quinta-feira, 30 de agosto de 2007

Duas ou três coisas


Muitos meninos se apaixonaram pela sua primeira professora. Eu sempre fui um menino póscoce (não, não procure essa palavra no dicionário, você não vai encontrar) então só fui me apaixonar por uma professora no segundo ano da minha segunda faculdade.

O nome dela era Nina Rosa, pequena, cabelos curtos, óculos. Era professora de Língua Portuguesa III & IV . Não era modelo de revista, mas era doce, engraçada, atenciosa. Ela me introduziu (leia o resto antes de tirar conclusões) ao mundo da síntese poética, das aliterações e, especialmente aos livros de Roland Barthes.

Claro, o amor sempre foi platônico e unilateral (um colóquio unilateralmente sentimental ?). Mas não deixou de ser declarado. Entre os muitos exercícios de redação que fiz durante esse ano de convivência semanal, um deles foi o poema abaixo. Não lembro da nota (costumavam ser boas) e nunca houve nenhum comentário adicional.

Duas ou três coisas que não sei a respeito dela

Menina
que atrás dos óculos
Me nina
Embalando idéias e poéticas
Funções de vida

Me nina
na leitura imprevisível
no olhar indescritível
na opinião sincera
Tecendo e tramando
novos amanhãs
nos meus ideais

Me nina
Me faz sonhar,
falando atrás dos óculos

Sonhar ser como és
Tentando ser como sou
Nào sei muito mais
que duas ou três coisas
As poucas que sei
sugerem poesia

Menina
que atrás dos óculos
Me nina
Canção de ninar que aprendi
Em tão pouco tempo

15.10.82

Um pouco depois que eu saí da faculdade soube que ela também tinha saído para se dedicar integralmente à USP. Nunca mais a vi e nunca mais ouvi falar a respeito dela.

4 comentários:

Lou H. Mello disse...

Sempre achei o tal amor platônico horrível. Mas fui vítima dessa praga, de forma compulsória, especialmente, nos tempos de escola. Nada como o amor compartilhado. Naqueles tempos, houve uma colega, que chamávamos de Poliana (por causa das tranças e do otimismo) que infernizou os meus sonhos, fantasias e pensamentos.

Taty disse...

Amores platônicos são ótimos! Parece que a imaginação fica mais solta, o sonhar é mais concreto e a paixão é sereta!

Nunca me apaixonei por nenhum professor mas amores platônicos é o que não faltaram! E um platônico se tornou realidade...perdeu a graça.

Vilma disse...

Apaixonar-se por professores na infância é mérito dos meninos ( uma vez que os exemplares machos fogem dessa profissão) mas em coração de menina o amor bate pelo coleguinha do lado, aquele que só sabemos o primeiro nome e lembramos pelo resto da vida, ah bendito Benedito...rsrsrsr, que Deus o tenha se for o caso ( afinal 30 anos não são 30 dias)

Lully disse...

Paixão por um professor, tive e como foi difícil enfrentar. Tinha a sensação que estava estampado na minha cara: SOU APAIXONADA POR VOCÊ!!!!! rs
Professor de português, chamado Gustavo, estava na 6ª série em 1976, Colegial Experimental da Lapa.
Fiquei apaixonada não apenas por ele, mas pela Língua Portuguesa, boa herança, creio eu!
Fico imaginando se meus alunos também se apaixonam por mim!rs
Dizem que, nós professores, somos sedutores por excelência.