segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Os meus e os teus pés


A primeira coisa que faço quando chego na praia para a minha temporada de férias é arrancar os sapatos (ou tênis, ou qualquer coisa que me limite o movimento dos dedos). Depois disso tiro o relógio.

Tanto uns como o outro passam o tempo todo no armário e só são recuperados no dia da minha volta à irrealidade cotidiana.

Não foi diferente dessa vez. O que mudou é que passei mais tempo por lá (ao todo, 37 dias) e não fazia idéia do tamanho da tortura que seria voltar a calçar meias (não sei usar nenhum calçado fechado sem meias) e o meus tênis para enfrentar a estrada de volta.

Nas poucas vezes que dirigi recorri a um par de sandálias franciscanas que davam total liberdade aos meus pododactilos.

Na areia, na grama, nas ruas de pedra, exercitei meu lado digitígrado com prazer inominável. Não faço o gênero podólatra, até porque acho que o corpo humano é muito bonito para me fixar num único pedaço.

Pensando em tantos pés reprimidos que andam por aí em sapatos duros e saltos torturantes, me lembrei do poema do Neruda sobre os pés da amada.

Que sejam pés libertos da opressão calçadista :

Os teus pés

Quando não posso contemplar teu rosto,
contemplo os teus pés.

Teus pés de osso arqueado,
teus pequenos pés duros.

Eu sei que te sustentam
e que teu doce peso
sobre eles se ergue.

Tua cintura e teus seios,
a duplicada púrpura
dos teus mamilos,
a caixa dos teus olhos
que há pouco levantaram vôo,
a larga boca de fruta,
tua rubra cabeleira,
pequena torre minha.

Mas se amo os teus pés
é só porque andaram
sobre a terra e sobre
o vento e sobre a água,
até me encontrarem.

6 comentários:

Vilma disse...

Eu tenho os pés chatos e uma unha encravada, fruto das vezes em que tenho que usar sapatos, também prefiro andar descalça, no máximo uso chinelos.Até cheguei a ficar traumatizada quando meu marido disse uma vez que se tivesse observado meus pés direito não teria se casado.Claro que foi brincadeira, mas dizem que toda brincadeira tem um fundo de verdade hahahahaha!
Já desencanei, agora ele que aguente...
Mas voltando a sua receita, depois que os pés estão empanados, a gente frita ou assa?

PS: Pablo Neruda logo cedo falando dos pés fez minha unha encravada chorar...

Bel disse...

Não tem nada melhor do que ficar descalça, acho que é uma sensação de liberdade indescritível, só comparada a tirar o soutien. (Essa você não conhece Hahahahaha)

Mal chego em casa, tiro sandália, tênis, e nem de chinelo fico. E Namorado vive reclamando a cada vez que me vê descalça, pega o chinelo... eu calço só pra satisfazê-lo, mas assim que sento em algum lugar, já levanto descalça! Tem jeito não...

Adorei Neruda.

Beijão!

neli araujo disse...

Olá, Fábio!

Benvindo, amigo!

Que lindo poema de Neruda!
E que ótimo post!
Ai que se eu pudesse só andava com os pés descalços!

Acho que posso imaginar teu martírio na volta pra casa, hehehe

Um abraço,

Neli

Vilma disse...

Como eu sou boba... só agora percebo ... fui atingida no calcanhar de Aquiles...Risos invertidos... porque a unha dói...

Fábio Adiron disse...

Vilma : geralmente assa, dói menos.

Bel : não vou fazer o teste do soutien

Lully disse...

Pois bem, vc tem dificuldade de colocar os sapatos, eu calça jeans.
Além de passar as férias, praticamente descalça ou de rasteirinhas, fico de vestido, sainha e roupas mais confortáveis, geralmente de algodão.
Colocar a calça jeans é uma tortura, é novamente ter que me moldar, me encaixar, me compactar, reprimir.
Pretendo em 2009, usá-las o menos possível e aproveitar ao máximo minha liberdade.
Beijos libertos

Lindo o Neruda, amei!