domingo, 25 de setembro de 2011

Uno

Depois de muitas aulas e muito ensaio, começa a sair alguma coisa

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Árvore geneilógica

Quando a prima do meu tio casou com o irmão da cunhada da minha mãe o caos instalou-se na família.

Ela, que era casada em primeiras núpcias com o falecido concunhado da minha sogra, repentinamente tornou-se prima em segundo grau dos próprios filhos.


Não bastasse o fato de que ela agora era nora da sua tia, ele também deixou de ser uma parente por afinidade para tornar-se irmão de sangue da minha sobrinha.


Vovó quase enlouqueceu-se ao descobrir que sua filha caçula, agora era sua sobrinha-neta por parte de pai, da enteada de sua tia-avó.

Vovô passou a chamá-lo de netinho, mesmo sabendo que ele se tornara nada menos que o irmão de seu próprio pai.

O padre que realizaria a cerimônia de casamento, nada ortodoxo, teve dificuldades em organizar pais e tios no altar, uma vez que ninguém tinha muita certeza do que era antes ou seria depois da oficialização do matrimônio.


Quando o juiz de paz, que também era parente, descobriu que essa reorganização familiar dele o irmão mais velho da sua mãe, mandou parar tudo, rasgou os papéis de casamento e disse que estava tudo anulado.

Como o amor era mais forte que a genealogia, amigaram-se e vivem em concubinato na edícula da casa do pai dela (ou será agora, o padrasto dele?)

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Primaveril

Saudei-a com fosfóreos rabanetes
Entre messes e entre tantos flertes
Periféricos astrolábios acusavam
Os contos os cantos acicutavam

Dentre os ais, aí infindos gorgulhos
Desabavam noz moscada em meus orgulhos
Plácidos, ébrios, pirotécnicos
Melros flanavam esotéricos

Veio a estação, primaveril e ousada
Nabucodonosor estirado na calçada
Pintava a alho e óleo a margarida
Desentupindo o ralo dessa vida

Claudiquei claudiquei claudiquei
Absorto entre o bobo e o rei
Dormi o sono dos inocentes úteis
Trajando meus pijamas inconsúteis.

sábado, 10 de setembro de 2011

Caso de polícia

Ao chegarem ao "Verme que ri", seu restaurante preferido, Oxíuro e Filária nunca imaginaram que dariam de cara com Sólium e Saginata, na mesa ao lado.

Até porque eram dois chatos da tribo dos platelmintos e, como é de conhecimento geral, nematelmintos como Oxíuro e Filária, não toleravam a tribo rival.


Primeiro foi uma troca de olhares hostis, depois a provocação sussurada de Oxiúro, que se referiu a Solium como "aquele porco".


Foi o suficiente para Saginata atirar o conteúdo do seu copo de água suja em Filária, aos berros.


"Sua elefantinha!" bradou Saginata.


"Sua vaca!!" redarguiu Filária.


O bate boca chamou a atenção de outro casal de natelmintos que estava na mesa do fundo. Ancilostomo e Lombriga, logo vieram ao socorro dos cotribais.


Em maioria, começaram a partir para ofensas hermafroditofóbicas e hidrofóbicas.


Solium e Saginata já estavam se sentindo acuados quando viram, passando pela rua, seus amigos Esquistossomo e Planária.


Pediram socorro.


Esquistossomo já entrou dando um pescoção em Oxíuro e um chute em Ancilostomo. Planária, para não deixar por menos, puxava os cabelos da Lombriga e cuspia em Filária.


Voaram copos, pratos e cadeiras.A quebradeira foi geral.


A confusão só foi controlada com a chegada da polícia sanitária que dispersou os brigou com bombas de gás de ervas de santa maria e jatos de mentruz com leite.

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Stultitiae Laus

Quando Anoia chegou em casa, sua mãe, Frescura discutia com Plutão, recém rebaixado da sua condição planetária.

A mãe acusava o pai de misoponia e destempero. Anoia, não abriu a boca, sabia que, caso o fizesse, ela seria responsabilizada pela situação.

Não era esse o seu desidério, a menina era viciada em discursos laudatórios, quando não os recebia vitimizava-se e, não raramente, exaltava-se.

Frescura olhou para a filha, esperando a oportunidade de transferir a culpa do bate boca para a filha. Plutão, desviou o olhar, como se não percebesse o que estava acontecendo.

Nada falando, além de saudar os pais, Anoia foi diretamente para o quarto, onde encontrou sua irmã Philautia que, por sua própria natureza, também não quis saber da retórica materna.

Anoia recostou-se na cama e mandou um torpedo para o seu namorado, Kolakia, um jovem grego versado na arte da adoxografia.

Chamou-o para sair, ela estava carente de sua loas, especialmente as que eram temperadas com sal. Kolakia não pensou duas vezes, em minutos se dirigiu para Anoia.

A garota, para não enfrentar novamente os pais, saiu pelas portas dos fundos, repleta de inebriação e paramentos, em busca dos seus objetivos hedonistas.

Kolakia, com seu jeito satírico pleno de abusos supersticiosos, levou Anoia a gargalhadas e espirros.

Naquela noite, Anoia dormiu em paz e sonhando com todos os elogios feitos à sua loucura.

domingo, 4 de setembro de 2011

Um amor de Babel

Conheceram-se na cabine de tradução simultânea da ONU.

Bora, croata, falava além da sua língua, alemão, inglês e albanês.

Carolina, equatoriana, falava espanhol, francês e italiano.

A paixão foi à primeira vista, mas mão conseguiam se comunicar.

Bora matriculou-se num curso de espanhol, mas teve de abandonar pois o emprego exigia que falasse russo em três meses.

Carolina tinha dificuldades em línguas não latinas e, para aumentar sua renda foi aprender romeno.

Só conseguiram marcar um primeiro encontro graças ao tradutor etíope que falava inglês e espanhol.

Foram jantar num restaurante judaico, sem saber o que pedir, ficaram um olhando para o outro enquanto um borsht esfriava à frente deles.

Voltaram para casa em silêncio, mas o beijo de despedida misturou as línguas.

No dia seguinte, o embaixador alemão reclamou que não conseguia entender uma só palavra falada por Bora.

O adido militar do Panamá ficou sem saber exatamente o que Carolina quis dizer com "kemijskog oružja bit će izbrisan sa Tripoli"

Foram chamados pelo coordenador geral da tradução, um chinês que falava 18 línguas e, mesmo assim, não conseguiu entender nada dos que os dois falavam.

O chinês resolveu colocar o casal apaixonado em licença, dando-lhes 90 dias para que se recuperassem da confusão mental.

Bora e Carolina aproveitaram para se casar em Sri Lanka.

A cerimônia foi conduzida por um sacerdote azerbaidjano que falava urdu.

Abandoram a carreira e foram plantar cebolas em Pitcairn, onde a única língua que precisavam era a do amor.