domingo, 31 de julho de 2011

Linguagem do amor

O professor de morfologia estava no meio da aula quando Rebeca percebeu que Antonio olhava fixamente para ela.

Ela corou, mas não conseguiu disfarçar que também gostava dele.

Quando a aula acabou, ele a convidou para tomar um café na lanchonete da escola. Passaram o resto da manhã conversando sobre desinências.

Ele a levou para casa e antes de se despedir declarou seu amor radical pelos seus afixos. Ela o beijou com uma vogal de ligação.

A cada encontro conheciam-se mais. Trocavam receitas mesoclíticas de sopa fria de cenoura com gengibre, entre orações coordenadas e assindéticas.

O romance se aprofundou em outras línguas. A primeira vez que ficaram juntos alternaram momentos de furor apaixonado com as funções dos substantivos, advérbios e adjetivos apostos aos verbo to be.

Como denotavam uma existência perfeita a dois, juntaram suas polissemias e casaram-se com a mais correta entonação.

Amavam-se de forma articulatória e nunca perdiam a oportunidade, fosse verbal ou nominal, de estarem adjuntos.

Antonio era um sujeito cheio de predicativos, Rebeca, uma mulher de apostos.

Nunca se trataram de forma intransitiva e suas orações coordenadas eram constantemente copulativas.

Entre antonomásias e catacreses, construíram um lar isento de cacófatos ou solecismos.


Amar foi, eternamente, o verbo de ligação entre eles.

4 comentários:

Taty disse...

Já sei a quem recorrer quando namorar um professor de portugues ou de literatura brasileira! Ósculos dominicais.....

clau disse...

Coisas do alterego...? rss
Pq este Antonio me recorda alguém. rss
Bjs!

Rubinho Osório disse...

Esse vai pra minha sobrinha, Rebeca, que ainda não encontrou o seu Antonio.

Arimar disse...

Fabio.
Linda a história, mas tenho uma dúvida:
Se ela no início do relacionamento afetivo gramatical ela o beijou com uma vogal de ligação, posteriormente ocorreram beijos consonantais????