O garoto está de volta
Sou cria da década de 60.
Um tempo de efervescência cultural, política e, principalmente, musical.
Desse período vieram as minhas primeiras influências. Da minha mãe a música clássica e a popular brasileira (ahhh...a época dos grandes festivais), do meu pai as canções folclóricas franco-canadenses, da igreja a música sacra protestante.
Uma delas, no entanto, foi, e ainda é, marcante para mim. Os meus primos mais próximos eram cerca de 5 anos mais velhos que eu e, especialmente do Sérgio, eu recebi a herança do Beatles. Literalmente uma herança, não só da música, mas dos compactos que ele repassava para mim. Ainda os tenho por aqui. Não foi à toa que, já na pré-adolescência, o primeiro LP que comprei foi Help!
Um garoto que amava os Beatles e os Rolling Stones depois foi descobrindo o mundo do rock´n´roll, sem abandonar todo o resto que gostava. Continuei com descobertas. Do meu primo Alberto aprendi gostar de Peter, Paul & Mary e Joan Baez. No começo da juventude descobri o jazz.
Os Beatles, mesmo separados, não saíram do meu coração e dos meus ouvidos. Sofri com a morte de Lennon em 1980, em compensação em 1990 estava no Maracanã, assistindo o primeiro show de Paul McCartney (e vários outros depois desse).
Estamos em 2026. Paul McCartney acaba de lançar mais um disco. E que disco!
The Boys of Dungeon Lane é, provavelmente, um dos melhores discos de Sir McCartney. Do começo ao fim: uma coleção de baladas, canções românticas e, claro, rock´n´roll da melhor qualidade.
The Boys of Dungeon Lane saiu no dia 29 de maio de 2026, o primeiro disco de inéditas de Paul em mais de cinco anos. Foi gravado em sessões espalhadas por cinco anos, entre as pernas da turnê Got Back, alternando entre Los Angeles e o estúdio Hogg Hill Mill, dele, em East Sussex, na Inglaterra.
A história do disco começou de um jeito que só poderia acontecer com Paul. Cinco anos atrás, num encontro com Andrew Watt (coprodutor do disco) para um chá e uma troca de ideias, ele dedilhava o violão e tropeçou num acorde que nem ele mesmo reconheceu. Em vez de largar, mudou uma nota, depois outra, até chegar a uma sequência de três acordes. Watt sugeriu gravar ali mesmo. Dessa sessão nasceu a faixa de abertura, As You Lie There
É a velha curiosidade de garoto que Harry Enfield resumiu numa imitação certeira: o Beatle que ainda olha para o céu e o campo com espanto. São catorze faixas, sem instrumentais e sem os medleys de que ele tanto gosta. Cada ideia foi trabalhada até o fim Paul toca quase todos os instrumentos, no espírito do seu primeiro disco solo, o McCartney de 1970. Watt acrescenta guitarra, teclados e percussão, além de assinar a composição de cinco canções com ele.
E aqui vem o que mais aquece o coração de quem é da nossa geração. Home to Us traz Ringo Starr na bateria e dividindo o vocal com Paul. É o mais perto de uma reunião dos Beatles que teremos hoje. Dois filhos de Liverpool cantando os louvores da cidade onde cresceram: "you could be forgiven if you thought that it was rough, but it was home to us" (Ringo ainda aparece no pandeiro de As You Lie There (Goldmine). Nos backing vocals de Home to Us, duas vozes que nunca tinham se juntado antes: Chrissie Hynde e Sharleen Spiteri, do Texas.
O disco é, antes de tudo, uma viagem para trás. Days We Left Behind e Down South são os flashbacks mais explícitos. Na segunda, a carona pegada na estrada foi o jeito de conhecer George Harrison e Lennon "before we learned to twist and shout"; na primeira, o código secreto que Lennon e McCartney criaram entre si. Days We Left Behind, lançada como single em março, é de uma comoção difícil de aguentar. A voz mais frágil pelos anos só torna a coisa mais tocante.
O fim da jornada chega a Liverpool antes de Paul. Salesman Saint é dedicada aos pais dele, e ali surge o sabor jazzístico das canções que o casal gostava de dançar, com direito ao trompete, instrumento que o pai, Jim, tocava. Ripples in a Pond é para Nancy, a mulher dele. Life Can Be Hard, escrita durante a pandemia, lembra o clima de Flowers in the Dirt, e First Star of the Night é uma balada sobre aqueles dias em que parece chover por dentro.
A crítica tem recebido bem. A Goldmine chamou de um dos melhores discos dele no século XXI. O Paste falou de dois McCartneys disputando espaço no álbum: o nostálgico romântico e o sujeito selvagem, o mesmo que animava as experimentações de You Know My Name e Wild Honey Pie. Acrescenta que o melhor sempre saiu da fusão dos dois, como em Uncle Albert/Admiral Halsey, do Ram de 1971.
Aos 84 que completará no próximo dia 18, Paul ainda escreve, ainda canta, ainda olha para o céu com espanto. E me devolve, faixa por faixa, o garoto que herdou os compactos do primo Sérgio.

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