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Mostrando postagens com o rótulo crônica

O pecado da escuta

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Dizem os relatos bíblicos que, no princípio, Deus criou Adão e Eva e os instalou no paraíso, local onde poderiam usufruir de todas as coisas, exceto comer do fruto de duas árvores: a do conhecimento e a da vida. Como bons ouvintes, o casal escutou a recomendação e a obedeceu durante um tempo que as escrituras não definem a duração. Naquelas tardes fagueiras, à   sombra das bananeiras, debaixo dos laranjais! Como eram belos os dias. Eles escutaram e viram que isso era bom. Até o dia que apareceu um certo diabo disfarçado de serpente e começou a sussurrar no ouvido de Eva que o fruto das árvores deveria ser muito melhor que qualquer outra jabuticaba que eles comessem, além disso, se ela provasse tal maravilha, ela se tornaria igual a Deus. Eva escutou atentamente esse discurso e não só experimentou do fruto proibido como também foi contar a novidade para Adão, que também escutou e também atacou a especiaria. Cabum!! Apareceu o todo-poderoso e perguntou o que eles tinham apronta...

Pandemia eterna

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Não é de hoje que está em curso um vírus que tem afetado muitas pessoas. Diferentemente de outras cepas, essa não prejudica quem está infectado, mas quem convive com as pessoas que o contraíram. Desconheço sua origem, mas, certamente, não surgiu a partir de animais silvestres, nem foi criado em laboratório de genética. Diga-se de passagem, ele não afeta nenhum animal, exceto o homo , dito sapiens . Denominado vocêtemque ele faz com que seu portadores, continuamente, fiquem impondo suas ideias e soluções para outras pessoas. É uma profunda disseminação de vocêtemque isso, vocêtemque que aquilo, vocêtemque aquilo outro. Apesar de ser um vírus que se manifesta mais nas relações pessoais, ele não é incomum nas relações de trabalho, uma vez que quem carrega o vírus não sabe muito bem distinguir uma situação da outra. Os afetados pelo vírus, geralmente, não praticam aquilo que preconizam, uma vez que um dos efeitos colaterais da contaminação é o de criar uma camada de...

Um dia de muvuca fake

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Em mil novecentos e pó eu passei alguns dias em Nova York, depois de um congresso em outra cidade dos Estados Unidos. Uma das atrações da cidade (e ainda é até hoje), era o Museu de História Natural e, como bom rato de museus, fui conhecê-lo. Além de todas as maravilhas que tive a oportunidade de ver, o museu estava apresentando uma exposição temporária sobre Leonardo da Vinci, absolutamente espetacular. Muitas peças do seu acervo mecânico originais. Alguns quadros originais (claro que não a Mona Lisa que, ao que eu saiba, não costuma passear fora do Louvre) e muitos desenhos, especialmente os projetos e os de anatomia. Originais. A grande atração, no entanto, eram os pergaminhos originais com seus escritos, que estavam sendo mostrados pela primeira vez fora da Itália e, para isso tinham um sistema de sensores em que a iluminação só era ativada quando um visitante se aproximava para ver. Anos depois, já nesse milênio, uma exposição também muito bem montada, foi apresentada na Oc...

Desde el alma (en español)

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Alma, no entornes tu ventana al sol feliz de la mañana. No desesperes, que el sueño más querido es el que más nos hiere, es el que duele más. (Homero Manzi)  Sábado, casi medianoche, un taxi nos fue a buscar al barrio de Agronomía para llevarnos de vuelta a nuestro hotel, en el centro. Un viaje de casi 20 km. El día anterior habíamos estado en Villa Pueyrredón, más o menos la misma distancia. El chofer del taxi no consigue contenerse y nos pregunta: ¿Por qué salieron del centro para ver un show tan lejos? Debe haber pensado: con tanta cosa disponible mucho más cerca del hotel, especialmente los tradicionales espectáculos de tango de turistas, ¿que hacen estos locos en la periferia de la ciudad? Yo sé que estoy piantao, piantao, piantao… Sería lo equivalente a salir de mi casa para ver algo en Vila Nhocuné o en el barrio de Socorro. La verdad es que la distancia es algo irrelevante para ver a Cucuza Castiello en un día, y Dolores Solá al día siguiente y, a pesar de algun...

