sábado, 31 de janeiro de 2009

Coffea arabica

Outro dia, trocando mensagens com a Virgínia (minha amiga e prima, ou vice-versa), caímos no tema "café", a única bebida que coloco acima do vinho - aliás, a palavra café vem da palavra árabe qahwa, que significa "vinho", devido a importância que a planta passou a ter para o mundo árabe.

Não deve ser mera coincidência.

A planta que Melo Palheta contrabandeou da Guiana Francesa usando seus dons de galanteio junto à mulher do governador de Caiena, era o Coffea arabica, a variedade mais fina do produto. Outras notícias sobre o relacionamento de Palheta com a distinta senhora você encontra na edição de 1727 da Gazeta das Guianas.

Eu toquei o Java Jive (ouça no final do post) e ela me mandou o poema que está aí embaixo.

Como sou um traidor de carteirinha, não resisti à tentação de traduzí-lo.

Ode à cafeteira

Ó peça genuina
Que destila cafeína
Elixir da vida
Ó peça genuina
Que destila cafeína
Escoas
E coas
Escorras
O sumo que me turbina
Escoadora, filtradora
Preciosa catalisadora
Ó peça genuina
Que destila cafeína
Elixir da vida

ODE ON THE PERCOLATOR
O
Shiny
Machine
That
Brews
Caffeine…
(Elixir
Of
Life!)
O
Shiny
Machine
That
Brews
Caffeine!
You
Perk
And
Perk
And
Perk
Until you are
Done
Percolating.
Perky
And
Precious
Percolator!
Shiny
Machine
That
Brews
Caffeine...
ELIXIR
Of
LIFE!

M.L. Squier


sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Contículo viciosamente pleonástico

Débora o deixava cego dos olhos e maluco da cabeça. Cada vez que discutiam era como se uma hemorragia sanguínea lhe subisse dos pés à cabeça.

Nessas horas Beto saia para fora de casa com a certeza absoluta de que ela só acalmaria quando amanhecesse o dia.

Nas suas caminhadas noturnas tentava compreender melhor a pessoa humana com quem tinha decidido conviver junto. Acabava encarando de frente o fato real de era quase impossível dividir em duas metades iguais suas vidas desiguais.

Era uma unanimidade entre todos os seus amigos que Beto que não podia mais descer para baixo daquele jeito. Aquele dia ela tinha abusado, agora teria uma surpresa inesperada. Era o momento do acabamento final.

Entrou para dentro de casa pisando duro com os pés. Ia olhar com os seus olhos nos olhos dela e, se necessário gritar alto que era o fim, não havia mais elo de ligação entre eles.

Atravessando o limiar da porta sentiu na cabeça que havia uma goteira no teto. Deixou-se molhar e esfriou a cabeça.

Abriu a porta do quarto. Débora dormia com as pernas para fora do lençol. Uma última e definitiva provocação.

Resolveu comparecer pessoalmente, pensando consigo mesmo que deixaria para falar no dia, seguinte.

pleonasmo: consiste na repetição desnecessária de uma idéia.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Kung Fu morreu

Algumas mortes ocorridas no começo desse ano me chamaram a atenção.

Mas nenhuma como a que constava no obituário do jornal O Estado de São Paulo de 9 de janeiro passado. Lá estava a informação fatídica: Kung Fu tinha morrido.

Na hora pensei na minha adolescência e nos filmes com David Carradine interpretando o imbatível Gafanhoto (ou, para quem se lembra, o monge shaolin Kwai Chang Caine).

Kung Fu, o nome da série, era, na verdade o nome popular da arte marcial Wushu, mas acabou se tornando o nome do personagem.

Ainda mais chocante foi pensar no recente Kung Fu panda. Será que o simpático Po teria sido atacado por um ressucitado Tai Lung durante o seu prato de macarrão ? Será que o mamífero monocromático teria, como diria o nosso presidente, Shifu ?

Antes que alguém saia lamentando a morte de Carradine (que está vivo, atualmente com 72 anos) eu já aviso, quem morreu foi uma senhora de 85 anos chamada Kung Fu (não vou colocar o nome completo) residente em São Paulo.

Muito provavelmente, seu pai, o Sr Kung deve ter dado esse nome à filha pensando no significado chinês do termo (功夫, Pin Yin:gong fu) que pode significar "Tempo e habilidade" ou "Trabalho Duro", adquiridos através de esforço e competência na luta corporal.

