Postagens

Cenas reais de um presente distópico

Imagem
Há uma promoção que o século XXI oferece sem anunciar: compre um pesadelo e leve outro de graça. O cliente nem percebe a oferta, porque ela não é feita no balcão, é feita no bolso, no feed, no pulso, na recomendação que aparece antes de você saber que queria alguma coisa. Fábio Betti, num texto recente sobre George Orwell e Aldous Huxley, resume com precisão o que cada um dos dois conseguiu fazer ao leitor incauto: Orwell assustou pela brutalidade declarada, pela bota que pisa o rosto sem pedir licença; Huxley assustou de modo mais refinado, pelo prazer que adormece sem deixar marca. O que Betti nota, e que me parece o ponto central, é a suspeita que já rondava a geração dele: "o futuro talvez não escolhesse entre os dois, e fosse capaz de costurar a bota de Orwell ao sorriso de Huxley num mesmo e único tecido." (Fabio Betti, Diálogo transtemporal — George Orwell e Aldous Huxley , Substack, 26 jun. 2026.) O futuro não escolheu. O futuro terceirizou. Você paga para ser v...

O garoto está de volta

Imagem
  Sou cria da década de 60. Um tempo de efervescência cultural, política e, principalmente, musical. Desse período vieram as minhas primeiras influências. Da minha mãe a música clássica e a popular brasileira (ahhh...a época dos grandes festivais), do meu pai as canções folclóricas franco-canadenses, da igreja a música sacra protestante. Uma delas, no entanto, foi, e ainda é, marcante para mim. Os meus primos mais próximos eram cerca de 5 anos mais velhos que eu e, especialmente do Sérgio, eu recebi a herança do Beatles. Literalmente uma herança, não só da música, mas dos compactos que ele repassava para mim. Ainda os tenho por aqui. Não foi à toa que, já na pré-adolescência, o primeiro LP que comprei foi Help! Um garoto que amava os Beatles e os Rolling Stones depois foi descobrindo o mundo do rock´n´roll, sem abandonar todo o resto que gostava. Continuei com descobertas. Do meu primo Alberto aprendi gostar de Peter, Paul & Mary e Joan Baez.   No começo da juventude...

Sextante

Imagem
Não me importa a quadratura do círculo Tampouco a triangulação da senoide Obtusas hipotenusas Melancólicas parabólicas Eclípticas elípticas.   As soluções das equações Sejam quais sejam seus graus Infinitesimais Diferenciais Integrais Nem mesmo as derivadas me incomodam. Nem primas nem secundas.   Desencaixoto-me das estruturas Oblitero as fórmulas Obnubilo os sinais do quasares   E aguardo que o sol ressurja a cada manhã (por enquanto)

Entre o real e o ilusório: resposta aos homens ocos

Imagem
Inspirado por Vera Helena Castanho O vazio avança e o real se desfaz diante de nossos olhos. Entre imagens, notícias, estímulos incessantes e promessas, o mundo se tornou um espetáculo de aparências e máscaras. T. S. Eliot já havia vislumbrado esse cenário quando descreveu seus "homens ocos", aqueles seres "empalhados" que sussurram vozes dessecadas como "vento na relva seca". Mas onde Eliot via paralisia, podemos encontrar movimento. Onde ele percebia "forma sem forma, sombra sem cor", ainda é possível detectar potências. O ilusório não encanta mais: agora corrói. Dissolve contornos, confunde referências e deixa um espaço silencioso e inquietante, onde antes a realidade se sustentava no bom combate. Os "homens ocos" de Eliot habitam essa mesma terra morta, "esta terra do cacto" onde as imagens de pedra recebem súplicas de mãos mortas. Contudo, diferente da resignação elioteana, cabe reconhecer que não estamos condenados à p...

Tautogramas temerosos

Imagem
  Picardias polissêmicas de Paracleto permaneceram pisoteadas por profusos picarescos pintassilgos.. Quem quereria quebrá-las quando querências qualificadas questionavam quocientes? Recordei-me rapidamente raros relacionamentos recônditos. Somente saberia simular situações sorumbáticas se sentisse sonolência sincrética.

