quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Homus peruibanos e Esopo


Meu pai tem uma definição bem antiga do que ele chama do "homus peruibanos".

É um ser de estatura mediana, careca, magro porém com uma barriga proeminente, com mais de 50 anos e, geralmente usando calções no estilo bermudão. É o ser masculino típico das praias da capital da lama negra. Há alguns anos numa das suas incursões pelas artes ele chegou a fazer uma escultura em madeira desse fenótipo (na próxima vez que for à casa dele vou fotografar para vocês verem).

O mais curioso, é que os anos passam (já são mais de 30 anos que eu vou para Peruíbe) e o modelo não muda. Claro que existem também os aspirantes a surfistas malhadões, mas o padrão típico continua o mesmo. Os exemplares mais antigos envelheceram e os que eram jovens foram passando por uma metamorfose até atingir o perfil (literalmente) adequado à geografia.

Eu mesmo incorporei algumas características. Não estou ficando careca (tudo indica que nunca vou ser), sou um pouco mais alto e, definitivamente não sou magro. Por outro lado, a barriga está aqui, os 50 anos estão cada vez mais próximos e sempre gostei de usar bermudões na praia. Isso deve ser decorrência das minhas férias anuais por aquelas plagas, sou afetado parcialmente pela metamorfose.

A descrição do "homus peruibanos" me relembra sempre também uma outra aventura artística do meu pai, para reforçar, estava lendo fábulas de Esopo com meu filho e fui revirar meus alfarrábios em busca do soneto abaixo.



O lobo e o cordeiro
(fábula ecológica)


Careca, barrigudo e decadente,
um lobo dormitava o dia inteiro
eis que a motocicleta de um cordeiro
sucede de passar à sua frente.

"Como te atreves, bicho desordeiro"
uiva o lupino, arreganhando os dentes
"a pertubar um cidadão decente ?"
"De vós tal agressão partiu primeiro"

responde o cordeirinho em voz macia
"pois é tão barulhenta ou mesmo mais
vossa oficina de funilaria..."

Assim, lobos e ovelhas atuais
vão poluindo o mundo, a cada dia.
E nem falemos de outros animais !...


(Benjamin Adiron Ribeiro - 1978)

2 comentários:

Vilma disse...

Aha! descobri onde você aprendeu a escrever bem! você foi desmamado com sopa de letrinhas...hahahahaha

Juliana disse...

De pai para filho desde quando ?