segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Mistério discal

Avançam os estudos do Fairchild University realizados no último período glacial de hemisfério noroeste de Tanganica.

Os professores Quincy, Cruft e Lymann reuniram-se tardes sucessivas no Buckminster´s Cafe para discutir um caso raríssimo de discopatia histérica.

Especializados na psicobiologia fisiológica charcotiana, os médicos estudaram a situação de uma degenerada que apresentava uma herniação cartilaginosa.

A questão levantada pelos estudiosos era se a degeneração discopática era provocada por acessos de histeria ou se as dores desligamentares é que geravam a perda de controle da paciente.

Para os demais médicos da universidade, o trio estava apenas matando aula no café, discutindo se o ovócito pronucleico precedia a galinácea, ou o inverso.

No entanto, os primeiros artigos publicados por eles no Journal of Psychocaffeinology, demonstravam que por mais ociosos que fossem os pesquisadores, o caso era real.

Relatavam as sucessivas exaltações matriciais da mulher (que recebeu o codinome de Dona Hérnia), especialmente em momentos de recolhimento interior da sua família.

Alguns desses episódios ocorriam logo após ela se levantar bruscamente das cadeiras. Outros provocavam dor nas cadeiras.

Entrevistas dadas off-the-records por Cruft, garantem que a mulher teria tido uma melhoria significativa depois que se apaixonara por um discófilo, o que faria supor uma ligação biopsicogênica entre os neurônios sentimentais e as placas ósseas.

Nesse momento, o caso passa por uma revalidação dos dados no Instituto de Furor Ósteouterino, para a continuidade dos estudos.

Enquanto isso, a mulher se dedica a jogar Role Playing Game, uma vez por semana.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Uma história de Natal

...não temais, porque eis aqui vos trago novas de grande alegria... Lucas 2:10

Tudo na vida de Lúdico era uma festa, fosse o simples sorriso de alguém no meio da rua, fosse a comemoração mais estapafúrdia que pudesse participar.

Não perdia um evento, encontro de ex-colegas, almoços de família e, até, o baile da 3a idade do parque, ainda que ele ainda estivesse longe de alcançá-la.

Para ele o Natal era o ápice de um ano festivo e a linha divisória que marcava o início de mais um ano de comemorações.

Amava todos os símbolos e hábitos natalinos. Ia ver a iluminação da Paulista, do Ibirapuera e da Rua Normandia. Comprava presentes para todos que imaginava que encontraria na ceia. Não poucas vezes entrou na fila e sentou no colo do papai noel de algum shopping, para deleite e risadas das crianças.

Comia, bebia e cantava Jingle Bells em várias línguas até o sol raiar.

No extremo oposto de toda essa alegria estava Lídimo. Um sujeito sério e carrancudo que achava intolerável todos os desvios do que ele chamava de compostura. Jamais sorriria para um estranho no meio da rua, aliás, jamais sorria.

O Natal de Lídimo era espartano. Rejeitava árvores pelas suas origens pagãs, abominava papai noel e discursava de maneira inflamada em defesa do verdadeiro sentido do Natal.

Sua comemoração se resumia ao culto formalíssimo de sua igreja, aos votos de feliz Natal ao pastor e demais pessoas que estivessem presentes no culto. Depois ia para casa e só não dormia imediatamente pois o barulho dos fogos lhe davam insônia.

Num certo Natal, por um contratempo, Lúdico se viu sozinho. Os familiares não fizeram a festa tradicional pois um deles estava hospitalizado em estado grave e cancelaram o jantar poucas horas antes do seu início.

Sem saber o que fazer, ele saiu passeando a pé pelas ruas da cidade.

No mesmo certo Natal, por outro contratempo, Lídimo se viu sozinho. Atendendo o pedido de vários membros que queriam viajar, a comemoração de Natal da igreja fora antecipada em 3 semanas (um absurdo, segundo Lídimo) e não houve culto no dia 24.

Sem saber o que fazer, ele saiu passeando a pé pelas ruas da cidade.

Lúdico viu aquele homem sozinho sentado no banco da praça e resolveu sentar-se ao lado dele. Como de hábito, ofereceu um sorriso. O homem era Lídimo, que não sorriu mas, apesar de carrancudo, era um sujeito educado e saudou Lúdico com um boa noite.

Lúdico puxou papo sobre as festas. Lídimo soltou o seu discurso. Lúdico ouviu-o atentamente, até o fim.