Os bestsellers mais não lidos do mundo

Imagem
Não poucos livros da história foram tecnicamente definidos como bestsellers, até porque a quantidade necessária para receber esse nome é bastante baixa, cerca de 10 mil exemplares (em mercados editoriais mais pobres como o nosso, 5 mil já é um bestseller).   No entanto, ninguém nunca criou a categoria de worst-read, aliás o termo (os piores, ou menos lidos) nem existe, acabei de inventá-lo. São aqueles livros que vendem muito, são exaustivamente comentados, mas quando você vai ver não passam de decoração da estante.   A melhor maneira de detectar um worst-read é quando percebemos que as pessoas fazem citações inexatas, baseadas no que ouviram falar. Ou quando se referem a ele como um grande livro de “XYZ”, quando na verdade é um livro sobre “PQR”.   A lista abaixo comenta alguns que me chamam a atenção, não é uma lista completa, certamente você vai lembrar de muitos outros que merecem esse título. Vamos a eles: 1.     O nome da rosa : lembro que umas das co...

Baudrillard, Platão e Aristóteles

Imagem
Ainda que não haja uma relação direta, é impossível não sentir uma certa aproximação entre os simulacros de Baudrillard e a mimesis de Platão (e a contraposição de Aristóteles sobre o mesmo tema). Baudrillard fala em estágios da simulação, partindo da reflexão do real, para a perversão do real, daí para a ausência da realidade básica e finalmente a completa disjunção entre o que se mostra e qualquer realidade possível. Platão, do seu lado fala da realidade una e perfeita (primeiro nível), das cópias imperfeitas feitas pelo homem (segundo nível) e da reprodução artística como a mimese do que já era imperfeito (terceiro nível). Em A República, ele usa a expressão de três graus de separação entre a verdade e a simulação. Já Aristóteles, na sua Poética, era um defensor da mimética artística que, segundo ele, tinha quatro funções: a primeira antropológica, uma vez que mimetizar é inato à natureza humana, a segunda paidêutica (educacional), pois é pela mimesis que o homem adquire seus ...

O pecado da escuta

Imagem
Dizem os relatos bíblicos que, no princípio, Deus criou Adão e Eva e os instalou no paraíso, local onde poderiam usufruir de todas as coisas, exceto comer do fruto de duas árvores: a do conhecimento e a da vida. Como bons ouvintes, o casal escutou a recomendação e a obedeceu durante um tempo que as escrituras não definem a duração. Naquelas tardes fagueiras, à   sombra das bananeiras, debaixo dos laranjais! Como eram belos os dias. Eles escutaram e viram que isso era bom. Até o dia que apareceu um certo diabo disfarçado de serpente e começou a sussurrar no ouvido de Eva que o fruto das árvores deveria ser muito melhor que qualquer outra jabuticaba que eles comessem, além disso, se ela provasse tal maravilha, ela se tornaria igual a Deus. Eva escutou atentamente esse discurso e não só experimentou do fruto proibido como também foi contar a novidade para Adão, que também escutou e também atacou a especiaria. Cabum!! Apareceu o todo-poderoso e perguntou o que eles tinham apronta...

A ditadura das séries

Imagem
  Na minha adolescência e início de juventude a novela das 10 da rede Globo era considerada cult (em oposição às dos demais horários que eram consideradas bregas), especialmente porque eram aqueles que “transgrediam” nos temas políticos e de comportamento sexual, bastante reprimidos nos anos 70 e começo dos anos 80. A maior parte delas foi escrita por Dias Gomes, mas também incluía outros nomes importantes como Jorge Andrade. Eu não assistia nenhuma delas. Por dois motivos básicos, o primeiro é que sempre abominei novelas, o segundo é que estudando de manhã, com aulas começando às 7h30 não dava para ficar acordado até tarde ou acabaria dormindo na sala de aula. O que me fazia um peixe fora d´água em muitas conversas. Mais de quarenta anos se passaram e eu continuo nadando no seco por não acompanhar as novelas contemporâneas que ganharam o epíteto de séries (mas continuam sendo, formalmente, folhetins ao melhor estilo do século XIX). Inclusive as próprias novelas da Globo, depoi...

