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Pancetta atômica

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Mensagem A despeito do patronímico, Hilário era um sujeito taciturno e macambúzio, não poucas vezes sorumbático.   O que não o impedia de desenvolver suas atividades profissionais de forma metódica e eficiente, lidava bem com as pessoas, mas não permitia nenhum tipo de aproximação que ultrapasse os limites da formalidade.   Seu estilo soturno também não o impediu de se casar e ter filhos. Estela, a esposa, era uma mulher alegre e divertida e apaixonada pelo marido.   Hilário, além de calado e metódico, era também um homem cheio de manias. Rejeitava quase a totalidade dos equipamentos modernos, usava o computador por necessidade profissional mas, em casa, se recusava a ter como cafeteiras elétricas (ainda que tivesse se rendido ao filtro de papel), máquinas de secar roupas (o sol e o vento existiam para isso mesmo) e, menos que tudo, forno de microondas.   Estela não dava bola para a cafeteira, afinal, quem fazia o caf...

Português pós-moderno

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O prefixo "equi" tem originalmente o sentido de plano, justo, liso. Na língua portuguesa indica coisas iguais ou muito similares, como podemos notar em palavras como equilátero, equidistante e o verbo equiparar. Quando queremos nos referir a algo que é diferente usamos outros prefixos como "para" (paradoxo, paródia) ou o mais radical "anti" (antitetânica, antítese). Isso posto, gostaríamos de revisar algumas definições que os nossos dicionários teimam em publicar de maneira errônea: Equino : se refere a cavalos da mesma espécie. Dois cavalos árabes são equinos. Um cavalo árabe e um quarto de milha são apenas paraquinos Equipe : grupo de pessoas que se reúne para praticar um esporte ou alguma atividade competitiva. São consideradas equipes de verdade todas aquelas formadas por pessoas iguais. Os tenistas Bob e Mike Bryan, tenistas gêmeos, são uma equipe. O time do Corinthians, pela sua diversidade é uma antiquipe. Équidna : um ser muito estranho e quase ú...

Desaforismos sabatinais

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Mensagem De vez em quando me pego pensando em voz alta e descubro que é o eco. Nenhum slogan, por mais pegajoso que seja, acrescenta conteúdo a uma ideologia vazia Apesar de parecer que não, todos os dias chegam ao seu fim. Separação é como guerra, apesar dos esforços de propaganda, nenhum dos lados tem razão. Questionada sobre as qualidades dele ela emudeceu, Nunca tinha sido apresentada a elas. Pegue uma idéia da qual você discorde. Distorça-a até ela se voltar contra quem a criou. Depois é só olhar o circo pegar fogo.

A professora de sueco

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Ernani conheceu Linnea numa festa das nações no clube. Ele estudante de direito, ela secundarista e filha do cônsul sueco no Brasil. Paixão à primeira vista. Mal ele se formara, ela disse que o pai estava sendo transferido para Seychelles. Ele não teve dúvida, pediu-a em casamento, que aconteceu poucos meses depois. Tiveram três filhos Lennart, Ingrid e Axel. Todos educados de forma bilíngue, falavam fluentemente português e sueco. Para que não perdessem a prática, a mãe só falava com eles em português se fosse em algum papo sério com a presença do pai. Ernani nunca se importou com as conversas corriqueiras numa língua que não entendia e, quando iam para Malmö visitar a família a mulher e os filhos lhe serviam de intérpretes. Até o dia em que descobriu que no mesmo prédio da firma havia uma professora de sueco. Foi conversar com ela na hora do almoço. Queria aprender a língua, mas ninguém poderia saber que ele ia lá, queria fazer uma surpresa para a família na próxima vez que viajassem...

Casos heterodoxos

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Ela se considerava uma equação de terceiro grau, até se apaixonar por um matemático quando, enfim, se tornou uma mulher resolvida. Ele admitia que ela não tinha nenhum diferencial, ainda assim a amava de forma integral. Todos a achavam brega por ficar mandando beijos no coração. Ela se justificava dizendo que sua frustração era não ter conseguido ser cardiologista. Ela sempre sonhou em usar um sapatinho de cristal. Acabou no pronto socorro depois de pisar numa garrafa quebrada e encher o pé de cacos de vidro. Ele achava que até matar baratas era crime ecológico, o que nâo o impediu de chutar o fox paulistinha que urinou na sua perna. Passou a vida inteira na corda bamba. Se aposentou com artista circense depois de 50 anos de serviço.