Males aleatórios

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Paramécio sofria de cibercondria, uma doença cada vez mais comum nos meios digitais. Não havia notícia, meme ou post que não o levasse para a cama com todos os sintomas mencionados na Wikipédia ou site do Dr Dráuzio. Uma tarde, o paranoico paramédico digitou uma palavra incorretamente e foi parar num glossário de estatística. Não entendeu nada e ficou apavorado, o que é que isso significaria na sua vida miserável e doentia? Resolveu consultar todos os seus amigos médicos e todos os sites de saúde com a seguinte mensagem: Doutor, Preciso da sua ajuda. Estou sofrendo de uma enfermidade misteriosa que não é mencionada em nenhum compêndio médico digital. Não sei se esta patologia é fatal ou se não é o caso de formar uma junta médica para me examinar e, quiçá, me recomendar algum centro de estudos no exterior. Tenho tido dores nos quartis com muita frequência, existe a probabilidade que eu esteja com a mediana inflamada, o que pode se configurar num qui-quadrado fora de...

Corredor de ônibus

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Mariana morava no Grajaú e todos os dias acordava às 5 da manhã para ir trabalhar num escritório de contabilidade na Libero Badaró onde estava há mais de três anos. A viagem de ida não costumava ser muito sofrida, mas a de volta era uma tortura. Mesmo quando saía pontualmente às 18h não chegava em casa antes das 21h. O trajeto incluía uma pequena caminhada até a praça do Correio onde embarcava, às duras custas, no 5317. Uma viagem de quase 33 km e depois mais um trecho à pé até a estrada do Capoeira, onde tinha a sua casinha com Horácio. Os dois estavam juntos há cinco anos. Ela o conhecera numa festa de bairro e, não pouco tempo depois juntaram os trapos e as panelas. Horácio era um sujeito trabalhador e carinhoso. Tinha uma oficina de motos na Teotônio para onde ia e voltava de casa caminhando. Não acordava tão cedo quanto Mariana e, como sempre chegava em casa antes dela, preparava o jantar para a companheira exausta do dia de trabalho e da jornada de ônibus. To...

Aparições

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A foto parecia ser apenas mais uma daquelas tantas que se encontram em exposições. Preto e branco. Composição geométrica alternando curvas e retas. Um ser vivo aparentemente perdido em meio a um contexto domiciliar comum. Bem ao estilo casual de Marina.   O que a diferenciava de outras não era o espelho no meio da imagem, mas o fato de Marina ter se deixado aparecer nele. E, definitivamente, não tinha sido nem um acidente, nem uma distração pois, mesmo entrecortada, a imagem dela ocupava um lugar nobre na foto.   Exatamente por isso é que Audálio se transtornou ao passar diante daquele painel. Sua vontade foi de falar imediatamente com ela e exigir que a foto fosse retirada da exposição. Aquilo era uma indecência.   No entanto, ao ir em direção da namorada percebeu que ela estava cercada de gente. Amigos, colegas de trabalho do jornal e até algumas pessoas da empresa que patrocinavam a mostra. Audálio tinha o estopim curto...

Prato do dia

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Hermógenes sempre gostou de cozinhar. Não era um super chef do Cordon Bleu mas seus pratos sempre fizeram sucesso entre os parentes e os amigos. Um dia, cansado de trabalhar para os outros, resolveu dar seu grito de independência e abrir o seu restaurante. Não era um restaurante qualquer, Hermógenes não queria uma multidão de funcionários nem tinha a pretensão de enriquecer com o negócio. Para ele bastava fazer o que gostava e receber o suficiente para viver de forma confortável. Seu restaurante tinha apenas 6 mesas e não tinha cardápio. Hermógenes se alternava entre o salão e a cozinha. Em cada um tinha um auxiliar para executar as tarefas mais operacionais. O próprio Hermógenes atendia os clientes e, durante a conversa com eles, oferecia os pratos que mais se adequassem a necessidade de cada um. O cliente está faminto? Hermógenes servia uma farta macarronada. Não tinha um estômago muito resistente? Servia a sopa do dia. Queria uma experiência gastronômica única? Hermógenes entregav...

