sexta-feira, 31 de outubro de 2014

O discurso canalha


“O brasileiro, quando não é canalha na véspera, é canalha no dia seguinte.” Nelson Rodrigues

Desde os primórdios o homem se recusou a assumir os próprios erros. Adão disse que foi a mulher, Eva disse que foi a serpente.

A serpente não tendo a quem empurrar a culpa saiu rastejando, mesmo porque não podia nem apontar o dedo nem enfiar o rabo entre as pernas por questões anatômicas.

Time que perde o jogo faz a mesma coisa. Diz que a culpa é do juiz. Da torcida. Dessas regras que inventaram e, se não sobrar para mais ninguém, a culpa é do vendedor de cachorro quente no estádio que gritou mais alto na hora do chute e distraiu o goleiro.

Todos são perfeitos. Todos são maravilhosos. Todos são irrepreensíveis.

Como admitir, diante dessa grandeza e maravilha, que o adversário foi melhor?

Claro que deve ter acontecido alguma coisa estranha. E a coisa estranha só pode ter origens exógenas ao ser impecável.

Roubo, fraude, má fé, estelionato e outras desonestidades quaisquer são exclusivas dos outros. Nunca minha.

Pessoalmente estou cansado desse discurso vaidoso, alarmista e canalha.

Como diriam meus ancestrais: vá apoquentar a sua vovozinha!

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Males aleatórios


Paramécio sofria de cibercondria, uma doença cada vez mais comum nos meios digitais. Não havia notícia, meme ou post que não o levasse para a cama com todos os sintomas mencionados na Wikipédia ou site do Dr Dráuzio.

Uma tarde, o paranoico paramédico digitou uma palavra incorretamente e foi parar num glossário de estatística. Não entendeu nada e ficou apavorado, o que é que isso significaria na sua vida miserável e doentia?
Resolveu consultar todos os seus amigos médicos e todos os sites de saúde com a seguinte mensagem:

Doutor,
Preciso da sua ajuda. Estou sofrendo de uma enfermidade misteriosa que não é mencionada em nenhum compêndio médico digital.

Não sei se esta patologia é fatal ou se não é o caso de formar uma junta médica para me examinar e, quiçá, me recomendar algum centro de estudos no exterior.
Tenho tido dores nos quartis com muita frequência, existe a probabilidade que eu esteja com a mediana inflamada, o que pode se configurar num qui-quadrado fora de moda.

Não encontrei nenhum laboratório onde pudesse fazer um histograma. Tenho crises de variância todas as noites, sem nenhum intervalo.
Acredito que minhas medidas de dispersão estão fora da curva. Será que tenho algum outlier no pâncreas?

Se for da sua relevância e, sem querer fazer nenhuma média, percebo que minhas amostras estão cada dia mais aleatórias e sem nenhuma correlação. Estarei com algum desvio padrão?
Meus pictogramas estão muito discretos comparados à população. Minha função bidimensional é cumulativa.

Quem devo procurar? Um médico descritivo ou indutivo para a definição do meu problema.
Eternamente, ou muito atemporalmente, grato

Paramécio das Dores.