Um só coração

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Mensa Não me venha Vinicius com essa história de amor infinito enquanto dure... se é infinito é também eterno. Não me venha Drummond com essa história de o primeiro amor passou....se passou não era amor. Não me venha Rachel de Queiroz dizer que o amor começa a morrer no dia que nasce, o amor não é apenas uma célula (ou, como diria Deleuze, são organismos que morrem, não a vida). Não me venha Gautier dizer que só a arte é eterna, nenhuma arte se constrói fora do amor. Não me venham tantos outros falar do amor verdadeiro, amor falso não é amor O que o meu coração se lembra todas as manhãs são as palavras do mais sábio de todos os homens, Salomão, que escreveu: " As muitas águas näo podem apagar este amor, nem os rios afogá-lo; ainda que alguém desse todos os bens de sua casa pelo amor, certamente o desprezariam. " O que meus poros exalam em todos os momentos são os versos de Becquer Podrá nublarse el sol eternamente; Podrá secarse en un instante el mar; Podrá...

Certezas e dúvidas

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Certezas Quem vive de memórias não coleciona novas lembranças. Algumas pessoas valem a pena, outras nem a penugem. Dinheiro não traz felicidade, nem o contrário. Carta marcada é coisa do Detran Muita gente confunde sinceridade com falta de tato Outras confundem falta de serviço com dedicação... Dúvidas Por que as pessoas admiram as borboletas mas continuam matando taturanas. Num corporação de canibais, o RH cuida da ingestão de pessoas?

O varal da vizinha

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Joel morava num apartamento simples. Quarto, sala, cozinha e banheiro e uma apertada área de serviço que desembocava num armário que o corretor chamou de despensa. A área, um corredor entre a cozinha e o tal do armário, não tinha janelas (a roupa seca mais rápido, dizia o corretor, sem pensar nos dias de chuva) o que permitia uma visão panorâmica do varal da vizinha. Vizinha que Joel nunca vira mais gorda, nem mais magra. Só sabia que era uma mulher pelo que via pendurado no varal. Aliás, sabia da vida da moradora pelo que olhava pela janela. Ela devia fazer a mesma coisa comigo, ele imaginava. Começou a analisar os hábitos. Ela nunca usava calça comprida (deve ser crente), gostava de roupas estampadas ou coloridas. Era ousada na lingerie. Certamente não praticava esportes pois nenhuma tipo de vestimenta esportiva aparecera no varal. Um dia, ao chegar em casa, descobriu que a vizinha tinha um namorado. O homem subira com ele no elevador e entrara no apartamento da dona do varal. Só pod...

Caiu na rede é peixe

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Caminhava eu tranquilamente pelas estradas da rede social quando, repentinamente, fui abduzido por um facho de luz que me dizia: "- Você foi adicionado à minha lista de amigos, seu código é 27-523-X" Do alto de uma mangabeira, saguis e babuínos urravam: "- Curti! Curti! Curti!", Tentei me desvencilhar e bloquear o ser extra-virtual que sugava as minhas informações, mas ele me arremessou em direção a outro facho de luz me etiquetando a testa com um "Encaminhado". Comecei a gritar: "- F1! F1!! F1!!!" No entanto a rede parecia não entender meus comandos , pois só aceitava touchscreen. Fui compartilhado, comentado, escrutinado, marcado e, até, re-piado. Quando achei que estava escapando, uma cloud se formou sobre a minha cabeça e me inundou de jogos, aplicativos e eventos que eu não podia recusar. Fui escoado por um longo tubo em U que me trouxe de volta à minha página, sem perceber que fotos pornográficas tinham sido publicadas no meu mural durante ...

Caminhos cruzados

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“Love seeketh not itself to please, nor for itself hath any care, but for another gives its ease, and builds a Heaven in Hell's despair.” ― William Blake, Songs of Innocence and Songs of Experience Nascido em Boituva, João mudou para São Paulo na adolescência, quando o pai foi transferido para a sede da empresa. Foi morar na Avenida Higienópolis 500 e estudar no Rio Branco. Maria, paulistana da clara, nasceu e morou até casar na Higienópolis 481, em frente ao prédio de João. Menina recatada, estudava no Sion Devem ter se cruzado centenas de vezes no meio dos caminhos do bairro. Nunca souberam que o outro existia. Entraram na faculdade no mesmo ano. Maria foi cursar Direito no Mackenzie. João, engenharia na FAAP. Frequentavam a mesma padaria Barcelona, a mesma farmácia da Angélica e até a mesma loja de CD´s da Vilaboim. Maria conheceu Victor no preparatório do exame da ordem. Casaram dois anos depois na capela do Sion. Tiveram duas filhas, se separaram antes de completarem 10 anos d...

