quinta-feira, 25 de abril de 2013

Autômato




Ligue seus botões.

Deixe a energia elétrica correr

dentro dos seus transístores.

Deixe óleo escorrer

Nas sua engrenagens.



Mecanicamente raciocina

Reflexos são condicionados

Automatizados.

Passos são medidos

Milimétricamente iguais.



O homem-máquina não se percebe

não se sente

não se manifesta.



Desobediência - não tem registro

Ele não é programado para viver

Mas para produzir



E, quando a máquina falha,

Não há problemas

É artigo de consumo

Usa-se e joga-se fora

No ferro-velho de nós mesmos.

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Uma mulher cabal

"...o que quero dizer é que deixei uma boa parte de mim mesma inacabada porque desperdicei demais meu tempo. Não  obstante..." (Lillian Hellman)

Quando Amanda acabou de ler essas linhas sentiu-se arrasada. Como uma mulher daquelas poderia se dizer inacabada. Era uma afirmação totalmente descabida.

Tomou uma decisão para a sua própria vida. Ela seria uma mulher cabal, jamais inacabada. Iria ao fim e ao cabo de todas as coisas.

Na manhã seguinte começou a levar a cabo seu intento. Fez uma faxina geral na casa e recolheu todos os cabos existentes dentro do imóvel.

Eram tantos que achou que nunca acabaria, mas acabou com uma caixa de fios emaranhados em cima da mesa da sala.

Começou a separá-los por tipo. Cabos de força, cabos paralelos e seriais, cabos de som, cabos USB...cabos e cabos.

Dentro de cada tipo passou a separá-los por calibre, por potência, por categoria e, finalmente, por cores.

Ao final do dia tinha todos os seus cabos classificados, etiquetados e guardados em caixas específicas para cada segmento.

Fez o acabamento de sua obra, colocando diferentes etiquetas adesivas para identificar o conteúdo de cada caixa.

Sentou no sofá, ligou a TV que passava o Cabo do Medo. Deu uma risada apesar do filme ser de terror.

Foi para o quarto, pegou a camisola no cabide e foi dormir.

Estava acabada.

domingo, 14 de abril de 2013

Contículo parequêmico, com algumas colisões



Foi num 31 de dezembro, em plena véspera do ano novo que Paulo Loupa carregou um cone negro de corpo poroso certo de que enfrentaria um crepúsculo longo.

Pensou consigo mesmo, é bom que seja já que se manifeste a erótica cacofonia da garota taluda, aquela imaculada dama, vestida de grife feminina.

Sabia que poderia criar um impasse sensual diante da possível gafe feminina e, como um pato tonto, desceu o fosso social e fez o ataque que queria na natureza.

A infame menina, de roupa parda, não resistiu ao menino nostálgico. Era uma malhada das cores, admiradora do sintagma masculino sem regra gramatical.

Tinha noção de que aquela era uma faca cara para pouco coco e, se esperasse segundos mais ele, sendo muito tolo, se enroscaria num tabu burocrático como se fora gado doente.

Não perderia a oportunidade de nenhuma maneira.

Dançou um samba baiano de importante tempo e guardou a tenra rama de lembranças num saco colorido.

Saiu convicto de viver uma matemática cheia de felicidade.

Parequema é nome duma repetição dum som ou duma duma sílaba do final de uma palavra e começo de outra. O parequema pode criar cacófatos. Parequemas viciosos chamam-se colisões.

quinta-feira, 11 de abril de 2013

O hemófobo

Olhando em retrospectiva, os pais de João começaram a entender uma série de atitudes dele durante a sua infância e adolescência.

A começar do seu nascimento. Os médicos da maternidade tinham falado que nunca um bebê tinha chorado daquela forma, mesmo antes de sair da barriga da mãe. E que nunca tinham visto um bebê parar de chorar tão imediatamente quanto quando ele acabou de ser lavado.

E continuou chorando lancinantemente a cada vez que se machucava, mesmo que fosse a mais leve arranhada. Os pais lembram quando foram chamados às pressas na escola pois João estava passando muito mal. Ficaram perplexos ao descobrir que o menino tinha começado a vomitar ao ver um colega se cortar com uma tesoura.

Em casa João se isolava. Não mexia numa série de objetos e, mesmo à mesa, tinha dificuldades em usar o garfo e a faca. Dificilmente assistia e televisão e saia correndo se a película tivesse alguma cena de violência.

Foi no princípio da adolescência que, finalmente, a família descobriu qual era o seu problema. O médico pediu uma série de exames para checar se os hormônios estavam se comportando bem e João desmaiou durante o exame de sangue.

