domingo, 27 de janeiro de 2008

Piriri Goa Ob Yg




Acho pouco provável que a maioria dos meus leitores alguma vez tenha ido a Peruíbe. Muitos sequer tinham ouvido falar da próspera metrópole da Juréia até recentemente quando um temporal alagou parte da cidade próxima ao rio e apareceu até no Jornal Nacional. Aliás, nada como a rede Globo para mobilizar políticos, no dia seguinte o governador até se dignou a aparecer por lá, provavelmente pela primeira vez na sua vida.

Peruíbe é uma praia no litoral sul do estado de São Paulo, ou seja, do lado não badalado do nosso litoral e depois das bregamente famosas Praia Grande e Mongaguá. Tem pouco mais de 50 mil habitantes e seu único atrativo turístico é a reserva estadual da Juréia. Em tempos remotos foi uma estância balneária e de tratamento de pele com a sua lama negra, rica em areia monazítica. É também grande produtora de banana ouro mas, como todo mundo sabe, isso se vende a preço de banana. Ou seja, não é badalada, não é rica, as ondas só servem para surfistas muito principiantes. As praias são planas de areia dura e frequentada majoritáriamente por velhos e crianças. Entre eles, eu, que passei, como tenho passado habitualmente nos últimos anos, minha férias de janeiro.

Mas não é uma localidade recente, os primeiros documentos de Peruíbe datam de 1538, ligados à Capitania de São Vicente, quando Pero Corrêa declara possuir as terras de Peruíbe, compradas do Mestre Cosme – Bacharel de Cananéia. Em 1553 Pero Corrêa doa as terras à Companhia de Jesus para ali se construir um colégio de meninos órfãos conhecido como “Confraria do menino Jesus”.

Região de constantes conflitos em virtude do comércio de escravos imposto por Pero Corrêa, da hostilidade dos índios por não aceitarem o novo regime trazido pelos portugueses e das dificuldades geográficas, caracterizava-se o local como uma praça de guerra, atualmente a única guerra dos índios é pelo direito de extrair palmitos predatoriamente e vendê-los na feira que ocorre duas vezes por semana. Com a chegada do Padre Leonardo Nunes, o Abarebebê, que em língua Tupi quer dizer: pai ou padre voador por estar em vários lugares ao mesmo tempo, foi iniciada a catequese dos silvícolas, reunindo-se no Tapirama, mais tarde denominada Aldeia de São João Batista de Peruíbe. As ruínas da igreja do Abarebebê ainda estão por lá (se você gosta de ver pedras amontoadas e cercadas de mato, é um must).

Em janeiro de 1554, mesmo mês da fundação de um certo colégio no planalto de Piratininga, chega à Capitania de São Vicente o noviço José de Anchieta (na igreja matriz da cidade existe uma relíquia que supostamente é um fêmur de Anchieta e que sai em cortejo no aniversário da cidade). Neste ano, no mês de julho, falece Padre Leonardo Nunes num naufrágio (pelo jeito não conseguiu voar). Pero Corrêa meses mais tarde foi assassinado em Superagui, ao sul de Cananéia, pelos índios Carijós (não, não se trata da galinha).

A origem do nome Peruíbe, tem gerado muita controvérsia entre historiadores e pesquisadores. O que mais se aproxima do nome Peruíbe, que em linguagem Tupi quer dizer: "Baía das Águas Cristalinas ó nome do cacique Piriri Goa Ob Yg", indígena mais velho e respeitado do litoral.

A aldeia de São João Batista de Peruíbe atravessou séculos com pouca concentração de população e era ponto de pousada e passagem dos viajantes e jesuítas que percorriam o litoral de São Vicente à Iguape.Sempre agregada a Itanháem como freguesia, como bairro ou mesmo como vila, o isolado povoado de pescadores, de índios e mestiços, inicia seu desenvolvimento com a chegada da estrada de ferro em 1914. Outra fonte de progresso na década de 20, foi a implantação na região de fazendas de bananas que trouxeram grande contingente rural.

Nos próximos dias escreverei um pouco das minhas observações locais.

5 comentários:

malmal disse...

Depois da aula de história, esperarei por sua impressões...

bijim de fim de férias

Estrela disse...

Que bom que você e suas insanidades voltaram.

Lou Mello disse...

Você não vai acreditar. Estive em Peruibe e mais de uma vez. Mas faz tempo, muito tempo. Lembro de pouca coisa, da tal areia mona... detesto monos, sou mais a favor dos polis, agora essa areia é boa mesmo, depois de tanto tempo, ainda estou inteiro, pena que não deixei que a passassem em minha cabeça. Legal, agora as coisas começam a voltar ao normal e você com seus aforismos e insanidades fez falta.

Vilma disse...

Aguardo essa história toda por correio, acompanhada de um cacho de banana ouro...

Sandra Mary disse...

E não é que justamente no dia da tempestade eu estava lá? Tínhamos ido passar o dia com a Karen e o Claudio ... que sufoco!! rs
Bjs!!!