domingo, 10 de junho de 2012

Lux in tenebris

A vida lhe parecia uma noite interminável. E, de fato, era uma noite interminável.

Não que não gostasse totalmente da escuridão mas a lua era uma companhia inconstante mudando de face todas as semanas e as estrelas se tornavam mais distantes à medida que a poluição urbana foi aumentando com o passar dos anos.

Desejava o sol, aquele que aparecia nas fotos das revistas com as quais topava nos becos onde se refugiava do frio, mas tudo que encontrava eram sombras e penumbra.

Algumas vezes acreditou que tinha encontrado a vereda que o levaria à luz. Entrou em túneis longos e úmidos imaginando encontrá-la no final deles.

Saiu de todos e cada um deles de volta ao breu.

Até o dia em que chegou à conclusão que a tal vida ensolarada era apenas uma ilusão criada pela literatura e pela imprensa. E desistiu de procurar.

Passou a se contentar com a aparição quase mensal da lua cheia. Nem sempre surgia, se escondendo atrás das nuvens de alguma frente fria.

Eventualmente, em noites mais claras, fixava seu olhar em alguma estrela.

O que ele nunca imaginou é que numa noite nublada, poluída e triste uma estrela na qual ele nunca reparara começaria a brilhar de uma forma mais intensa.

Num primeiro momento achou que era o final dos tempos. Estrelas não cresciam dia após dia como aquela.

No entanto, a medida que os dias passavam, a tal estrela brilhava mais forte e chegava cada vez mais perto.

Aquele brilho começou a iluminar o que estava a seu redor. Tenuemente, a princípio, depois foi se espalhando.

O mundo a seu redor foi ficando mais bonito, as cores foram aparecendo, as nuvens se tornavam mais claras, até conheceu mares que nunca vira antes.

Campos de flores, pássaros de todas as plumas, até os precipícios se mostravam deslumbrantes.

A estrela chegou tão perto que o invadiu e o arrebatou com luz e calor. Era infinitamente melhor do que aquilo que vira nas revistas.

Envolvido, guardado e cuidado pela imensa fonte de luz, ele reconheceu que sua vida começara, enfim, a ter sentido.

*Imagem: foto do quadro "Sunset" de Virginia Susana Fantoni

sábado, 9 de junho de 2012

Desafiando Neruda

Posso escrever os versos mais felizes essa noite.

Escrever, por exemplo: "A noite está nublada
e se escondem, ao longe, todas as angústias"

O vento da noite aquietou e o céu está em silêncio.

Posso escrever os versos mais felizes essa noite.
Eu a quero e todas as vezes ela também me quer

Em noite como essa a tenho em meus sonhos
e a beijo sem parar sob o céu infinito

Ela me quer e todas as vezes eu a quero também
Impossível não amar os mais lindo de todos os olhos.

Posso escrever os versos mais felizes essa noite.
Saber que a tenho. Sentir que nunca a perderei

Ouvir a noite imensa, ainda mais imensa com ela
Os versos caem na alma como uma tromba d´água

Que me importa se a noite está fria e chuvosa
Se a guardo no meu coração.

Isso é tudo. Ao meu lado a música continua
Minha alma está contente de tê-la

Como para me achegar a ela meus olhos a vem
Meu coração a tem e ela está comigo

Na mesma noite que escurece todos os gatos
Nós, desde sempre, nos tornamos um

Eu a quero, é certo, e como quero sempre mais!
Meu ouvido busca sua voz e toca o vento

Só minha, sempre minha. Como antes dos meus beijos
Sua voz, seu corpo claro, seus olhos infinitos.

Eu a quero, é certo, e como quero sempre mais!
É tão curta a vida para tão grande amor.

Porque em noites como essa a terei em meus braços
Minha alma não se contenta antes que chegue esse dia

Mesmo que esta seja a temporária dor que me causa
E esses sejam apenas mais uns versos que te escrevo.