Auto escola paulistana

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Você é um motorista à moda antiga? Venha descobrir regras de trânsito que você desconhecia. Você é um neófito? Bem vindo à vida selvagem. Se você é de fora de São Paulo, abaixo seguem umas dicas de como exercer suas habilidades sinesíforas na metróple. Aqui nós temos uma instituição chamada CET, a companhia de engarrafamento do tráfego que, diferentemente do Tiririca (pior do que está não fica), tem como lema: "não há nada tão ruim que não possa ser piorado". Caso você aviste os carros da CET organizando alguma coisa, pode ter certeza que o trânsito na região vai piorar muito. Se você avistar seres vestidos de uniforme marrom, prepare-se, vai ser multado. Se estiver dirigindo à noite, com chuva e os semáforos estiverem quebrados, pode ficar tranquilo, você não vai ver nenhum ser de uniforme marrom. Em relação às práticas dos motoristas locais: Caso você se depare com um radar limitando a velocidade a 60 km/h lembre que o carro na sua frente vai reduzir bruscam...

Uma mulher cabal

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"...o que quero dizer é que deixei uma boa parte de mim mesma inacabada porque desperdicei demais meu tempo. Não  obstante..." (Lillian Hellman) Quando Amanda acabou de ler essas linhas sentiu-se arrasada. Como uma mulher daquelas poderia se dizer inacabada. Era uma afirmação totalmente descabida. Tomou uma decisão para a sua própria vida. Ela seria uma mulher cabal, jamais inacabada. Iria ao fim e ao cabo de todas as coisas. Na manhã seguinte começou a levar a cabo seu intento. Fez uma faxina geral na casa e recolheu todos os cabos existentes dentro do imóvel. Eram tantos que achou que nunca acabaria, mas acabou com uma caixa de fios emaranhados em cima da mesa da sala. Começou a separá-los por tipo. Cabos de força, cabos paralelos e seriais, cabos de som, cabos USB...cabos e cabos. Dentro de cada tipo passou a separá-los por calibre, por potência, por categoria e, finalmente, por cores. Ao final do dia tinha todos os seus cabos classificados, etiquetados e guardados em ca...

O hemófobo

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Olhando em retrospectiva, os pais de João começaram a entender uma série de atitudes dele durante a sua infância e adolescência. A começar do seu nascimento. Os médicos da maternidade tinham falado que nunca um bebê tinha chorado daquela forma, mesmo antes de sair da barriga da mãe. E que nunca tinham visto um bebê parar de chorar tão imediatamente quanto quando ele acabou de ser lavado. E continuou chorando lancinantemente a cada vez que se machucava, mesmo que fosse a mais leve arranhada. Os pais lembram quando foram chamados às pressas na escola pois João estava passando muito mal. Ficaram perplexos ao descobrir que o menino tinha começado a vomitar ao ver um colega se cortar com uma tesoura. Em casa João se isolava. Não mexia numa série de objetos e, mesmo à mesa, tinha dificuldades em usar o garfo e a faca. Dificilmente assistia e televisão e saia correndo se a película tivesse alguma cena de violência. Foi no princípio da adolescência que, finalmente, a família descobri...

A calcinha da discórdia

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Jerônimo era o tipo de sujeito quadrado até o último milímetro da pele. Criado de forma espartana e com separação clara a respeito das “coisas de homem” e “coisas de mulher” nunca se sentiu confortável em situações em que precisava atravessar a linha divisória. No salão de beleza que a mulher frequentava ele sempre esperava do lado de fora, mesmo que estivesse chovendo cântaros e moringas. Passava ao largo das portas de vestiários e banheiros femininos e, obviamente, jamais entrara em uma loja de lingerie. Amélie, sua esposa, conhecedora das idiossincrasias do marido, quando precisava renovar o estoque de calcinhas e sutiãs ou ia sozinha ou, caso estivem juntos em algum shopping mandava-o ir dar uma olhada na loja de sapatos masculinos. Ele já sabia o que ela ia fazer. Quando estavam prestes a comemorar a primeira década de casamento Jerônimo resolveu que era a hora de surpreender Amélie e não seria com mais um anel ou brinco caro que conseguiria isso. Entrou no shopping, re...

