quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Estamos em férias


O ano de 2008 foi cheio de idéias que se espalharam em todos os meus blogs. Durante 366 dias foram 447 publicações sendo

310 textos aqui no Mens Insana

61 textos no Calvinistas, graças a Deus

39 textos no Inclusão: ampla, geral e irrestrita (além de mais uma coleção de textos escritos por convidados)

37 textos no Espicaçando o Marketing ( além dos textos do Volney e de outros escritos por convidados)

Acredito que você possa aproveitar as minhas férias para colocar suas leituras em dia....risos

Um abraço aos meus leitores e comentaristas. Volto no final de janeiro.

Fábio Adiron

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Nosso cartão de Natal

O povo que andava em trevas viu uma grande luz; e sobre os que habitavam na terra de profunda escuridão resplandeceu a luz. Isaías 9:2

Muita gente confunde reverência com mau humor. Ao invés de demonstrar sua alegria pela vinda do Rei dos Reis e Senhor dos Senhores acabam por transmitir a idéia de que nós, crentes, somos apenas um monte de gente chata e triste.

Graças a Deus, ainda podemos comemorar o Natal de um forma alegre e bem humorada, porque Cristo veio para ser a nossa paz.

Por isso proclamamos a alegria para o mundo, certos de que aquele que tem o governo sobre os seus ombros. E Ele reinará para sempre.

Que essa alegria possa encher o seu coração.

Não deixe de ver (ou ouvir) até o fim.

Feliz Natal

Um lance de dados


Un coup de dés jamais n'abolira le hasard. Stephanne Mallarmé



Mesmo que eu quisesse eu não poderia fazer nada. Apenas olhar atentamente dentro dos seus olhos, às vezes, desviar a atenção do fogo lento que me consumia. Poemas sobre a mesa. Vinho.

Você falando, sem medo, sobre inspiração. Eu revivendo, sem medo, a inspiração. O limite do medo é a coragem absoluta. A vida correndo sobre a margem dos limites.

Chuva de primavera. Gotas de oportunidade, escorriam o desejo sem planos, pintando em telas internas um quadro imprevisto.

Surrealista. Crescimento e despertar do desejo líquido. Límpido. Anseios subconscientes, surrealistas, mais fortes que medos reais. Corações se derramando.

Você falava me olhando. Certeza se derramando em gotas de primavera. O ambiente cobrando de nós uma decisão.

Um lance de dados. Sem chances, ganha-se ou perde-se.

Um lance de dados é apenas outro lance.

Por mais que se possa prever. Mesmo sendo as mesmas mãos. Sejam os mesmos dados
e a mesma superfície onde são jogados.

Jamais.

Um lance de dados , mesmo quando lançados em circunstâncias eternas. Jamais abolirá o acaso.

Por acaso o acaso se completou em nós. Em olhares. Em limites. Em gotas.

Liquidamente surrealista.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

O ingênuo e o cafajeste

Não se sabe se por criação ou por timidez inata Marcelo era um moleque ingênuo. O que não o impedia de ser um romântico fora de época, mesmo na sua época. Como tantos outros, amava os Beatles mais que os Rolling Stones e decorava poemas do Vinicius e do Neruda. Puedo escribir los versos más tristes esta noche, às vezes se pegava falando sozinho no quarto.

Apaixonava-se amiúde. Inevitavelmente era rejeitado. Curtia as suas fossas que duravam o exato tempo de se apaixonar pela próxima. Nada muito diferente de outros adolescentes.

Não que deixasse de participar das atividades dos outros meninos. Jogava bola, pulava muros, participava arduamente das guerras de mamona. E mais de uma vez sua mãe o pegou na praça em frente à escola no meio de uma briga, no melhor estilo "te espero lá fora..." Mas era mais sensível que os demais e, diferentemente dos colegas, tinhas mais amigas que amigos.

No colegial mudou de escola. A distância o afastou de algumas amigas, mas trouxe outras. Assim como novas paixões. Mais que isso, pela primeira vez uma paixão duradoura. Valéria.

Ela também era nova na escola. Seus pais tinham vindo do Chile, ninguém sabe exatamente por que, mas imaginava-se que fugidos do pinochetismo. Era uma menina bonita e, assim como Marcelo, também muito tímida, na percepção dele. Tornaram-se amigos.