Triângulo horroroso

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Jurássico frequentava o baile todas as terças feiras. Gostava de dançar mas, mais do que isso, queria arranjar uma companhia. Viúvo há quase 10 anos não queria casar de novo, mas também não gostava de passar por longos períodos de solidão. Os filhos tinham vida própria e quase não lhe davam atenção. Experimentou jogar bocha, até que se deu bem com o esporte, mas queria mesmo era companhias femininas. Naquela tarde fazia sol e o baile estava lotado. Mais mulheres que homens, como sempre. Dançou com três diferentes até que viu uma senhora que não saia da cadeira. Apresentou-se e convidou-a para dançar um bolero. Ela só sabia dançar foxtrot e raramente tocava um. Mesoclítica era o seu nome. Professora de português aposentada, solteirona. Jura, como preferia ser chamado, sentou-se e ficou conversando. Ela também não gostava do seu nome e pediu para ser chamada de Tica. A orquestra atacou um standard de Rodgers e eles foram dançar. Passaram a tarde jun...

Mistério discal

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Avançam os estudos do Fairchild University realizados no último período glacial de hemisfério noroeste de Tanganica. Os professores Quincy, Cruft e Lymann reuniram-se tardes sucessivas no Buckminster´s Cafe para discutir um caso raríssimo de discopatia histérica. Especializados na psicobiologia fisiológica charcotiana, os médicos estudaram a situação de uma degenerada que apresentava uma herniação cartilaginosa. A questão levantada pelos estudiosos era se a degeneração discopática era provocada por acessos de histeria ou se as dores desligamentares é que geravam a perda de controle da paciente. Para os demais médicos da universidade, o trio estava apenas matando aula no café, discutindo se o ovócito pronucleico precedia a galinácea, ou o inverso. No entanto, os primeiros artigos publicados por eles no Journal of Psychocaffeinology, demonstravam que por mais ociosos que fossem os pesquisadores, o caso era real. Relatavam as sucessivas exaltações matriciais ...

Uma história de Natal

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...não temais, porque eis aqui vos trago novas de grande alegria... Lucas 2:10 Tudo na vida de Lúdico era uma festa, fosse o simples sorriso de alguém no meio da rua, fosse a comemoração mais estapafúrdia que pudesse participar. Não perdia um evento, encontro de ex-colegas, almoços de família e, até, o baile da 3a idade do parque, ainda que ele ainda estivesse longe de alcançá-la. Para ele o Natal era o ápice de um ano festivo e a linha divisória que marcava o início de mais um ano de comemorações. Amava todos os símbolos e hábitos natalinos. Ia ver a iluminação da Paulista, do Ibirapuera e da Rua Normandia. Comprava presentes para todos que imaginava que encontraria na ceia. Não poucas vezes entrou na fila e sentou no colo do papai noel de algum shopping, para deleite e risadas das crianças. Comia, bebia e cantava Jingle Bells em várias línguas até o sol raiar. No extremo oposto de toda essa alegria estava Lídimo. Um sujeito sério e carrancudo que achava intolerável todos os desvios d...

Meio sem ambiente

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Anderson era um ecologista ortodoxo e intransigente. Até seus amigos, que nutriam uma certa simpatia por suas idéias, foram perdendo a paciência com os seus exageros. Nem mesmo a namorada, que era diretora de uma ONG que lutava contra a poda da grama em jardins, tolerou a convivência. Seu carro, movido a energia solar, sofria constantes colisões traseiras. Apesar do adesivo que informava aos motoristas que vinham atrás que aquele veículo brecava para animais, ninguém imaginava que isso significaria paradas bruscas para a passagem de baratas e formigas. Não comia nenhum tipo de carne desde a adolescência. Quando leu um estudo a respeito da comunicação entre plantas ficou deprimido por semanas. Quantas alfaces ele teria trucidado durante a sua vida? Quantos rabanetes não teriam sofrido mortalmente em suas mãos? Passou a se alimentar exclusivamente de suplementos minerais e água. Começou a andar a pé. Vestia-se somente com roupas sintéticas. Só não foi viver como eremita em uma caverna po...