Parafuso espanado

Imagem
  Quando um pensador é citado em diferentes livros de diferentes autores que eu gosto eu costumo ir atrás da fonte para saber mais a respeito. Foi o que aconteceu com o romeno Emil Cioran. Ele é conhecido por ser um filósofo mais pessimista que Schopenhauer, o que não é exatamente muito fácil, quase uma proeza, eu diria. É um cético radical. Caso você não saiba ou não lembre-se, o ceticismo é um sistema filosófico fundado pelo filósofo grego Pirro (318 a.C.-272 a.C.), que afirma que o homem não tem capacidade de atingir a certeza absoluta sobre uma verdade ou conhecimento específico. No extremo oposto ao ceticismo como corrente filosófica encontra-se o dogmatismo, cheio de certezas. O que não deixa de ser curioso, uma vez que ao afirmar peremptoriamente que não temos certeza de nada, acaba por criar o dogma da incerteza absoluta. Uma contradição inevitável. Para entender melhor as teses de Cioran fui atrás de algo a respeito dele. Encontrei um livro que se propõe a ser uma in...

Em busca da irrealidade perdida

Imagem
  Humankind can´t bear very much reality T.S. Eliot – Four quartets   A humanidade não suporta muita realidade, constatava Eliot em 1936, o tempo passado e o ponto futuro, o que será e o que já foi apontam para o mesmo fim que é sempre o presente. Existir é ser algo temporário, o homem não passa de um estranhamento que ele faz de si mesmo projetando-se no passado, no presente e no futuro, as três êxtases como definiria Heidegger, as três maneiras de estar fora de si mesmo. O tempo presente é a versão trazida a valor presente do cavaleiros do apocalipse (a escatologia bíblica, favor não confundir com os cavaleiros do zodíaco): a peste, a guerra, a fome e, finalmente, a morte. Essa é a realidade que explode na capa dos jornais, nas TVs, nas redes sociais e nos grupos virtuais, todos os dias. O passado não passa de uma memória irreversível, pode ter sido bom ou ruim, mas ficou para trás. O que nos resta é o futuro e a eterna esperança de encontrar nele alguma esperanç...

O olho de talião

Imagem
  para Jayme Serva, voz que clama no deserto Autoritarismo não é exatamente algo recente na história da humanidade, assim como nunca foi privilégio de alguma corrente ideológica, nem de raças tribos, povos ou nações, apenas variações de formas de sua aplicação. O exercício da “otoridade”, a prática de arbitrariedades autoritárias por pessoas que se acreditam imbuídas de algum poder, comumente na burocracia empoderada atrás de um escrivaninha, também não chega a ser algo inédito ou sinal dos tempos, basta ler um pouco da literatura a partir do século XVIII (antes disso as “otoridades” não davam seu imprimatur a quem as contestava) ou da história desde sempre, para encontrar exemplos de abuso desse suposto poder. Se ainda não existe, alguém que se dedicasse a estudar os micro autoritarismos provavelmente poderia escrever uma enciclopédia volumosa. E, por mais que isso nos pareça absurdo, sempre surgem novos autoritarismos, seja pela mudança da estrutura social, seja pela cult...