Ele escrevia sonetos de pé quebrado e acrósticos piegas para ela, que sorria sem graça quando os recebia. Os pais dela gostavam dele. Aliás foi com o seu pai que ele descobriu Violeta Parra e Gabriela Mistral.

A indecisão de Marcelo o impedia de tomar a iniciativa para efetivamente namorarem. Ele acreditava que Valéria era muito tímida e, por isso, não encontrava o caminho para se declarar de vez.

Um dia, ao chegar na escola, quase caiu de costas. Em sua direção, caminhando na calçada de mãos dadas, vinham Valéria e Silveira. Foi um choque.

O Silveira ? Por que o Silveira ? Justamente aquele cafajeste da turma do fundão ? Um cara grosso, falava palavrões um atrás do outro, fumava escondido no banheiro, bebia cerveja na padaria da esquina e roubava o carro do pai. Um sujeito que já tinha sido suspenso um par de vezes. Como assim o Silveira ?

Vai durar pouco, pensou. Daqui a pouco ela vai descobrir que ele é grosso demais para ela. Enganou-se mais uma vez. No ano seguinte continuavam juntos.

Quando chegou no último ano do colegial Marcelo se conformou. Caiu na real que nem toda menina queria romance e poesia. Foi uma experiência dolorosa, mas muito útil para o seu futuro.

Trinta anos depois encontraram-se numa festa de ex-alunos. Ela continuava bonita e com o jeito falsamente ingênuo. E casada com o Silveira há mais de 20 anos, com quem tivera 3 filhos. O cafajeste tinha virado um senhor respeitável e sério.

Marcelo continuava um romântico incorrigível. Dias depois mandou para ela os poemas que escrevera na escola, não porque se tivesse ainda alguma esperança, mas por puro deleite pessoal.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Desaforismos insanoqüentes

As máscaras, por melhor que estejam fixadas, uma hora caem.

Que tem carpete não consegue esconder o lixo debaixo do tapete.

Muita semântica, pouco significado.

Bater na mesma tecla só serve para machucar os dedos.

Além de egoísmo, querer o melhor de dois mundos me soa meio esquizofrênico.

Uma nova praga assola as ciências e os negócios, atende pelo nome de maisdomesmismo.

Podem reclamar da linguagem chula do presidente. Mas todo mundo que vota e paga imposto sabe o que significa aquele expressão.

No brilho dos olhos se revela toda uma cosmogonia.

Talvez essa seja uma das últimas chances que terei de usar o trema.

domingo, 14 de dezembro de 2008

A morte dos amantes

Tudo bem que o homem não era um exemplo de conduta. O que esperar de alguém que escreve sobre as flores do mal ?

O que não significa que não tenha escrito algumas das mais belas páginas da poesia francesa.

Essa já foi vítima de várias traições (traduções). A minha é apenas mais uma :

Deitaremos em lençois perfumados
No mausoléu profundo de um sofá
No mármore uma flor que já não há
Aberta sob céus embelezados

A fogueira arde quente inda por lá
Nas brasas de corações inflamados
Inúmeros beijos cristalizados
Espelho ardente a iluminará

Aquela tarde mística, envolvente
Acesa num relâmpago fremente
Depois um incontido e breve adeus.

Depois virá um anjo abrir a porta
Reavivando todos sonhos meus
Reacendendo a chama quase morta

Para quem prefere os originais, o texto é :

La Mort des Amants

Nous aurons des lits pleins d'odeurs légères,
Des divans profonds comme des tombeaux,
Et d'étranges fleurs sur des étagères,
Ecloses pour nous sous des cieux plus beaux.

Usant à l'envi leurs chaleurs dernières,
Nos deux coeurs seront deux vastes flambeaux,
Qui réfléchiront leurs doubles lumières
Dans nos deux esprits, ces miroirs jumeaux.

Un soir fait de rose et de bleu mystique,
Nous échangerons un éclair unique,
Comme un long sanglot, tout chargé d'adieux;

Et plus tard un Ange, entr'ouvrant les portes,
Viendra ranimer, fidèle et joyeux,
Les miroirs ternis et les flammes mortes.

— Charles Baudelaire

sábado, 13 de dezembro de 2008

Sexta-feira 13


Tudo bem, eu sei que hoje é sábado e não sexta-feira, mas a data a que me refiro caiu numa sexta-feira e não poderia ser mais sombria que o mito das sextas-feiras 13 de terror.

