domingo, 8 de maio de 2011

Trilha aromática

Todo mundo costuma ter uma trilha sonora. A música do primeiro beijo, dos momentos mais marcantes de amor, do casamento. Menos André.

André tinha uma trilha aromática. Nunca esqueceu o cheiro de suco de laranja com beterraba dos tempos de bebê. Nem do primeiro pão de queijo na cantina da escola.


As lembranças de sua mãe rescendiam a alho e azeite, onipresentes na sua culinária.


Do seu pai o forte cheiro de café que ele fazia todos os dias de manhã.


Todos os grandes eventos da sua vida estavam associados ao perfume de algum alimento.


Para o bem e para o mal. Trazia vivo na memória o cheiro do palmito que sua mãe cozinhava quando o pai lhe deu a primeira surra. Nunca mais conseguiu comer um pedaço sequer.


Conheceu Marina numa festa de aniversário, apaixonou-se à primeira vista devorando um brigadeiro, para ele, o verdadeiro cheiro da paixão.


O primeiro beijo, no sofá da sala da menina, ficou para sempre com a lembrança do molho de tomate que a futura sogra cozinhava. Sua boca salivava apenas à menção de uma macarronada ao sugo.


Mas o aroma que ele jamais esqueceu foi da lua-de-mel. Pediram jantar no quarto, chateaubriand ao molho de mostarda.


André nunca precisou de vasodilatadores, se algo não funcionava bem , bastava ir até a cozinha e aspirar um pouco o vidro de mostarda.

6 comentários:

Jô Bibas disse...

Sentido olfativo valorizado. Perfeito, Fábio. Um Feliz Dia das Mães para essa família linda,

Taty disse...

Um dia, deverão inventar um software para que possamos sentir os aromas descritos! Delicia de texto, yummy! Beijos.

neli araujo disse...

Que lindo, Fábio! Gostei!

Vilma A. de Mello disse...

Acho que daqui a pouco vão vender mostarda apenas com retenção da receita...se bem que ainda sobra o mercado paralelo

Bom dia!!

clau disse...

Nossa...este seu André tem muito do meu jeito...! rss
Bjs!

Rubinho Osório disse...

Tenho mostarda em casa... vou tentar!