16 de novembro de 1998.Foi ensaísta, filósofo, lingüista, professor universitário e Doutor em Letras. Foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Filologia

sábado, 4 de abril de 2009

A incontornável antologia de Março

Nesse, como em todos os meses, apresento a antologia dos melhores comentários do mês.


Esse blog não seria nada sem os seus leitores e leitoras

...viva a traição....

Uma história singela o conto narra...

Quando é que chega meu diploma de insana honorária?

...seriam ocasionados por um toque de histrionismo ácido ou por qualquer pensamento energúmeno autêntico.

quanto mais "indecente" melhor .

vais dar inveja assim na pqp!!!!

Ou há um colesterol oculto?

Por quê será que você não informou os temperos da rabada?

A maioria crê em interpretação literal.

...prefiro os lânguidos e doces.

E eles não foram felizes para sempre??? :-(

Uma no cravo, outra na ferradura. Seu estilo é bipolar.

Não podia ser só um pé na jaca?

Bjos de pata. :-)

Nem me fale em ano fiscal que ja lembro de polícia federal.

tudo que é epistolar tem um ar idiliaco, utopista...

Taí uma característica que não esperava em diabos.

Que danado é flor de sal????

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Enredondilhado

Redondilha é o nome dado, a partir do século XVI, às estrofes em verso de cinco ou sete sílabas. Aos primeiros dava-se o nome de redondilha menor e, aos segundos, de redondilha maior.

I
Pia, pia, corujinha
Canta a noite do sertão
Mas a chata da vizinha
Prefere a televisão

II
Locupletei-me de beijos
Ela me repreendeu
Palavra tão horrorosa
Esse beijo não foi meu

III
Foi procurar namorada
Orkut, tweeter e messenê
Mas a vida de verdade
Ele mesmo nunca vê

IV
Meu coração é um deserto
Não dá nem mandacaru
Em dia de sol aberto
Transpira feito tatu

V
Numa tarde de outono
Fui contar-lhe minha dor
Deu-me antiinflamatório
e aplicação de calor

VI
Meu amor é coisa urgente
Não aprendeu aguardar
Nasceu sem ser esperado
Nunca mais vai acabar

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Feliz ano novo

Adotando um hábito de empresas americanas, eu resolvi ter o meu próprio ano fiscal que começa hoje.

E, sendo meu ano novo, resolvi fazer as minhas resoluções para o mesmo. A saber:

A partir de hoje não bebo mais caféina, troco o café puro, forte e sem açúcar, por cházinhos descafeinados.

Bebida alcoólica só cachaça, que esse negócio de beber vinho é pura frescura.

Minhas referências culinárias passam a ser o McDonald´s e o Miojo.

Vou abandonar todas as minha leituras poéticas, teológicas, filosóficas e assinar a revista Caras.

Livros, a partir de agora, só se forem de auto-ajuda.

Tornar-me-ei* um misógino, mais que isso, vou me instruir na arte da ginecofobia.

Essa besteira de ser romântico e lírico será trocada por atividades mais sérias. Talvez entre num time de rugby.

Internet, nem pensar. Adotarei uma postura ludita e militarei contra todos os avanços tecnológicos.

E, finalmente, concretizarei os meus planos de me mudar para uma ilha deserta, onde não seja mais obrigado a ver gente.

E não vou desejar feliz ano novo para ninguém, porque isso é papo furado de quem acredita em civilidade.


*Continuo usando mesóclises, quem sabe as abandone no ano que vem.