Há 40 anos, na calada da noite, o presidente Costa e Silva assinou o Ato Institucional nº 5, que deu a ele poderes absolutos e suspendeu garantias constitucionais. O Congresso Nacional foi fechado por que se recusava permitir que o Deputado Márcio Moreira Alves fosse processado.

O marechal Costa e Silva, no rádio do carro que o conduzia do aeroporto ao Palácio Laranjeiras, ouviu, atônito, a notícia da votação na Câmara. No palácio, trancafiou-se em companhia dos generais Garrastazu Médici, chefe do Serviço Nacional de Informações; Orlando Geisel, chefe do Estado-Maior das Forças Armadas; e Lyra Tavares, ministro do Exército. Estava convocada para o dia seguinte importante reunião do Conselho de Segurança Nacional.

Ela marcaria o fim da “crise dos 100 dias” e o início do “ano zero da revolução”.

O que aconteceu dai em diante todos sabemos. Os que não sabem deveriam se informar, para entender o que significa estar debaixo de uma ditadura. Perseguições, mortes, desaparecimentos. Desrespeito aos direitos humanos, tortura, prisões arbitrárias e uma folia de cassações de direitos políticos de todas as pessoas que minimamente se opusessem ao regime.

Até mesmo a mídia conservadora de direita foi objeto de censura.

Somente 10 anos depois que o Ato 5 foi revogado, mas só depois que o governo cassou todas as pessoas que lhe convinham.

Triste é saber que ainda hoje temos pessoas saudosas desse tipo de governo.

Nesse sábado 13, não temos nada a comemorar. Exceto que vivemos em tempos bem melhores que aqueles.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Concorrência desleal


Enquanto eu me esfalfo cotidianamente para escrever, publicar e divulgar os meus textos, meus filhos me passaram a perna e já foram editados. Que geração....

Recebi ontem o meu exemplar do livro "Poetas do Batista" (no caso, o Colégio Batista Brasileiro onde eles estudam) editado pela e-Leva Cultural.

Pior que não é a primeira vez... Quando publiquei um poema dadaísta do Samuel ele bateu todos os recordes de leitura do blog...


O leão
Letícia Ribeiro - 2o ano

Lá na escola eu vi um leão no chão
Seu rosto tinha um bocão
Estava comendo macarrão e feijão com pão
Que era o lanche do João.


O lobo e o filhote de homem
Samuel Adiron Ribeiro - 4o ano

Era uma vez um lobo
Cuidando do seu filhote de homem

Enquanto Mogli viu a pantera
Ele viu o urso, o macaco e o elefante

Ele estava cantando tão forte
Que o chefe disse meia volta volver

Quando ficou muito escuro
Ele viu o tigre, o urubu e a cobra
O mato cresceu ao redor.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Contículo sinestésico

"Os carinhos de Godofredo não tinham mais o gosto dos primeiros tempos." (Autran Dourado)



Raquel mirou-me com o seu olhar frio, desesperador.

Eu senti um áspero sabor de indiferença na sua voz que sempre fora repleta de colorido.

Uma melodia cinzenta tomou conta da sala. Acordes menores de cromatismos e perfumes.

Sua voz, que nos primeiros tempos, era macia, agora soava como um verde azedo. Apenas luz crua da manhã que invadia os meus ouvidos.

O olhar não era mais doce, nem tinha mais o sabor vermelho da fruta.

Senti saudades amargas de indefiníveis músicas, supremas harmonias de cores e odores. Do tempo em que o seu cheiro verde combinava com a sua beleza áspera. Tempo do delicioso aroma do amor.

O perfume agora tinha um cheiro doce, mas sua voz áspera era intimidadora.

Olores gritantes, nem de longe lembravam o brilho macio dos seus cetins, nem seu doce afago maternal.

Chegaram as horas do ocaso, trêmulas, extremas, como o réquiem do sol que a dor da luz resume.

Sinestesia: trata-se de mesclar, numa expressão, sensações percebidas por diferentes órgãos do sentido.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Tia Jovita

Não tem nada que me escape, costumava dizer tia Jovita todas as vezes que a família se reunia para o almoço de domingo. Solteirona, morava com a irmã que tinha uma coleção de filhos e netos, o que sempre proporcionava um bom público para as suas descobertas.

