domingo, 31 de julho de 2011

Linguagem do amor

O professor de morfologia estava no meio da aula quando Rebeca percebeu que Antonio olhava fixamente para ela.

Ela corou, mas não conseguiu disfarçar que também gostava dele.

Quando a aula acabou, ele a convidou para tomar um café na lanchonete da escola. Passaram o resto da manhã conversando sobre desinências.

Ele a levou para casa e antes de se despedir declarou seu amor radical pelos seus afixos. Ela o beijou com uma vogal de ligação.

A cada encontro conheciam-se mais. Trocavam receitas mesoclíticas de sopa fria de cenoura com gengibre, entre orações coordenadas e assindéticas.

O romance se aprofundou em outras línguas. A primeira vez que ficaram juntos alternaram momentos de furor apaixonado com as funções dos substantivos, advérbios e adjetivos apostos aos verbo to be.

Como denotavam uma existência perfeita a dois, juntaram suas polissemias e casaram-se com a mais correta entonação.

Amavam-se de forma articulatória e nunca perdiam a oportunidade, fosse verbal ou nominal, de estarem adjuntos.

Antonio era um sujeito cheio de predicativos, Rebeca, uma mulher de apostos.

Nunca se trataram de forma intransitiva e suas orações coordenadas eram constantemente copulativas.

Entre antonomásias e catacreses, construíram um lar isento de cacófatos ou solecismos.


Amar foi, eternamente, o verbo de ligação entre eles.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Corpus quasi vas est

Jorge mentia com quantos dentes tinha, o que não era pouco considerando que ainda possuía inclusive os do siso.

Arrotava falácias sempre batendo no peito do pé, como se tivesse as costas largas.

Seu calcanhar de Aquiles, no entanto, residia no estômago que habitualmente roncava de sono.

O que não o impedia de ter o maior umbigo do mundo.

Mariana, quando presenciava essas cenas, ficava cheia de dedos, aonde perdiam-se anéis incontáveis como as estrelas do céu da boca.

Já conhecia a garganta do namorado e não metia o nariz quando não era chamada.

Enquanto Jorge metia os pés pelas mãos, Marina tratava de abanar as últimas sem coçar os primeiros.

Um dia sentiu um soco no fígado ao reparar que ele dera mais uma demonstração de ter os olhos maiores que a barriga.

Por mais que soubesse na ponta da língua ela não tinha mais estômago para aquilo.

Deu-lhe com os dois pés nas nádegas traseiras* no meio do discurso cotovelar de Jorge.

E nunca mais lhe deu as caras.

*Esse blog é um espaço educado e evita termos chulos

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Inimigos íntimos

Nemésio atendeu o telefone às 3 horas da manhã. Era seu amigo Timeo pedindo que ele fosse imediatamente até a sua casa.

Nem perguntou o que acontecera, já fazia idéia. Vestiu-se e foi até a casa da rua Grécia.

Encontrou Timeo esperando na porta com um talho na testa de onde escorria muito sangue.

Nemésio quis levá-lo para o pronto socorro, mas Timeo se recusou. Precisava se reconciliar com Dona.

Timeo Danaos estava casado há 9 anos com Dona Ferentes e, durante todos esses anos tiveram cenas de guerra e de paixão.

O motivo mais comum para as guerras eram os ciúmes mútuos de antigos namorados.

Dona não podia sequer ouvir o nome de Eneida. Timeo odiava um certo Virgílio que nem sabia direito quem era.

Não fora diferente naquela noite. O vôo de Timeo fora cancelado e ele voltou de ônibus do Rio, chegando de madrugada.

Por mais que tivesse ligado para Dona, ela não acreditou na história, e o recebeu a golpes de canivete.

Cabia sempre a Nemésio, o melhor amigo dos dois, apaziguar a situação. Deixou Timeo sangrando no meio fio e tocou a campainha.

Dona abriu a porta já gritando que ia fazer picadinho do marido. Nemésio pediu para entrar e conversar.

Pediu que ela não fizesse um cavalo de batalha da situação, afinal o marido tinha viajado horas de ônibus para reencontrá-la.

Dona rompeu em prantos. Contou que descobrira que Eneida estava morando em Belford Roxo e, desde então, enlouquecia cada vez que Timeo precisava ir para o Rio de Janeiro.

Nemésio acalmou a amiga e depois os dois levaram Timeo para o hospital.

Tudo teria se resolvido, não fosse o fato do médico do pronto socorro se chamar Virgílio...

Timeo se recusou a ser atendido. Dona teve outra crise de nervos. Nemésio desistiu.

Com amigos como aqueles, quem precisa de inimigos?

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Cras semper zingiber

A rainha Semíramis levava ao seu lado na carruagem real o esdrúxulo bobo da corte. Tukulti-Ninurta era o seu nome, homenagem de seu pai, ao grande imperador assírio.

Semíramis o chamava carinhosamente de o pequeno Zab.

Depois de cruzarem o bairro dos Nisibis, Zab sugeriu à Semiramis que detivessem a carruagem para uma caminhada pela floresta real.

A monarca ponderou que suas calçaduras não eram adequadas para tal empreitada e contrapropôs atividades diversas no palácio.

Zab, que era bobo, mas tinha juízo, prontamente acedeu à sugestão da alteza, por menos alta que fosse. Além do que, nunca se arrependera das propostas de sua senhora.

