domingo, 31 de março de 2013

Contículo diacópico

Amargo, o inefável chá amargo que me fora servido entre tantas e outros tantas beberragens caíram-me no esôfago, meu pobre esôfago, como se fossem litros de ácido, sulfuroso ácido.

Eu que, camonianamente cantava o amor, tão puro amor, comecei a retorcer-me em convulsões atrozes, mais que atrozes, formidandas.

Olhava-me no espelho, um deteriorado espelho que colocaram diante dos olhos, meus castanhos olhos e só via minhas rugas se multiplicando em mais rugas.

Debalde buscava um paliativo de boldo, ou algo similar a boldo mas só me esbaldava em gemidos.

Reminiscências álacres, reminiscências márcidas, reminiscências estranhas açodavam minha memória, cada dia mais fraca memória.

Subitamente ela entrou. Subitamente lançou sobre mim seu olhar, delicioso olhar e, como num passe de mágica, fez-se a mágica da regeneração completa do meu ser.

Nunca mais amargo chá. Nunca mais amargo boldo. Nunca mais amarga vida.


Diácope é uma figura de linguagem que consiste na repetição da mesma palavra em semelhante com a intercalaçao de outra. Do grego diakopé (corte)

sábado, 30 de março de 2013

Mistério na frente de caixa

Um domingo, quando ele chegou para o café da manhã ela perguntou onde ele tinha colocado as bananas. Automaticamente ele respondeu que não sabia, afinal era ela que guardava as frutas e verduras.

Durante a semana ele passou na feira perto do trabalho e trouxe uma dúzia de bananas erradas (eles comiam banana ouro e ele comprou prata, pois só lembrara que era algum metal precioso).

Coincidentemente, ou não, no domingo seguinte ele ouviu uma pergunta similar. Onde estavam os ovos? Repetiram a busca na casa e no carro. Nada dos megalécitos. Ela chegou inclusive a conferir a nota do supermercado e constatou que tinham sido cobrados.

Ele se sentiu culpado, afinal era o responsável por embalar as compras e, provavelmente esquecera os ovos no balcão do caixa. De qualquer forma, ficou com uma pulga atrás da orelha, não era um homem que acreditava em coincidências.

Na semana seguinte prestou atenção redobrada ao empacotar e, depois de colocar caixas e sacolas no carrinho ainda verificou se não tinha esquecido nada no caixa.

Ao chegar em casa, diferente da rotina habitual, ele guardou todas as compras e ela conferia o que era guardado com o ticket do caixa. A farinha de rosca tinha sumido.

Voltaram ao supermercado e foram diretamente ao atendimento a clientes. A atendente ouviu a queixa e chamou o gerente que já chegou com um pacote de farinha de rosca nas mãos, para a surpresa dos dois.

O gerente perguntou se era a primeira vez que isso acontecia e, ao saber das bananas e dos ovos, mandou um funcionário repor os produtos ao casal.

Eles queriam saber o que estava acontecendo. O gerente disse que não tinha autorização para explicar mas, caso acontecesse de novo, para avisar que todos os produtos seriam repostos.

Sairam intrigados e assim ficariam o resto da vida se, ao lado do carro não tivessem encontrado, estacionado ao lado deles, a van dos caça-fantasmas.