Se a finada senhora se tornou um dos 5 furiosos, ou apenas um gafanhoto no velho oeste, a nota fúnebre não dizia. Apenas que deixava filhos e netos.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Traição tardia

Pequena descoberta recente, Elizabeth Jennings era uma mestra da simplicidade.

O que não significa que traí-la seja uma tarefa fácil mas, como diria o sábio Maxwell Smart : eu vou adorar...

Tardio

O esplendor da estrela se inclina em mim
Raiava há anos. Essa luz que agora
Brilha além de onde olhos vêem o fim
Então o tempo incita e vai embora.

O amor de agora não alcançará
Sem que o desejo antes se aventure
Olhar, crendo belo, descobrirá
Amor, que ao chegar, nos encontre alhures.

Abaixo segue o texto original

Delay
by Elizabeth Jennings

The radiance of the star that leans on me
Was shining years ago. The light that now
Glitters up there my eyes may never see,
And so the time lag teases me with how

Love that loves now may not reach me until
Its first desire is spent. The star's impulse
Must wait for eyes to claim it beautiful
And love arrived may find us somewhere else.

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

A incoercível antologia de Dezembro

...às vezes me pego acionando o controle do portão como se ele fosse abrir o verde do sinaleiro...

Taí!!! Vivo numa cidade niilista!!!

Daqui a pouco não vai ter saburra suficiente para tantos dípteros.

Nunca tente decifrar um ralo.

Nunca havia entrado "de cabeça" no ralo assim como você entrou.

Preciso parar de visitar blogues estrangeiros...

...jamais admitiria um cibório ao meu lado.

Só faltou um mussaranho.

Devia ter outros atributos, porque parecia feia demais.

Conduzindo batatas verdes quentes para o inferno de Dante...

Isso me acontece sempre que chupo muitas laranjas...

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Os meus e os teus pés


A primeira coisa que faço quando chego na praia para a minha temporada de férias é arrancar os sapatos (ou tênis, ou qualquer coisa que me limite o movimento dos dedos). Depois disso tiro o relógio.

Tanto uns como o outro passam o tempo todo no armário e só são recuperados no dia da minha volta à irrealidade cotidiana.

Não foi diferente dessa vez. O que mudou é que passei mais tempo por lá (ao todo, 37 dias) e não fazia idéia do tamanho da tortura que seria voltar a calçar meias (não sei usar nenhum calçado fechado sem meias) e o meus tênis para enfrentar a estrada de volta.

Nas poucas vezes que dirigi recorri a um par de sandálias franciscanas que davam total liberdade aos meus pododactilos.

Na areia, na grama, nas ruas de pedra, exercitei meu lado digitígrado com prazer inominável. Não faço o gênero podólatra, até porque acho que o corpo humano é muito bonito para me fixar num único pedaço.

Pensando em tantos pés reprimidos que andam por aí em sapatos duros e saltos torturantes, me lembrei do poema do Neruda sobre os pés da amada.

Que sejam pés libertos da opressão calçadista :

Os teus pés

Quando não posso contemplar teu rosto,
contemplo os teus pés.

Teus pés de osso arqueado,
teus pequenos pés duros.

Eu sei que te sustentam
e que teu doce peso
sobre eles se ergue.

Tua cintura e teus seios,
a duplicada púrpura
dos teus mamilos,
a caixa dos teus olhos
que há pouco levantaram vôo,
a larga boca de fruta,
tua rubra cabeleira,
pequena torre minha.

Mas se amo os teus pés
é só porque andaram
sobre a terra e sobre
o vento e sobre a água,
até me encontrarem.

domingo, 25 de janeiro de 2009

Dos tempos de Said Ali

Por ter sido batizado de Emanuel ele acreditava ter aseidade, os amigos achavam que não passava de pinima ou excesso de noética.

Como um éfeta ele pendurava prismáticas pela casa. Não passava de coivara.

Um dia declarou que encontrara sua tágide portando uma camalha.

Seu coração passou a ouvir arietas. Acreditou num amor imarcessível e talássico.

Luiza era bigutada, o que não impedia que Emanuel a considerasse ilenível.

Seu xantocromismo, na verdade, disfarçava sua artrodinia, como a de um brissóide.

O casamento foi seráfico, com alianças de lidita e ramalhetes de toés.

No cruzeiro de núpcias, Emanuel mirou uma híade, sentiu uma éctase e despencou pela risbordo.

Surgiu na praia como um terção comido de guetes.


*Manuel Said Ali Ida (Petrópolis, 21 de outubro de 1861 — Rio de Janeiro, 27 de maio de 1953) foi um filólogo brasileiro, considerado por muitos como o maior sintaxista da língua portuguesa.