Sempre que começava atraía a audiência. Afinal, todos gostavam da percepção da velhinha a respeito de fatos prosaicos que ninguém notara antes. Era como se estivessem ouvindo uma Miss Marple engraçada. Identificava cortes de cabelo quase imperceptíveis, sabia quando as sobrinhas estavam na TPM ou quando o time de futebol dos sobrinhos tinha ganho ou perdido. Semanas antes do time de um deles ser rebaixado ela vaticinou : avisa o Fernando para não confiar nesse time senão ele vai ter um enfarte.

O que ninguém nunca esperara é que ela começasse a identificar questões mais sérias.

Um dia, no meio de macarronada, ela perguntou : "- Quando é que nasce o bebê da Verinha ?". Márcio, o pai da Verinha engasgou de uma forma que quase teve de ser socorrido por uma ambulância. Verinha saiu da mesa chorando e se trancou no banheiro. Os demais olhavam para a anciã estarrecidos. Ninguém sabia que a menina de 17 anos estava grávida.

A família ainda não tinha se recuperado do escândalo, nem o nenê nascido, quando tia Jovita se saiu com outra : "- Por que é que o Carlos perdeu o emprego?". Sobre o fato alguns da família sabiam, mas como é que ela tinha descoberto ? "Simples, meu filho - respondeu - repare que ele não tem mais aparecido cada domingo com uma roupa nova, nem está com aquele telefone cheio de balangandans..."

A preocupação passou a rondar os almoços. Especialmente os mais velhos. Os sobrinhos-netos, apesar do episódio da Verinha, não encanavam tanto com suas travessuras. Poucos conseguiam olhar diretamente nos olhos da tia. Alguns passaram a não ir almoçar todos os domingos.

O que não impediu a tia Jovita de continuar falando. Em pleno almoço de páscoa atacou novamente : "- Marina, esse negócio de bigamia não funciona. Cuida direito do seu marido." O marido era o Fernando e, se o time não tinha provocado o enfarte, a traição de Marina atingiu-lhe em cheio o miocárdio. Ele sobreviveu, o casamento não. Além disso levou Tia Jovita como testemunha na audiência da separação quando ela explicou para o juiz que mulher da idade de Marina, quando começa a se pintar demais e carregar aquele sorriso dissimulado no rosto é porque tem outro. Ganhou a causa.

A família agradeceu a tia por ter ajudado o Fernando. O que não queria dizer que tinham perdido o medo dela. Dessa vez tinha sido a favor, mas poderia ser contra. A irmã tentou convencê-la a ser mais discreta. Ela ficou ofendidíssima. Durante um mês não abriu a boca durante nenhum dos almoços. Os jovens começaram a provocá-la dizendo que ela tinha perdido o poder de detetive.

Até que um dia não se conteve. Olhou para Luiz Antonio, o marido de uma das sobrinhas, e disparou : "- Luiz, até quando você vai enriquecer recebendo suborno de fornecedores ?" Ele ficou roxo de raiva e respondeu em termos que esse blog se recusa a publicar. Saiu batendo a porta e cantando os pneus de sua Mercedes conversível.

Alguns meses depois, numa segunda-feira, Tia Jovita morreu. A empregada a encontrou dormindo e não conseguiu acordá-la. Já estava avançada em anos e o seu geriatra atestou uma parada cardíaca. O velório estava repleto. Até os ex-membros da família participaram. As feições misturavam consternação e alívio.

No momento em que se preparavam para fechar o caixão um senhor de terno que estava sentado no fundo da sala pediu a palavra. Ninguém o conhecia.

"- Em homenagem à dona Jovita e atendendo o pedido que ela me deixou por escrito, deixei para me manifestar só agora. Gostaria de informar que a sala está cercada e que eu vim aqui para prender o Sr Márcio, assassino da defunta."

Márcio até tentou fugir, mas foi barrado por dois guarda-roupas que estavam na porta. Uma balbúrdia se instalou no ambiente.

"Ha três meses, Dona Jovita me procurou na delegacia e pediu que eu tomasse um depoimento. Contou que notara que o Márcio queria se livrar da mulher e planejava algo. Só que ele percebeu que ela sabia, mas ela não falou nada pois estava brigada com todos. Ele achou que estava seguro, mas a fulminou com o olhar quando ela voltou a falar. Ela percebeu que estava condenada."