A parafúsica antologia do bimestre

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Como sempre, recomendo aos meus leitores desavisados que o que segue abaixo são os comentários dos textos do bimestre (Outubro/Novembro) escolhidos de forma aleatoriamente macarrônica. A instrução é a de sempre: divirta-se com as frase, sem ir em busca dos seus contextos. Lindo o amor de vocês! poema para ser lido ao som de um berimbau além da rima eu queria mesmo, eram os camarões O que haveria na bolsa de Electra ? um filme de aventuras helenicas ele quer respostas ou apertar parafusos? a gente nem pode dormir e sonhar sossegado Na dúvida, ataque... agora vc exagerou!!!! Para sempre é muito relativo... Olhar para lá de lacaniano ! Outubro é o mes dos gafanhotos perdidos Um caso de paixão eletrostática, creio... Também tenho mania. Mas não conto. Edileuza, sua safadinha! Menino esperto esse Carlos... Me receitaram não passar as mãos nos cabelos quando sonho estava nadando numa lagoa com orelhas de burro Vou jogar no bicho ! Only this, and nothing more......

Perguntas à moda de Neruda

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Se a banana é maçã, a bananada é amassada? Se um triângulo pode ser retângulo um hexágono pode ser quadrado? Quando aquele sol resolve sair para onde ele vai? No caso anterior, do que vivem os heliófagos? Quebrar galhos ainda é permitido com o novo código florestal? Quando a chuva cai as gotas se contundem? Com quantas andorinhas se faz um verão? Um instinto extinto reencarna como lógica estruturada? As perguntas de Neruda estão aqui

Scintilla

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Pequena luz Scintilla entre azuis. Celestes, cerúleos, Ultramarinos Brilhante luz Scintilla e reproduz Aromas, sabores Sensações Pequena luz Scintilla e reconduz A manhãs, tarde e noites, De amor eterno Imagem por SlaveDruid

Manias

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Carlos estava longe de ser um sujeito ingênuo ou do tipo que se chocava com o inusitado. Durante toda a sua vida profissional conhecera pessoas com os mais diversos tipos de taras e fetiches, alguns deles tão insólitos que sequer apareciam nas ferramentas de busca da internet. Quando foi chamado pelos parentes de Edileuza achou que seria apenas mais um caso corriqueiro. A família estava desesperada com a idéia fixa da mulher. Carlos logo lembrou quee havia uma ligação direta entre a ansiedade e as idéias fixas por causa do que Jung postulou no passado. Chegou à casa de Edileuza e tocou a campainha. O som era diferente, parecia um conjunto de barras metálicas se chocando umas às outras. Ela abriu a porta. Logo no hall de entrada havia um modelo sanfonado de parede. Abertura de mais de 60cm ela falou, mesmo antes de dizer boa tarde. No teto um modelo bi plastificado pendia perigosamente sobre a sua cabeça, ele desviou, mas não percebeu que no chão havia um giratório eletrostático. Derrub...

Meia luz

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Morocha era uma mulher de luz. Luz natural, é claro, detestava lâmpadas quentes ou frias. Não morria de amor por velas nem lamparinas. Sempre dormiu de janelas escancaradas, luz da lua, luz do sol e até a luz fugaz do cometa Halley iluminaram sua cama. Só colocou uma cortina translúcida quando construíram um prédio ao lado do seu e, mesmo assim, exclusivamente para preservar sua privacidade. Alfonso era o homem das trevas. Engenheiro de túneis, só tolerava iluminação artificial e, mesmo assim, só da casa para dentro. Odiava qualquer feixe luminoso que lhe atingisse exogenamente. Morocha usava roupas estampadas e coloridas, sempre muito leves. Alfonso só se vestia de preto, da sola dos sapatos aos colarinho das camisas. Encontraram-se numa praça, num dia de chuva forte. Morocha tinha sido pega de surpresa pela tempestade. Alfonso tinha saído justamente para aproveitar o clima sombrio. Sabe-se lá por que, sabe-se lá como, apaixonaram-se. Sabe-se lá como, sabe-se lá por que resolveram en...

O discurso do olhar

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Não era a primeira vez que ele ouvia falar em linguagem corporal, mas era a primeira em que alguém lhe dava um roteiro mais detalhado. Ele estudou, observou, reparou. Aprendeu todos os truques e sinais. Aliado aos seus conhecimentos de análise de discursos, aprendido durante anos de leitura de Lacan e Barthes, julgou ser capaz de, praticamente, ler pensamentos e intenções . Exceto no dia que a viu pela primeira vez. Tentou entender seus movimentos, mas não conseguia manter a concentração fora dos olhos dela. Prestava atenção em cada palavra que ela pronunciava, esperava achar o significado oculto por trás delas. Nada. Quando foi dormir não conseguiu. Ficou tentando entender o que havia por trás daquele secreto discurso do olhar. Uma demonstração de poder de sedução? Um jogo provocativo à sua capacidade de entender as pessoas? Todas as leituras o levavam a crer que ela estava apaixonada por ele. O que era humanamente impossível. Propôs um novo encontro, passou horas em med...