Cenas reais de um presente distópico
Há uma promoção que o século XXI oferece sem anunciar: compre um pesadelo e leve outro de graça. O cliente nem percebe a oferta, porque ela não é feita no balcão, é feita no bolso, no feed, no pulso, na recomendação que aparece antes de você saber que queria alguma coisa. Fábio Betti, num texto recente sobre George Orwell e Aldous Huxley, resume com precisão o que cada um dos dois conseguiu fazer ao leitor incauto: Orwell assustou pela brutalidade declarada, pela bota que pisa o rosto sem pedir licença; Huxley assustou de modo mais refinado, pelo prazer que adormece sem deixar marca. O que Betti nota, e que me parece o ponto central, é a suspeita que já rondava a geração dele: "o futuro talvez não escolhesse entre os dois, e fosse capaz de costurar a bota de Orwell ao sorriso de Huxley num mesmo e único tecido." (Fabio Betti, Diálogo transtemporal — George Orwell e Aldous Huxley , Substack, 26 jun. 2026.) O futuro não escolheu. O futuro terceirizou. Você paga para ser v...