A irmã teve uma crise de choro, a mulher de Márcio gritou um viva para a Tia Jovita. O delegado concluiu:

-" Já temos o laudo em mãos. Foi estricnina. Aliás, o médico que assinou o atestado de óbito também está preso. Ele recebeu dinheiro do Sr. Márcio para alegar uma causa mortis inexistente."

Dentro do caixão, Tia Jovita parecia sorrir. Na lápide, a ironia dos sobrinhos-netos : Nada me escapa.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Saudades do Caudas Aulete*

- Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?

- Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.

(Manuel Bandeira)

Sinhama se contorcia com sua hiperestesia. Entre um iridocinésia e um antorismo até mesmo o triságio a trateava.

A família temia por sua alodialidade.

Chamaram o polímata que chegou numa reda cheia de rizes.

Este logo questionou se a situação era semelincidente ou se chegava a teteté. Constatou que o mal não provocava eupnéias. Por epagoge supôs um inoma sinistrogírico.

Pegou o cibório ao lado da cama e lançou nele tufos de coerana e ásaro, além de uma pitada de melanocerita.

Inseriu a mistura por uma rímula, como quem executava uma epêntese. Mandou alimentá-la com cibos e apterigianos que trazia em sua fáretra.

Nada funcionou.

Mandou chamar os tamaracá para executar a zarzuela. Tudo que restava era o encomendamento.

*Francisco Júlio de Caldas Aulete (Lisboa, 1826 — Lisboa, 23 de Maio de 1878) foi um professor, lexicógrafo e político português, autor de diversos livros didáticos e iniciador do Dicionário Contemporâneo da Língua Portuguesa cuja primeira edição apareceu em 1881.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Velhas bicicletas, outra traição

Tom Waits é um daqueles compositores/cantores considerados malditos, mas que todo mundo adora gravar.

Não é para menos. Suas músicas são sempre jóias a serem guardadas com cuidado. Broken Bycicles é uma delas.

Velhas bicicletas

Velhas bicicletas, correntes no chão
Guidão enferrujado, tudo ao relento
Alguém deveria ter um orfanato
Para tudo que ninguém mais quer

Setembro me lembra o calor
É hora de dizer adeus
Foi-se o verão, ficou a paixão
Velhas bicicletas esquecidas na chuva

Velhas bicicletas, não fale não
Papeleta de barulho, aros ao vento
No jardim, são apenas esqueletos
Uma roda não anda sem o seu par

Estações mudam num pensamento
Eu sempre me esqueço, alienação,
O que você me deu ficará, sentimento
Quebrado, mas sempre no coração.

O original é

Broken bycicles - Tom Waits

Broken bicycles, old busted chains

With rusted handle bars, out in the rain
Somebody must have an orphanage for
All these things that nobody wants any more

September's reminding July
It's time to be saying goodbye
Summer is gone, but our love will remain
Like old broken bicycles out in the rain

Broken bicycles, don't tell my folks
There´s all those playing cards pinned to the spokes
Laid down like skeletons out on the lawn
The wheels won't turn when the other has gone

The seasons can turn on a dime
Somehow I forget every time
For all the things that you've given me will always stay
Broken, but I'll never throw them away




domingo, 7 de dezembro de 2008

Pequeno poema em prosa


Entre luas, luvas e carpetes ela me olhava como se tudo tivesse sentido sem ter razão

Tinha os óculos largos, as lentes grossas e rosto de menina. Tudo olhava, como se captasse alucinações.

As pernas eram finas, pálidos gambitos. Corpo de mulher, que me provocava e convocava, quase sem querer. Mesmo não querendo.

Um dia chegou cedo. Saiu tarde. Dominou o tempo como quem aspira dálias perfumadas.

Me levou. Me deixou. Como um passatempo.

sábado, 6 de dezembro de 2008

Por que blogam?



Eu pensei, pelo menos, em três textos diferentes que justificassem usar essa imagem.

Não gostei de nenhum deles. Nem a versão séria, nem a bem-humorada e, muito menos a insana, chegaram aos pés do humor do cartoon.