Depois começou a falar sobre a alegria de viver, sobre o sorriso das crianças, sobre o prazer de estar com as pessoas.

Lídimo se emocionou. Tantos Natais solitários e, no mais solitário de todos, alguém lhe falava de alegria.

Repensou seu discurso, e passou a falar de Jesus para Lúdico. Falou de sacrifício, de salvação, de vida eterna.

Enquanto falava, o Espírito tocou o coração de Lúdico.

Lídimo descobriu que era possível crer na alegria.

Lúdico descobriu que era possível se alegrar na fé.

Juntos foram até a loja de conveniência do posto de gasolina da praça e cearam juntos comendo pão de queijo e tomando um refrigerante.

Nunca mais tiveram um Natal sem Cristo ou sem alegria.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Meio sem ambiente


Anderson era um ecologista ortodoxo e intransigente. Até seus amigos, que nutriam uma certa simpatia por suas idéias, foram perdendo a paciência com os seus exageros.

Nem mesmo a namorada, que era diretora de uma ONG que lutava contra a poda da grama em jardins, tolerou a convivência.

Seu carro, movido a energia solar, sofria constantes colisões traseiras. Apesar do adesivo que informava aos motoristas que vinham atrás que aquele veículo brecava para animais, ninguém imaginava que isso significaria paradas bruscas para a passagem de baratas e formigas.

Não comia nenhum tipo de carne desde a adolescência. Quando leu um estudo a respeito da comunicação entre plantas ficou deprimido por semanas. Quantas alfaces ele teria trucidado durante a sua vida? Quantos rabanetes não teriam sofrido mortalmente em suas mãos?

Passou a se alimentar exclusivamente de suplementos minerais e água. Começou a andar a pé. Vestia-se somente com roupas sintéticas. Só não foi viver como eremita em uma caverna pois não teria onde comprar seus suplementos.

Quando sua compleição física se aproximou do ponto de inanição a família o internou numa clínica de reabilitação onde foi forçado a ingerir uma dieta balanceada de carnes, carboidratos, açúcares e verduras.

Morreu de choque ideológico.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

A parafúsica antologia do bimestre

Como sempre, recomendo aos meus leitores desavisados que o que segue abaixo são os comentários dos textos do bimestre (Outubro/Novembro) escolhidos de forma aleatoriamente macarrônica.

A instrução é a de sempre: divirta-se com as frase, sem ir em busca dos seus contextos.


Lindo o amor de vocês!


poema para ser lido ao som de um berimbau

além da rima eu queria mesmo, eram os camarões

O que haveria na bolsa de Electra ?

um filme de aventuras helenicas

ele quer respostas ou apertar parafusos?


a gente nem pode dormir e sonhar sossegado


Na dúvida, ataque...


agora vc exagerou!!!!


Para sempre é muito relativo...

Olhar para lá de lacaniano !


Outubro é o mes dos gafanhotos perdidos


Um caso de paixão eletrostática, creio...


Também tenho mania. Mas não conto.


Edileuza, sua safadinha!

Menino esperto esse Carlos...

Me receitaram não passar as mãos nos cabelos quando sonho


estava nadando numa lagoa com orelhas de burro


Vou jogar no bicho !


Only this, and nothing more....


se minhas 2 gatas quiserem lamber a minha pele


Comemoração com Botox ?


Tô tão ausente da minha vida virtual


Agora sim, posso conversar em rodas sociais com informações científicas corretas e de grande importancia para a civilização


Vc até que foi bonzinho!


Constatação óbvia: o Adiron não tem remédio.


Entrei muda sai calada.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Perguntas à moda de Neruda

Se a banana é maçã, a bananada é amassada?

Se um triângulo pode ser retângulo um hexágono pode ser quadrado?

Quando aquele sol resolve sair para onde ele vai?

No caso anterior, do que vivem os heliófagos?

Quebrar galhos ainda é permitido com o novo código florestal?

Quando a chuva cai as gotas se contundem?

Com quantas andorinhas se faz um verão?

Um instinto extinto reencarna como lógica estruturada?

As perguntas de Neruda estão aqui

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Scintilla


Pequena luz
Scintilla entre azuis.
Celestes, cerúleos,
Ultramarinos

Brilhante luz
Scintilla e reproduz
Aromas, sabores
Sensações

Pequena luz
Scintilla e reconduz
A manhãs, tarde e noites,
De amor eterno

Imagem por SlaveDruid