Rizoma, micélio e outros fungos quaisquer

Imagem
  Em 2005, o micologista americano Paul Stamets publicou seu livro Mycellium Running , um manual para o resgate micológico do planeta. Foi exatamente isso que você leu: cultivar mais cogumelos pode ser a melhor coisa que podemos fazer para salvar o meio ambiente. 25 anos antes, Gilles Deleuze e Feliz Guattari haviam publicado Mil Platôs , quase um tratado clássico de filosofia, que começa pela abordagem do que vem a ser um rizoma, propondo quase um jogo infinito [1] , sem começo, meio ou fim. Há cerca de dois meses, recebi pelo grupo de complexidade que participo, um artigo bastante extenso de Brandon Quitten chamado “Bitcoin is the mycellium of money” onde ele se baseia no livro de Stamets para traçar uma longa e detalhada analogia entre o micélio [2] e o mundo Bitcoin, e aqui cabe uma ressalva importante: Quitten faz esse paralelo exclusivamente em relação ao Bitcoin e não ao universo de criptomoedas, ainda que no decorrer do texto mostre como a existência de outras criptom...

Um estranho pretérito

Imagem
  Para mim, um dos mistérios mais inescrutáveis da nossa língua sempre foi a existência de um tempo verbal que atende pela alcunha de futuro do passado (ou do pretérito, que é exatamente a mesma coisa). Conheço muitas pessoas que sofrem de acrasismo*, outras de hipercrasismo*. Outros que vão de encontro a, quando deveriam ir ao encontro de, e vice-versa. Alguns acham que nunca veem o que esperam quando eles vêm assistir ao espetáculo da última flor do Lácio. Também, quem mandou que ela fosse burra e bonita? Eu sobrevivo bem até diante das mesóclises e não sofro com os verbos defectivos. Agora, futuro do passado? O que exatamente isso poderia significar? Mas, como diriam as organizações Tabajara, os meus problemas estão resolvidos, depois de ler alguns textos que circulam nas redes sociais, especialmente aquelas dedicadas ao público corporativo. Em um texto publicado nessa semana (portanto, ao apagar das luzes de 2021), o autor informava que até 2020 (sic) o Brasil deveria s...

Inquisições, gulags e cancelamentos

Imagem
  Ninguém na terra tem a coragem de ser aquele homem. Jorge Luís Borges – O deserto A primeira condição de uma dialógica cultural, nos ensina Edgar Morin no 4º volume de seu “O Método, é a pluralidade e diversidade dos pontos de vista. Ainda que não sejamos carentes nem de pluralidade e nem de diversidade e, consequentemente repletos de pontos de vista variados, nossa construção social nos imprime um selo na testa (e na alma) que nunca nos permitiu que esse diálogo de fato se efetivasse. Mudam as condições históricas, comportamentais, ambientais e sociais. Muda a dinâmica do poder, mudam as leis, muda até o tão falado zeitgeist. Só não muda o fato de que continuamos a ser uma humanidade dividida entre perseguidos e perseguidores – até os neutros são considerados opressores pelos perseguidos e coniventes pelos perseguidores. Isso quando não somos surpreendidos pelos opressores alegando que são perseguidos, com um discurso vitimista pedindo proteção. Ainda que todas as inquisiçõe...

A metafísica Kantica

Imagem
  “Uma vez que Kant é um dos mais difíceis dos filósofos modernos, eu não posso esperar ter conseguido deixar seus pensamentos inteligíveis ao público em geral. Não me parece claro que todos os aspectos do seu pensamentos sejam inteligíveis, nem para o próprio Kant.”   “Ainda que uma visão geral do sistema kantiano seja comum a todos os comentaristas da sua obra não existe nenhum acordo a respeito da força, ou mesmo do conteúdo, dos seus argumentos.”   Essas duas frase, extraídas do comentário de Roger Scruton sobre a obra de Immanuel Kant (Kant – A very short introduction. Oxford University Press. 1982) já seriam suficientes para desistir de tentar entender a filosofia kantiana, mas eu admito que sou cabeça dura e resolvi enfrentar a fera. Reconhecendo minha limitação para enfrentar face a face os originais do filósofo (e eu até tentei ler numa versão inglesa e depois de algumas muitas páginas reconheci que sozinho não chegaria a lugar nenhum), fui em busca de ajud...