De qualquer forma, a piada me trouxe à mente muitos dos blogs que eu leio (no conceito, no conceito...você e essa sua mente suja) e a convicção de que é exatamente esse tipo de blogueiro que eu não quero ser quando crescer.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Desanalogias

À noite todos os gatos são pardos

À tarde todos os patos são sapos (ou será o inverso ?)

À sopa todos os caldos são pratos

À popa todas as ondas são altas

À tona todos os corpos são rotos

À cama todos os sonhos são natos

À caserna todos aspiram generalato

Se não é ximango, é maragato

Naturalista prefere o mulato

No blog todo texto é abstrato

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

O ralo


O ralo é um buraco escuro ,feio e fedido que fica no fundo da pia. Geralmente é usado como referência pejorativa : "algo foi pelo ralo", "fulano entrou pelo cano (depois do ralo)" e, mesmo nas artes, o cheiro de ralo não era exatamente elogioso (por melhor que fosse o filme).

O que poucos sabem é a origem histórica dos ralos, os melhores amigos das torneiras e das pias, cuja função é escorrer a água para dentro das fossas e dos esgotos.

As primeiras referências sobre o ralo datam dos tempos das termas romanas. A idéia de algum tipo de coletor de água suja surgiu entre os escravos que tinham de carregar a água usada nos banhos em baldes de água até os esgotodutos romanos. Além de cansativa, essa prática provocava a deterioração gradativa das narinas.

O mecanismo ainda não tinha sido criado quando a queda do império romano do ocidente interrompeu bruscamente os desenvolvimento tecnológico. Nessa época, Ovídio já questionava : "ralidae tradis ovile lupae?", se bem que alguns do seus detratores achavam que sendo ovídio apenas se preocupava em causa própria.

Considerada como uma idéia herética na Idade Média (o procedimento de recolhimento de esgotos servia como uma forma de indulgência), a pesquisa formal só foi retomada durante iluminismo.

Os primeiros ralos eram feitos de cerâmica e continham furos imensos, que colocavam em risco quem deles se aproximasse demais. Data desse período a expressão "jogar fora o bebê com a água do banho", uma vez que, dependendo do tamnho do bebê ele poderia realmente sair pelo ralo.

Mas o maior problema nem eram os furos. Mas as inundações caseiras, uma vez que o ralo foi inventado alguns anos antes do encanamento de esgoto, ou seja, a água lançada no ralo regurgitava de volta ao ambiente de onde fora lançada.

Até quando Joanin de Ampesser, um engenheiro da baixa Saxônia se lembrou da teoria dos vasos comunicantes e dos líquidos imiscíveis, criando a primeira tubulação de escoamento de esgotos em 1526.

A partir daí, o ralo alcançou um desenvolvimento tecnológico avançadíssimo. Da cerâmica foram ao ferro, desse ao aço, às ligas nobres e já se discute a possibilidade de produzirem-se ralos de silicone que possam além de escoar água e detritos, também eliminem bits e bytes.

Todos os ralos,a partir daí, sirvam eles a banheiros, cozinha, área de serviço, ou mesmo a terraços, passaram a ter um sistema de proteção que evita que detritos maiores caiam em seu interior, entupindo-os com material mais grosso. Esta proteção é feita por grelhas de metal ou plástico e por um sistema de sifão, instalado em seu interior.

O que não significa que ralos não continuem entupindo continuamente, o que nos leva, muitas vezes, de volta ao questionamento dos escravos romanos : "De duobus malis, minus est deligendum ?"

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Ditados impopulares


A cordilheira engendrou um murídeo

A indolência é genitora de todos os pústulas

A lábia é argêntea, mas a quietude é aurífera

Discurso insano tímpano inano

Traje dessasseado purga-se domiciliarmente

Melhor ermo que entre maus acólitos

Permanece a saburra revezam-se os dípteros

Caninas açodadas geram sabujos oblíquos

Infortúnio na peleja, ventura no afeto

Líquidos pretéritos não fomentam moagens

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

A parafernálica antologia de Novembro

Essa é a minha escolha pessoal dos melhores comentários do mês passado. Se você é novo por aqui, a intenção é ler as frases fora dos seus contextos e, a partir delas, imaginar suas próprias histórias:


Tive uma portátil, laranja...

Pô, cadê o glossário obrigatório para esse caliconto???

Vou procurar meu caliléxico para tentar desvendar esses calimistérios!!