Nas câmaras palacianas o que a rainha queria mesmo era realizar uma grande faxina. Por mais azul que fosse o seu sangue, desde criança a soberana era atavicamente chegada numa faxina.

A maneira que encontrava de se realizar era limpanho o cantinho do pequeno Zab, onde podia esfregar com força.

A rainha arrastava os criados para a consecução dos seus objetivos, enquanto Zab, à distância, ficava enrolando.

Sons e aromas espalhavam-se pelos corredores palacianos refletindo a frenética atividade dos dois.

Horas depois, encerrados os trabalhos e encerados os tacos, ambos precisavam de um chá de cadeira. O lacaio de plantão, no entanto, trouxe chá de gengibre.

Zab olhou para Semíramis que olhou para Zab olhando para Semíramis. Conheciam bem os efeitos colaterais do gengibre mas não o recusaram.

A rainha engasgou do primeiro ao último gole. O bobo teve um acesso de hiperatividade.

Só se recuperaram com doses intensas de pera com chantilly.

E combinaram que a faxina continuaria até que os infinitos aposentos do palácio estivessem brilhando. Um trabalho para sempre.

domingo, 10 de julho de 2011

Mágica

Ele aguardava no meio da rua. O burburinho era grande, a temperatura pequena.

Esperava o momento de adentrar o mundo mágico.

Uma vez, num passado remoto, tinha olhado para todas aquelas imagens. Encantara-se com elas.

Três mundos, balcões, esferas. Relatividade. Tudo muito estranho, tudo muito parecido com ele.

Mergulhou em cada uma delas. Mas nunca conseguira atingir a extensão e a profudidade dos seus significados.

Agora, na fila, esperando pela sua vez, tudo parecia ter um brilho diferente. Uma cor diferente. Muito azul.

Só agora aquela perspectiva que sempre lhe pareceu confusa tinha sentido. A repetição de motivos lhe era prazeirosa.

Caminhou entre os traços, entre transversais do tempo e do espaço.

O brilho daquela luz o guiava desde sempre. Aquela cor o sustentaria para sempre.

Quando saiu já era noite. A lua se mostrava radiante. As imagens gravadas na sua retina e na sua memória.

No entanto, nem a noite, nem a lua, nem as imagens eram permanentes.

A sua felicidade sim.

sábado, 9 de julho de 2011

Quase pornográfico


Ela me estorcegava durante a isagoge e mesmo que eu fosse zafimeiro me deleitava em seus manticostumes.

Tentado a acobilhá-la sobre a retouça do estau enquanto ela, como acontista, me debulhava em sua liconomancia.


Alcançamos o alcantil sem mangrar macrósticos veventes. Nenhum mesto nos contraminava. Nenhuma incha nos provocava dipsomanias.


Perdi-me em aravias que nenhuma estigmologia desencriptaria, depois que ela ustulou deixando-me quase abléfaro.


Mesmo assim não me deixei cair em oscitação durante o ginge. Ela me tocou com sua tubigeira e alternei-me entre o zureta e o abnóxio.


Zumbri-me sobre ela em meio a acrotismos sécteis. Minha iscnofonia impedia a osfresia do meu parálio.


Pervenci a polografia sampando ancilas em truz. O bambaré do períbolo indicava ergasiotiquerologias infundibuliformes.


Retornei ao cuvico tanado, empazinei-me de munícios de forma bíbula e curti minha heliopatia sob a corneíba

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Apenas uma declaração de amor


Enquanto te espero, aproveito para dizer que o que você fez na minha vida é algo que eu jamais poderia imaginar.

Não imaginava porque me achava alguém muito cheio de manias imutáveis. Não imaginava porque muitas dessas mudanças jamais tinham passado pela minha cabeça, sequer como hipótese.

Aí chega essa mulher. Linda, inteligente, carinhosa, amorosa, apaixonante, perfeita e se torna a minha mulher, contrariando tudo que eu poderia crer.

Me ensinou o que é amar, o que é sonhar, o que é tornar sonhos em realidade, o que é ser feliz.

Mais que isso, ao seu lado aprendi o que é me apaixonar todos os dias, todas as horas, todos os minutos.

Me ensinou a ter alguém por quem eu preciso me preocupar o tempo todo, que eu preciso cuidar (a ponto disso ser uma necessidade física minha)

Uma mulher para eu me orgulhar das suas realizações, para eu ficar convencido pelo fato de ser minha. Uma mulher que me motiva a retomar muitas coisas que eu amava fazer, que me motiva a fazer coisas que eu não ligava muito para fazer.

A mulher que me faz ignorar qualquer outra pessoa, não por me obrigar a isso, mas porque não sinto mais nenhum tipo de interesse a esse respeito. Quem precisa de qualquer coisa a mais, quando se tem tudo numa pessoa só?

E isso acontece em todos os aspectos. A interlocutora intelectual acima de todas as pessoas, a amiga de todos os momentos incondicionalmente, a parceira de dança, de compras, de criação de filhos. A mulher que me provoca.

A mulher que está dentro de mim o tempo todo. Não sei e nunca mais vou saber o que significa solidão. Quando está comigo ou não.

Eu te amo, desde sempre, para sempre. Eu te amo com toda a intensidade do meu corpo e da minha alma.

Por isso tudo eu só consigo fazer uma coisa. Te agradecer todo o tempo por existir, te agradecer o tempo todo por, um dia, ter olhado para mim. Te agradecer por me amar.

Eu te amo. Minha mulher, minha felicidade, meu amor, minha vida inteira.