Mistério na frente de caixa

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Um domingo, quando ele chegou para o café da manhã ela perguntou onde ele tinha colocado as bananas. Automaticamente ele respondeu que não sabia, afinal era ela que guardava as frutas e verduras. Durante a semana ele passou na feira perto do trabalho e trouxe uma dúzia de bananas erradas (eles comiam banana ouro e ele comprou prata, pois só lembrara que era algum metal precioso) . Coincidentemente, ou não, no domingo seguinte ele ouviu uma pergunta similar. Onde estavam os ovos? Repetiram a busca na casa e no carro. Nada dos megalécitos. Ela chegou inclusive a conferir a nota do supermercado e constatou que tinham sido cobrados. Ele se sentiu culpado, afinal era o responsável por embalar as compras e, provavelmente esquecera os ovos no balcão do caixa. De qualquer forma, ficou com uma pulga atrás da orelha, não era um homem que acreditava em coincidências. Na semana seguinte prestou atenção redobrada ao empacotar e, depois de colocar caixas e sacolas no carrin...

Peregrino

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Quando José começou sua caminhada não sabia se ia parar em Belém do Pará, Belém da Judéia ou em Belém, Pensilvânia. É verdade que sua confusa falta de cultura geral fazia com que temesse vampiros se fosse para a última. Só tinha certeza que deveria ir em direção setentrional. Precisava achar o seu norte. Nos primeiros dias a caminhada foi tranquila, ao final da primeira semana os pés começaram a doer e o ritmo dos passos diminuiu bastante. A segunda semana foi de poucos progressos e muita água boricada nas bolhas que tinham se formado. Pouco a pouco foi se tornando um homem calejado. Tilomas formados, o ritmo voltou a aumentar e, em poucos dias já tinha ultrapassado a sua meta. Resolveu descansar por um dia inteiro. Alojou-se num hotel de caminhoneiros na beira da estrada e dormiu o sono dos justos. No dia seguinte, durante o café da manhã, conversando com alguns motoristas, conheceu Jorjão, que transportava milho pipoca no seu Fenemê ´62. Apesar da idade do veículo, Jorjão era moder...

Im- previsões

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Davam-se como o vinho e a toalha de mesa (Fabrício Carpinejar) Ninguém entendeu quando ele entrou à esquerda ao invés da direita. Não era aquela a direção que os levaria de volta para casa. A irmã perguntou o que é que ele estava fazendo, ele disse que estava indo até ali. Mistério. A namorada olhou para ele com um misto de curiosidade e cumplicidade. Poderia até não saber das suas intenções mas confiava no que ele fazia. Ele poderia até ter a intenção de surpreendê-la, mas sabia que era algo que beirava a impossibilidade absoluta. Além de nunca terem tido segredos entre eles eram tão parecidos que algumas vezes se assustavam com isso. Pegou outra rua que levava em direção oposta à da casa. A irmã se inquietava a cada nova troca de rota. Ela e o cunhado tinham sido convidados para um almoço, algo comum desde que o irmão e a namorada moravam juntos. Ele parou o carro num estacionamento. Pediu para todos descerem. Caminharam meio quarteirão e entraram no cartório. Só a irmã e o cunhado...

Um paradigma a menos

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Mensagem Ela achava que tinha saído com ele apenas para tomar um café. Quando muito uma caminhada pelo shopping   Não se surpreendeu quando ele perguntou se poderia levá-la a um lugar diferente, sabia que ele era um sujeito criativo e aceitou o convite.   Tomou um susto quando ele embicou o carro na entrada do estabelecimento. Chegou mesmo a corar, em seus não poucos anos de vida ela nunca tinha entrado num lugar daqueles.   Era uma mulher extremamente pudica e recatada, nunca imaginou que poderia fazer aquele tipo de programa fora das quatro paredes da sua casa.   Não era tão ingênua a ponto de não saber o que iria acontecer mas, para ela, aquilo era uma coisa de mulheres muito diferentes dela, mulheres liberais...ou liberadas, como definir melhor?   Ao mesmo tempo sentiu, sem tentar demonstrar, um certo entusiasmo com a ousadia dele.   Ele percebeu a mistura de desconforto e excitação nos seus olhos. Elegante, an...