..prescrevo: banho de lua diário e café extra forte.

Que desperdício de munição.

E os tubarões vem até mesmo antes dos arrecifes.

Na média: vinagre balsâmico.

Beijos sem ratos...

Pelo jeito família de enforcado o merece.

Será que vendem em quantidade?Dão nota fiscal?

terei que ser socorrida por um dieta enteral....

perdi dois quilos em uma semana comendo amêndoas...

O telefone que fugiu, já voltou?

temos um prefeito que acabou de ser eleito e já está cassado

Acho que moro na anti-Itu

Só uma correção pra mór de perfeiçoá o qui já tava bunitu

A hermenêutica da seta

Como é de conhecimento do vulgo, a hermenêutica é a ciência filosófica voltada para o meio de interpretação de um objeto.

Depois de quase 30 anos de habilitação como motorista, resolvi publicar meus profundos estudos interpretativos filosóficos sobre a seta (em alguns locais chamada de pisca-pisca), aquele aparato dos carros que, segundo se supõe, deveria servir para sinalizar as mudanças de direção.

Quando eu aprendi a dirigir, a seta já era de uso comum, ainda assim os instrutores insistiam em nos ensinar a sinalização com o braço que, inclusive, era requerida no exame. Não seria capaz de traçar um paralelo entre a seta e o braço, uma vez que esse caiu em total desuso, especialmente por motivos de segurança - ninguém mais anda com o vidro aberto (é verdade que eu gostaria de saber como é que a sinalização de braço funcionava em dias de chuva).

Mas deixemos de lero-lero, aqui vão as conclusões

Seta nihilista : os adeptos dessa corrente se recusam a utilizar a mesma. Partem do direito inalienável da privacidade e acreditam que o carro de trás não tem nada que saber para onde ele está indo. É uma das correntes com mais praticantes nas ruas.

Seta estruturalista : esses motoristas crêem que cada um dos elementos só pode ser definido pelas relações de equivalência ou de oposição que mantém com os demais elementos, dessa forma só acionam a seta quando percebem alguma tendência natural do tráfego, seja para seguí-la, seja para negá-la.

Seta pragmática : é caracterizada pela descrença no fatalismo e pela certeza de que só a ação humana, movida pela inteligência e pela energia, pode alterar os limites da condição humana. Seus usuários, movidos pela sua convicção de que , em algum momento irão entrar a direita, mantém a seta permanente ligada, como uma demonstração de que são eles e não as placas que definirão os seus destinos.

Seta existencialista : essa corrente seto-filosófica e literária destaca a liberdade individual, a responsabilidade e a subjetividade do ser humano. Por isso costumam sinalizar para o lado contrário que pretendem virar como uma forma de enfatizar essa subjetividade.

Seta marxista : já foi mais popular, mas tem perdido adeptos para os pós-modernos neo liberais. O sinesíforo materialista histórico interpreta a vida conforme a dinâmica da luta de classes e prevê a transformação das sociedades de acordo com as leis do desenvolvimento histórico de seu sistema produtivo. Seu uso da seta manifesta-se em função dos contexto do trânsito preferindo seguir as massas nos ônibus que seguir a rota escolhida pelas vans importadas, mesmo que isso signifique uma multa por trafegar na faixa exclusiva. Só usa setas que sejam vermelhas.

Seta utilitarista: o utilitarismo nada mais é que uma forma de conseqüencialismo, ou seja, ele avalia uma ação unicamente em função de suas conseqüências. Os adeptos da seta utilitarista só costumam ligar a seta depois que já começaram a fazer a curva.

Seta fenomenológica : de acordo com os motoristas que seguem Husserl, as coisas caracterizam-se pela sua não finalização devida, pela possibilidade de sempre serem visadas por noesis novas que as enriquecem e as modificam. Para demonstrar sua tese costumam ligar a seta muito antes do local onde pretendem virar e a desligam assim que se aproximam da conversão. Algumas noesis ocorrem quando são abalroados pela traseira.

Seta pós moderna : o uso da seta por esse grupo de motoristas resulta da dificuldade de se examinarem processos em curso com suficiente distanciamento e, principalmente, de se perceber com clareza os limites ou os sinais de ruptura nesses processos, dessa forma, eles nunca sabem exatamente para que lado vão entrar e, na dúvida, ligam o pisca alerta.