Levaram-no a um psicólogo que depois de muito explorar a mente de João diagnosticou: o menino é hemófobo! A única cura seria fazer análise por tempo indeterminado. A família não tinha verba para isso, o jeito era administrar a situação da forma que desse.

E foi dando. Com alguns episódios de crise, como quando a irmã mais nova teve a primeira menstruação e, ouvindo a explicação, João resolveu que jamais se casaria, um ser sangrando em casa todos os meses seria intolerável.

O único custo que a família foi obrigada a carregar foi o da anestesia geral cada vez que João precisava fazer algum exame de sangue.

Já na juventude João descobriu os efeitos da vitamina K, e começou a comer verduras verdes em doses cavalares. Mais tarde passou a tomar suplementos da vitamina.

Chegou a tentar resolver o problema frequentando um grupo de apoio, os Fóbicos Anônimos. Não passou do primeiro encontro. Quando disse que era hemofóbico foi expulso da sala pelo mediador do grupo que o escorraçou gritando que hemofobia não era transtorno psicológico, era discriminação. João não teve tempo de explicar.

Continuou convivendo com seu medo e, além da vitamina K, começou a tomar medicamentos para hemofilia.

Morreu aos 30 anos com trombose generalizada, provocada por overdose de coagulantes.

quarta-feira, 3 de abril de 2013

A calcinha da discórdia


Jerônimo era o tipo de sujeito quadrado até o último milímetro da pele. Criado de forma espartana e com separação clara a respeito das “coisas de homem” e “coisas de mulher” nunca se sentiu confortável em situações em que precisava atravessar a linha divisória.

No salão de beleza que a mulher frequentava ele sempre esperava do lado de fora, mesmo que estivesse chovendo cântaros e moringas. Passava ao largo das portas de vestiários e banheiros femininos e, obviamente, jamais entrara em uma loja de lingerie.

Amélie, sua esposa, conhecedora das idiossincrasias do marido, quando precisava renovar o estoque de calcinhas e sutiãs ou ia sozinha ou, caso estivem juntos em algum shopping mandava-o ir dar uma olhada na loja de sapatos masculinos. Ele já sabia o que ela ia fazer.

Quando estavam prestes a comemorar a primeira década de casamento Jerônimo resolveu que era a hora de surpreender Amélie e não seria com mais um anel ou brinco caro que conseguiria isso.

Entrou no shopping, respirou fundo e começou a olhar as vitrines das lojas de lingerie.
Não sem corar a cada vitrine que via. Até que viu uma coleção de calcinhas de renda de diversas cores. 

Respirou mais fundo e entrou na loja. Pediu à primeira vendedora que encontrou uma calcinha de cada cor. 

Não contava que ela lhe perguntasse o tamanho que ele, obviamente, não sabia. Foi obrigado a ficar comparando o tamanho da vendedora ao de Amélie, o que foi o supra sumo do constrangimento.

Chegou em casa mais cedo. Colocou as calcinhas organizadamente sobre a cama e sentou-se para esperar a mulher.

Amélie estranhou sua presença em casa tão cedo. Ele se justificou dizendo que viera mais cedo para se preparar para o jantar de comemoração. Ela o beijou e foi se arrumar.

Os gritos não demoraram 20 segundos para começar:

" - Quem é a mulher brega que esteve nessa casa?!?"

" - Ninguém veio aqui meu amor..."

" - Seu mentiroso safado! Além de sair com outra mulher ainda foi arranjar uma de incrível mau gosto! "

Ele ainda tentou explicar que ele mesmo comprara o presente, mas não teve tempo.

" - Imagine só se Jerônimo Garcez alguma vez entrou, entra ou entrará numa loja de lingerie. Só pode ter chamado um "inha" para fazer isso com ele. Vergonhoso!"

Amélie arrancou a aliança, jogou em direção a Jerônimo e saiu batendo a porta.

Jerônimo não sabia se estava mais ofendido pela desconfiança da mulher ou pela sua crítica ao gosto dele.

Pegou as calcinhas. Jogou-as num balde com álcool e tocou fogo na renda.

E jurou a si mesmo que nunca mais entrava em loja nenhuma.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Tifalentices

Panacópios entosados polpatavam as crídias remacorentes dos bregórdios da curbina.

Caticantes e plínicos os grantetos se aclainaram nas simálias.

Piricintos e culticalos abrosaram os sespos enquanto tripentes divratavam os grutis jenesilados.

Inestiladamente Netente mesodou: "- Poriva bladatinto!"

Os quecos lizodaram as módinas e os telafânios abridiram as nalosidias.

Tões e destonos se mundiram palcotiquilantes nacontindo as chátanas.

E a sedona omarrou as madolivas.