Bonança

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Mensagem "We are such stuff as dreams are made on." (William Shakespeare)   Quando ele viu aquele rosto algo lhe disse que era conhecido. Extremamente conhecido, apesar disso não sabia exatamente de onde, ou quando.   Ela sorriu para ele e veio na sua direção. Ele retribuiu o sorriso e começou a pensar em formas de driblar a memória que o traia sempre quando mais precisava dela.   Foi salvo pela frase que ela usou para cumprimentá-lo. Não conversavam desde o dia da formatura dela.   As imagens começaram a correr rapidamente pela sua mente. Ele a conhecera na sua festa de formatura. Era a namorada de um dos seus colegas de classe.   Meses depois ele foi à formatura dela, que era da mesma classe de uma das suas primas.   Como ela ainda estava com seu ex-colega, acabaram sentando na mesma mesa e conversaram bastante durante a festa. Especialmente sobre Shakespeare de quem ambos gostavam.   Nos anos seguinte...

Lux in tenebris

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A vida lhe parecia uma noite interminável. E, de fato, era uma noite interminável. Não que não gostasse totalmente da escuridão mas a lua era uma companhia inconstante mudando de face todas as semanas e as estrelas se tornavam mais distantes à medida que a poluição urbana foi aumentando com o passar dos anos. Desejava o sol, aquele que aparecia nas fotos das revistas com as quais topava nos becos onde se refugiava do frio, mas tudo que encontrava eram sombras e penumbra. Algumas vezes acreditou que tinha encontrado a vereda que o levaria à luz. Entrou em túneis longos e úmidos imaginando encontrá-la no final deles. Saiu de todos e cada um deles de volta ao breu. Até o dia em que chegou à conclusão que a tal vida ensolarada era apenas uma ilusão criada pela literatura e pela imprensa. E desistiu de procurar. Passou a se contentar com a aparição quase mensal da lua cheia. Nem sempre surgia, se escondendo atrás das nuvens de alguma frente fria. Eventualmente, em noites mais claras, fixa...

Pancetta atômica

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Mensagem A despeito do patronímico, Hilário era um sujeito taciturno e macambúzio, não poucas vezes sorumbático.   O que não o impedia de desenvolver suas atividades profissionais de forma metódica e eficiente, lidava bem com as pessoas, mas não permitia nenhum tipo de aproximação que ultrapasse os limites da formalidade.   Seu estilo soturno também não o impediu de se casar e ter filhos. Estela, a esposa, era uma mulher alegre e divertida e apaixonada pelo marido.   Hilário, além de calado e metódico, era também um homem cheio de manias. Rejeitava quase a totalidade dos equipamentos modernos, usava o computador por necessidade profissional mas, em casa, se recusava a ter como cafeteiras elétricas (ainda que tivesse se rendido ao filtro de papel), máquinas de secar roupas (o sol e o vento existiam para isso mesmo) e, menos que tudo, forno de microondas.   Estela não dava bola para a cafeteira, afinal, quem fazia o caf...

A professora de sueco

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Ernani conheceu Linnea numa festa das nações no clube. Ele estudante de direito, ela secundarista e filha do cônsul sueco no Brasil. Paixão à primeira vista. Mal ele se formara, ela disse que o pai estava sendo transferido para Seychelles. Ele não teve dúvida, pediu-a em casamento, que aconteceu poucos meses depois. Tiveram três filhos Lennart, Ingrid e Axel. Todos educados de forma bilíngue, falavam fluentemente português e sueco. Para que não perdessem a prática, a mãe só falava com eles em português se fosse em algum papo sério com a presença do pai. Ernani nunca se importou com as conversas corriqueiras numa língua que não entendia e, quando iam para Malmö visitar a família a mulher e os filhos lhe serviam de intérpretes. Até o dia em que descobriu que no mesmo prédio da firma havia uma professora de sueco. Foi conversar com ela na hora do almoço. Queria aprender a língua, mas ninguém poderia saber que ele ia lá, queria fazer uma surpresa para a família na próxima vez que viajassem...