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Baudrillard, Platão e Aristóteles

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Ainda que não haja uma relação direta, é impossível não sentir uma certa aproximação entre os simulacros de Baudrillard e a mimesis de Platão (e a contraposição de Aristóteles sobre o mesmo tema). Baudrillard fala em estágios da simulação, partindo da reflexão do real, para a perversão do real, daí para a ausência da realidade básica e finalmente a completa disjunção entre o que se mostra e qualquer realidade possível. Platão, do seu lado fala da realidade una e perfeita (primeiro nível), das cópias imperfeitas feitas pelo homem (segundo nível) e da reprodução artística como a mimese do que já era imperfeito (terceiro nível). Em A República, ele usa a expressão de três graus de separação entre a verdade e a simulação. Já Aristóteles, na sua Poética, era um defensor da mimética artística que, segundo ele, tinha quatro funções: a primeira antropológica, uma vez que mimetizar é inato à natureza humana, a segunda paidêutica (educacional), pois é pela mimesis que o homem adquire seus

O pecado da escuta

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Dizem os relatos bíblicos que, no princípio, Deus criou Adão e Eva e os instalou no paraíso, local onde poderiam usufruir de todas as coisas, exceto comer do fruto de duas árvores: a do conhecimento e a da vida. Como bons ouvintes, o casal escutou a recomendação e a obedeceu durante um tempo que as escrituras não definem a duração. Naquelas tardes fagueiras, à   sombra das bananeiras, debaixo dos laranjais! Como eram belos os dias. Eles escutaram e viram que isso era bom. Até o dia que apareceu um certo diabo disfarçado de serpente e começou a sussurrar no ouvido de Eva que o fruto das árvores deveria ser muito melhor que qualquer outra jabuticaba que eles comessem, além disso, se ela provasse tal maravilha, ela se tornaria igual a Deus. Eva escutou atentamente esse discurso e não só experimentou do fruto proibido como também foi contar a novidade para Adão, que também escutou e também atacou a especiaria. Cabum!! Apareceu o todo-poderoso e perguntou o que eles tinham aprontado (

A ditadura das séries

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  Na minha adolescência e início de juventude a novela das 10 da rede Globo era considerada cult (em oposição às dos demais horários que eram consideradas bregas), especialmente porque eram aqueles que “transgrediam” nos temas políticos e de comportamento sexual, bastante reprimidos nos anos 70 e começo dos anos 80. A maior parte delas foi escrita por Dias Gomes, mas também incluía outros nomes importantes como Jorge Andrade. Eu não assistia nenhuma delas. Por dois motivos básicos, o primeiro é que sempre abominei novelas, o segundo é que estudando de manhã, com aulas começando às 7h30 não dava para ficar acordado até tarde ou acabaria dormindo na sala de aula. O que me fazia um peixe fora d´água em muitas conversas. Mais de quarenta anos se passaram e eu continuo nadando no seco por não acompanhar as novelas contemporâneas que ganharam o epíteto de séries (mas continuam sendo, formalmente, folhetins ao melhor estilo do século XIX). Inclusive as próprias novelas da Globo, depois pa

Parafuso espanado

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  Quando um pensador é citado em diferentes livros de diferentes autores que eu gosto eu costumo ir atrás da fonte para saber mais a respeito. Foi o que aconteceu com o romeno Emil Cioran. Ele é conhecido por ser um filósofo mais pessimista que Schopenhauer, o que não é exatamente muito fácil, quase uma proeza, eu diria. É um cético radical. Caso você não saiba ou não lembre-se, o ceticismo é um sistema filosófico fundado pelo filósofo grego Pirro (318 a.C.-272 a.C.), que afirma que o homem não tem capacidade de atingir a certeza absoluta sobre uma verdade ou conhecimento específico. No extremo oposto ao ceticismo como corrente filosófica encontra-se o dogmatismo, cheio de certezas. O que não deixa de ser curioso, uma vez que ao afirmar peremptoriamente que não temos certeza de nada, acaba por criar o dogma da incerteza absoluta. Uma contradição inevitável. Para entender melhor as teses de Cioran fui atrás de algo a respeito dele. Encontrei um livro que se propõe a ser uma introd

Em busca da irrealidade perdida

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  Humankind can´t bear very much reality T.S. Eliot – Four quartets   A humanidade não suporta muita realidade, constatava Eliot em 1936, o tempo passado e o ponto futuro, o que será e o que já foi apontam para o mesmo fim que é sempre o presente. Existir é ser algo temporário, o homem não passa de um estranhamento que ele faz de si mesmo projetando-se no passado, no presente e no futuro, as três êxtases como definiria Heidegger, as três maneiras de estar fora de si mesmo. O tempo presente é a versão trazida a valor presente do cavaleiros do apocalipse (a escatologia bíblica, favor não confundir com os cavaleiros do zodíaco): a peste, a guerra, a fome e, finalmente, a morte. Essa é a realidade que explode na capa dos jornais, nas TVs, nas redes sociais e nos grupos virtuais, todos os dias. O passado não passa de uma memória irreversível, pode ter sido bom ou ruim, mas ficou para trás. O que nos resta é o futuro e a eterna esperança de encontrar nele alguma esperança redento

O olho de talião

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  para Jayme Serva, voz que clama no deserto Autoritarismo não é exatamente algo recente na história da humanidade, assim como nunca foi privilégio de alguma corrente ideológica, nem de raças tribos, povos ou nações, apenas variações de formas de sua aplicação. O exercício da “otoridade”, a prática de arbitrariedades autoritárias por pessoas que se acreditam imbuídas de algum poder, comumente na burocracia empoderada atrás de um escrivaninha, também não chega a ser algo inédito ou sinal dos tempos, basta ler um pouco da literatura a partir do século XVIII (antes disso as “otoridades” não davam seu imprimatur a quem as contestava) ou da história desde sempre, para encontrar exemplos de abuso desse suposto poder. Se ainda não existe, alguém que se dedicasse a estudar os micro autoritarismos provavelmente poderia escrever uma enciclopédia volumosa. E, por mais que isso nos pareça absurdo, sempre surgem novos autoritarismos, seja pela mudança da estrutura social, seja pela cultura

Rizoma, micélio e outros fungos quaisquer

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  Em 2005, o micologista americano Paul Stamets publicou seu livro Mycellium Running , um manual para o resgate micológico do planeta. Foi exatamente isso que você leu: cultivar mais cogumelos pode ser a melhor coisa que podemos fazer para salvar o meio ambiente. 25 anos antes, Gilles Deleuze e Feliz Guattari haviam publicado Mil Platôs , quase um tratado clássico de filosofia, que começa pela abordagem do que vem a ser um rizoma, propondo quase um jogo infinito [1] , sem começo, meio ou fim. Há cerca de dois meses, recebi pelo grupo de complexidade que participo, um artigo bastante extenso de Brandon Quitten chamado “Bitcoin is the mycellium of money” onde ele se baseia no livro de Stamets para traçar uma longa e detalhada analogia entre o micélio [2] e o mundo Bitcoin, e aqui cabe uma ressalva importante: Quitten faz esse paralelo exclusivamente em relação ao Bitcoin e não ao universo de criptomoedas, ainda que no decorrer do texto mostre como a existência de outras criptomoeda