domingo, 29 de julho de 2012

Esplênio em distensão

Tária não era exatamente uma mulher qualquer, especialmente quando tornava-se imperativa.

Combatia ferozmente as mesóclises sem futuro, atribuindo-lhes ênclise quase que subjuntivamente exaltadas.

O infinito pessoal preposicionado chegava a lhe causar engulhos nada relativos.

Seus amigos eram apenas demonstrativos oblíquos quando lhe acometiam acessos subordinativos.

Com o tempo foi se tornando (ou tornando-se) uma louca varrida com piaçava flexionada em átonos.

Educadora que era, reconhecia sua queda para o segundo, uma vez que não suportava estar acima dos quintos.

Debruou-se laminarmente com o verbos defectivos aplicando emplastros repletos de cânfora.

Passou a perambular pelas ruas bradando metilas descompassadas.

Louca, louca, louca Tária. Conquistou meu esplênio em pleno inverno.

Acalminou-me de forma quente e apaixonada.

Louca Tária. A mulher que descontraiu as minhas mais profundas estruturas

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Um caso patológico


Ela definitivamente exibia um estado mórbido típíco da região dos mortos. Uma infusão grego latino a tornou o que era.

Casou por dinheiro, como se casavam muitas das romanas de sua época. Lycisca que o diga.

Mas não era uma qualquer, instalada nos recônditos das pedras pequenas ela se elevava sobre as oficinas de uma forma quastuosa.

Pedia referências sempre. Além de se certificar de todas as comprovações possíveis antes de se envolver com estranhos.

Queria ter certeza de que seu objetivo seria cumprido, não era uma garota de programa, queria remuneração de longo prazo.

Sabia de histórias medonhas de outras carcamanas que, em troca de parcas garantias, tinham se entregue a picaretas e sido vítimas de ursadas.

Não queria saber de trocas frequentes de alicerces. Nem se emparedava sem contrapartidas.

Rendeu-se pedagogicamente quando encontrou o seu objetivo. Um ser inteligente que falava várias línguas e fiador de bons costumes.

Contraiu matrimônio como quem fecha um grande negócio. Condominiou-se territorialmente com ele.

E foi feliz pela duração do contrato.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Bonança

Mensagem
"We are such stuff as dreams are made on." (William Shakespeare)
 
Quando ele viu aquele rosto algo lhe disse que era conhecido. Extremamente conhecido, apesar disso não sabia exatamente de onde, ou quando.
 
Ela sorriu para ele e veio na sua direção. Ele retribuiu o sorriso e começou a pensar em formas de driblar a memória que o traia sempre quando mais precisava dela.
 
Foi salvo pela frase que ela usou para cumprimentá-lo. Não conversavam desde o dia da formatura dela.
 
As imagens começaram a correr rapidamente pela sua mente. Ele a conhecera na sua festa de formatura. Era a namorada de um dos seus colegas de classe.
 
Meses depois ele foi à formatura dela, que era da mesma classe de uma das suas primas.
 
Como ela ainda estava com seu ex-colega, acabaram sentando na mesma mesa e conversaram bastante durante a festa. Especialmente sobre Shakespeare de quem ambos gostavam.
 
Nos anos seguintes tiveram encontros esporádicos. Uma vez num corredor de um shopping center, onde ela passeava com a irmã. Outra vez, em outro shopping,  cruzando nas escadas rolantes.
 
Perguntou o que ela fazia naquele evento. Lembrava que ela era médica e estranhou sua presença numa festa de entrega de um prêmio de jornalismo. Ela estava lá ajudando a irmã que era a responsável pelo buffet da festa.
 
Trocaram telefones e se despediram.
 
Nos dias seguintes a imagem dela não saia da cabeça dele. Não sabia se ela estava com alguém, arriscou convidá-la para ir ao teatro e jantar. Ela aceitou o convite.
 
Foram ver "A tempestade". No meio do segundo ato, quando Gonzalo dizia que ali tudo era vantajoso para a vida, ele notou que ela abria discretamente a bolsa.
 
Sairam momentos depois. Ela recebera uma chamada do hospital e precisava ir ver um caso de urgência.
 
Ele a levou e ficou esperando. Quando ela ressurgiu ela cochilava na sala de espera. Já era de manhã. Ela o convidou para tomarem café juntos.
 
Entre uma xícara e outro descobriram-se um no outro.
 
Entre uma xícara e outra entenderam porque o tempo demorara tanto em aproximá-los.
 
Cada um era o sonho e além do sonho do outro.
 
E cada um passou a ser a vida e muito além da vida do outro.
 
Imagem: "Miranda - The Tempest" de John William Waterhouse

domingo, 8 de julho de 2012

Vida animal

Mensagem
Quandos os ratos saem o gato faz jejum
 
Quem não tem cão não caça cocô na rua
 
À noite todos os gatos são parcos
 
Pagou o pato mas dispensou o couvert
 
Cada macaco na sua tribo virtual
 
Uma andorinha não provoca aquecimento global
 
Cão que ladra não deixa o vizinho dormir
 
Macaco que pula de galho em galho quer DST
 
Lobo em pele de cordeiro é perseguido pela PETA
 
Gato escaldado não morre de alegria
 
A perua não se veste na véspera
 
Focinho de porco não é filtro de linha
 
Em rio que tem piranha, jacaré vive arranhado
 
Se correr o bicho pega, a menos que seja uma tartaruga
 
Filho de peixe, alevino é.
 
Passarinho que come pedra morre de cálculo renal
 
Não se cutuca onça. Ponto final